Depressão pode afetar o crescimento do câncer Pesquisa

sexta-feira, 13 outubro 2017
Queda de imunidade causada pela depressão facilita o crescimento do câncer. Foto: Jr. Panela/UFC

Pesquisadores do Ceará confirmaram, em modelo animal, que tumores podem crescer mais rápido em pacientes depressivos

Como a nossa mente tem influência no crescimento do câncer? Na busca de respostas para essa pergunta, pesquisadores do Ceará avaliaram o nível de crescimento de tumores em animais que apresentam sintomas típicos da depressão. Os estudos seguem a tese de que a queda de imunidade causada pela depressão facilita o crescimento do câncer. De acordo com a pesquisa, doenças psiquiátricas podem ter relação direta com o modo como o câncer se desenvolve, inclusive influenciando no crescimento dos tumores.

Nos animais com comportamento depressivo, o crescimento constatado do tumor chegou a ser três vezes maior, em um mesmo período de tempo, em comparação ao crescimento em animais saudáveis. O estudo foi desenvolvido por equipes do Laboratório de Neuropsicofarmacologia e Psiquiatria Translacional e do Laboratório de Oncologia Experimental (LOE), ambos do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade Federal do Ceará.

As causas biológicas para tanto ainda estão sendo avaliadas, mas os pesquisadores trabalham com a possibilidade de o elo entre as duas doenças se dar no processo relacionado ao metabolismo da serotonina, neurotransmissor responsável por fatores como indução de bem-estar, redução de ansiedade e ativação da memória. A queda no nível de serotonina está relacionada à manifestação de comportamento depressivo, agressivo ou ansioso.

As pesquisas são feitas pelo Laboratório de Neuropsicofarmacologia e Psiquiatria Translacional e pelo Laboratório de Oncologia Experimental (Foto: Jr. Panela/UFC)

Na via de metabolização da serotonina, também estão presentes substâncias que induzem estresse oxidativo (desequilíbrio entre a formação e a eliminação de agentes oxidantes no organismo) de células e influenciam o padrão de crescimento do tumor. Além disso, essa via é relacionada a alterações na imunidade.

“O próximo passo é entender como esse processo altera o cérebro do animal deprimido e como isso repercute na imunidade dele e, por conseguinte, na evolução do câncer”, explica a Profª Danielle Macedo, orientadora da pesquisa.

Trauma, uma porta para a doença

Para realizar o estudo, os pesquisadores desenvolveram um modelo indutor da depressão em camundongos ainda em fase inicial de vida. Durante 13 dias, por uma hora diária, o recém-nascido foi separado da mãe.

A opção pela separação como forma de induzir a depressão foi em razão da durabilidade das consequências psicológicas que um trauma no início de vida pode gerar. “Queríamos entender como um evento precoce na vida é capaz de deflagrar alterações comportamentais a longo prazo e que impacto isso tem para a saúde mental e sistêmica da pessoa afetada”, explica Danielle.

A orientadora da pesquisa, Profª Danielle Macedo, segue a hipótese de que a relação entre câncer e depressão se dá pela metabolização da serotonina (Foto: Jr. Panela/UFC)

Para constatar que o camundongo adulto está realmente deprimido, é feito um teste chamado “suspensão de cauda”, cujo objetivo é provocar uma reação no animal. “Quando um ser está deprimido, ele se entrega. Não tem mecanismo de defesa para sair de uma situação estressante e difícil”, explica.

A partir disso, é feita a inoculação de células de melanoma (câncer de pele) nos animais depressivos e em animais sadios. O tempo total, desde a inserção das células até a avaliação final do crescimento tumoral, foi 25 dias.

Com o avanço da pesquisa e da comprovação da influência da serotonina nesse processo, tratamentos futuros voltados simultaneamente ao câncer e à depressão podem ser viáveis.

A relação entre as doenças psicológicas e o câncer já foi objeto de outros estudos na literatura médica, sobretudo no que se refere à resposta às tentativas de cura da neoplasia. O ineditismo da pesquisa consiste em associar a evolução do tumor a uma depressão provocada por trauma.

Ainda que a primeira célula modificada não tenha surgido por conta de um evento traumático, a pessoa que já possui tendência ao câncer pode ter imunidade reduzida e, portanto, encontrar no evento o estopim para o desenvolvimento da doença.

Vantagens

Para a Profª Danielle, doenças psiquiátricas como a depressão, em face do câncer, são vistas como secundárias, com tratamento visando muito mais ao controle do crescimento do tumor do que à saúde mental do paciente. Com o avanço da pesquisa e a comprovação da influência da serotonina nesse processo, tratamentos futuros voltados simultaneamente às duas doenças podem ser viáveis. Até mesmo estratégias de prevenção devem ser pensadas a partir do estudo, por meio do fortalecimento do sistema imunológico após um trauma ou o início de um comportamento depressivo.

Redação com informações da Agência UFC

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