“Para reverter a desertificação é preciso entender suas causas”

segunda-feira, 4 setembro 2017

Salomão Medeiros, diretor do INSA, fala da construção de uma base de dados sobre o semiárido e dos aspectos ambientais, econômicos e sociais do processo da desertificação

O diretor do Instituto Nacional do Semiárido (INSA), Salomão de Sousa Medeiros, conhece o semiárido desde que nasceu. Natural de Sousa (PB), ele é graduado em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e possui mestrado e doutorado em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Antes de chegar à diretoria do INSA, ele foi pesquisador do instituto na área de recursos hídricos para o Semiárido brasileiro.

Nessa entrevista ao Nossa Ciência, Salomão Medeiros fala sobre o trabalho que o INSA vem realizando na construção de uma base de dados com informações econômicas, sociais e ambientais dos 1.135 municípios que estão na região do semiárido. As diferentes tecnologias usadas para obtenção de água como a dessalinização, reuso, captação e armazenamento das chuvas são apontadas por ele como soluções viáveis no combate à seca. O engenheiro também afirma que é possível reverter a desertificação, mas para isso é preciso entender suas causas.

Nossa Ciência: Convergência de conhecimentos sobre o semiárido é possível ou depende da liberação de recursos?

Salomão Medeiros: A convergência já existe, é recente e precisa ser ampliada. Hoje, a academia vem trabalhando também com as comunidades, é um desafio. Esse é um desafio que requer tempo, uma equipe multidisciplinar e sensibilidade, porque vamos tratar com pessoas que tem limitações do ponto de vista básico: acesso a alimentos, acesso à água. Então, o trato, a abordagem é um pouco diferente das pessoas que são dotadas dos recursos básicos. A academia está indo, apesar de tímida, e esse é um percurso que não tem volta, pois quem não mostrar que a pesquisa serve para a sociedade, essas pessoas vão ficar para trás, fadadas ao insucesso. A própria Capes colocou que os números não são mais suficientes, é preciso qualidade, que ao meu ver passa por impactar, que a pesquisa impacte a população. É dessa forma que se constrói, junto com a população.

NC: O INSA está investindo numa base de dados sobre o semiárido?

SM: Nós temos feito um trabalho nessa direção e começamos a colocar números dentro do semiárido, por exemplo, números de estabelecimentos agrícolas, PIB. Esse trabalho nada mais é que pegar os dados do IBGE e fechar com os 1.135 municípios do semiárido. Então, estamos fazendo esse esforço que é grande, porque o volume de informações produzidas de ordem econômicas, social e ambiental é muito grande. As vezes, não temos tempo de atualizar esses dados sistematicamente, devido ao número de pessoal que dispomos, mas isso é fundamental.

“Quem não mostrar que a pesquisa serve para a sociedade, vai ficar para trás.”

NC: Qual sua opinião sobre o projeto realizado num assentamento no município de Milagres, no Ceará?

SM: Eu conheci essa experiência há três, quatro anos, estive lá. É uma experiência bem interessante que envolveu a comunidade, que participou em toda parte de escavação da obra, montagem das tubulações etc, e também na pesquisa, nas definições, por exemplo, do que seria plantado com a água de reuso. Eles que deram as opções. Eu conheço esse trabalho, muito intenso principalmente por parte da Ufersa, um trabalho digno de Qualis, pelo envolvimento e pelo impacto. Talvez se nós no INSA tivéssemos toda uma equipe multidisciplinar que, por exemplo, levantasse todo um histórico sócio econômico, provavelmente iria constatar que aquelas famílias dali tiveram uma melhora na questão das doenças de veiculação hídrica por conta da coleta e tratamento do esgoto. Talvez, se na época, eles tivessem feito um levantamento sócio econômico e de saúde poderiam ter detectado que esta ação causou melhorias na saúde da comunidade.

NC: Campina Grande é uma cidade com seríssimos problemas hídricos. O INSA estuda soluções para cidades de médio e grande porte?

SM: Sim, nós não somos um instituto que trabalha só a questão rural, mas a urbana e a questão do porte também. A parceria INSA, UFCG e UEPB é dentro de uma perspectiva do reuso industrial para que seja otimizado nesses municípios maiores. Há necessidade de geração de uma tecnologia de tratamento para reuso industrial para municípios como Campina Grande (PB), Mossoró (RN), Feira de Santana (BA). Agora, as cidades maiores são menos vulneráveis do ponto de vista econômico e na questão hídrica, sempre as maiores cidades são privilegiadas devido ao número de pessoas. Então, a gente vê um monte de municípios que são abastecidos pelo mesmo manancial, mas a prioridade é Campina Grande. Por isso que nós investimos muito mais nesses pequenos municípios devido a toda falta de poder de barganha, a gente tenta levar e convencer os gestores que a tecnologia de captação para o meio urbano é importante como fonte complementar, entre outros aspectos.

“Temos que ter um leque de tecnologias que possam melhorar a vida das pessoas.”

NC: Em 1135 municípios, são 1135 prefeitos. Há alguma ação direcionada, seja do INSA ou de outra instituição, para conversar com esses gestores para que eles entendam a riqueza do lugar semiárido?

SM: Nós fizemos uma tentativa junto as federações de municípios, estive na Famupb da Paraíba. É complicado, tem que ter a sensibilização do gestor. Já conversei com vários prefeitos e as emergências dos pequenos municípios, não permite que eles planejem. O gestor vive de apagar incêndios, ele não tem tempo de planejar, discutir. São problemas estruturantes graves, falta de hospital, por exemplo, então a solução é levar para outro município. Eles ficam dentro dessa rotina e isso consome eles, não lhes sobra espaço para uma discussão de como superar a causa. As vezes a causa é a falta de esgotamento sanitário no município, por exemplo na questão da saúde. Eles acham que uma discussão, um planejamento sobre isso está num horizonte muito distante deles. O INSA tem tentado fazer esse papel, mas ele sozinho não consegue emplacar dentro dessa discussão para que ela tenha um amadurecimento por parte dos prefeitos no quesito planejamento, de como planejar seu município para superar a questão hídrica, de esgotamento sanitário.

NC: De quem seria esse papel?

SM: Acho que de todos nós. Qualquer esforço que seja feito, desde que combinado, pois envolve nove estados. Cada município tem uma prioridade. Há uma complexidade envolvida, não dá para uniformizar, mas há um ponto de convergência: água. Na maioria dos municípios o problema é água. E estou falando de água não para produção, e sim água para as pessoas. E dentro das pessoas eu coloca aquelas do meio rural que são esquecidas.

NC: Já temos conhecimento, ciência, tecnologia capazes de resolver esses problemas?

SM: Não dá para uniformizar, temos essa mania, mas o mundo é diverso. Não temos como chegar e dizer “a solução é esta”. Mas nós temos avançado bastante. Há várias comunidades rurais do semiárido que vem utilizando diversos tipos de tecnologias, nessa questão da água, seja para beber, seja para produzir. Acho que é por aí, não dá para uniformizar, pois as necessidades das pessoas são diferentes. As organizações sociais tem desempenhado um papel importante no que tange as questões do semiárido, porque já entenderam que não dá para uniformizar, tem que diversificar e tratar as diferentes necessidades.

Edna Ferreira e Mônica Costa

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