Mulheres na ciência Pesquisa

sexta-feira, 8 junho 2018

Grupo da UFPB cria projeto para discutir as questões de gênero na produção científica

As pesquisas lideradas por elas, tanto na iniciação científica quanto nos cursos de especialização, de mestrado e de doutorado, não têm tido a atenção que merecem. Essa foi a conclusão a que chegou um grupo de seis alunas de graduação e pós-graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Ao perceberem esse desprestígio, elas criaram o projeto “Mulheres na Ciência”, para dar visibilidade à produção científica de mulheres da instituição.

As pesquisadoras consideraram dados estatísticos da própria universidade que mostra, por exemplo que as mulheres já compõem a maior parte dos estudantes da UFPB. De acordo com a Pró-Reitoria de Graduação (PRG), dos 31.727 matriculados hoje, 51,53% são do gênero feminino. Nas pós-graduações, conforme a Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG), de 5.196 discentes ativos, 2.792 são mulheres, correspondendo a 53,73%.

No projeto, a cada sexta-feira, uma pesquisadora é convidada a apresentar seus estudos para alunas e alunos, no auditório do Departamento de Sistemática e Ecologia, no campus I da UFPB. De agosto de 2016 até hoje, já foram realizadas mais de 30 palestras sobre temas das mais diferentes áreas do conhecimento. Orientada inicialmente pela professora Louisa Andrade, do Departamento de Biologia Molecular, a iniciativa vem sendo guiada pelas estudantes.

“A recepção tem sido bastante positiva”, avalia a estudante do 8º período Thayná Accioly, que integra o grupo. “Contamos com apoio e incentivo de muitos alunos e professores da instituição. As pessoas sempre nos procuram para saber do tema da semana e se mostram muito empolgadas com o projeto. O público é, de certa forma, balanceado. Mas contamos com um número maior de mulheres”, relata.

Alunas de graduação e pós-graduação em Ciências Biológicas fazem parte do projeto. Foto: Divulgação.

Tentativas de deslegitimação

De acordo com pesquisa realizada pela editora holandesa Elsevier e divulgada em março deste ano, metade dos artigos científicos publicados no Brasil é de autoria de mulheres. No entanto, elas permanecem sendo as menos citadas em trabalhos acadêmicos.

Para Thayná, esse descrédito também é dirigido às mulheres quando elas assumem ações proativas, sobretudo quando o objetivo dessas iniciativas é a conscientização e a emancipação individual e coletiva da minoria política que são. “O maior desafio é fazer com que algumas pessoas que ocupam cargos de poder na universidade, geralmente docentes, entendam que o Mulheres na Ciência é uma atividade legítima e que deve ser respeitada”, defende a estudante.

Ela conta que, apesar da boa recepção, ainda há quem desvalorize o projeto empreendido pelo grupo, ao considerá-lo segregador, e com críticas a respeito de um suposto discurso de ódio com relação aos homens. “Isso é exatamente o oposto do que tentamos fazer. Muitas vezes, apesar de termos reservado o auditório com meses de antecedência, o espaço é apossado, sem aviso prévio, para atividades que poderiam ser feitas em outras áreas”, reclama a discente.

Professoras não são poupadas

A professora Louisa Andrade atua há dois anos na UFPB. Pelo que observa, há proporções iguais entre homens e mulheres na docência da instituição. Segundo a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progep), o número de docentes do sexo feminino é ligeiramente superior ao do masculino, sendo 51% de um total de 2.825 em efetivo exercício. A categoria dos técnico-administrativos é a única em que o total de homens ainda prevalece, representando 50,83% dos 3.545 servidores dessa categoria.

Apesar de professoras serem maioria e terem titulação tão alta quanto a dos colegas, elas não são poupadas quando o assunto é machismo, embora de modo discreto. “Acredito que minhas opiniões, muitas vezes, são menos consideradas por eu ser mulher e por ser professora há pouco tempo. Mas, como profissional, nunca fui destratada ou desmerecida de maneira mais contundente. Sempre foram situações sutis. Mesmo assim, causam incômodo e frustração”, desabafa Louisa.

Comportamentos de natureza ofensiva durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções também são comuns. “O assédio moral é frequente na comunidade acadêmica. Já passei por algumas situações. Porém, felizmente, nunca vivi uma de assédio sexual“, conta a docente.

A professora Louisa Andrade, do Departamento de Biologia Molecular, ajudou a orientar as alunas do projeto. Foto: Divulgação

Louisa já palestrou duas vezes no projeto: em agosto e em dezembro de 2016. Na primeira apresentação, exibiu os resultados da sua pesquisa do curso de doutorado. A demonstração, intitulada “Resposta imune inata contra Leishmania amazonensis”, exibiu dados sobre o papel das células de defesa denominadas de neutrófilos, que representam a primeira linha de combate dos organismos contra infecções, em resposta ao agente infeccioso do parasita Leishmania amazonenses em camundongos.

“Antes de começar a apresentar meus resultados, aproveitei a oportunidade para fazer uma homenagem a pesquisadoras muito importantes na minha área de atuação, entre elas a citogeneticista estadunidense Bárbara McClintock, que descobriu os elementos genéticos móveis, que causam o fenômeno conhecido como transposição genética, e que recebeu o prêmio Nobel de Fisiologia em 1983”, rememora. A química britânica Rosalind Franklin, figura-chave para a determinação da estrutura do DNA e que, infelizmente, não recebeu o prêmio Nobel por ter falecido em consequência de um câncer de ovário, foi outra pesquisadora lembrada, “todas foram mulheres à frente do seu tempo e que sofreram preconceitos”.

Na segunda palestra, Louisa trabalhou o tema “Microbiota e Alimentação”, discutindo como o consumo de alimentos impacta na composição da microbiota intestinal e os efeitos que tais bactérias têm na saúde humana e no desenvolvimento de patologias, como a diabetes e a obesidade.

“Considero o projeto Mulheres na Ciência importantíssimo por dar voz a mulheres cientistas e para que as estudantes tenham modelos de profissionais nos quais possam se espelhar”, conclui a professora.

“Poderíamos render muito mais do que somos cobrados”, relata Rosilene Costa. Foto: Divulgação.

Técnico-administrativas subaproveitadas

A técnico-administrativa Rosilene Costa tem 35 anos de serviço público e trabalha há 16 anos na UFPB. No próximo mês de agosto, defenderá tese intitulada “Relações Étnico-Raciais na Educação Infantil: contribuições da teoria das representações sociais”, pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPB.

O estudo foi realizado em uma escola quilombola no bairro de Paratibe, em João Pessoa. Em resumo, analisará a representação que oito profissionais, entre professores e gestores, têm de cerca de 60 alunos negros.

Para ela, o conhecimento que acumulou ao longo do tempo, por meio da pesquisa, é subaproveitado no exercício das suas funções. “Algumas pessoas consideram os técnico-administrativos como tarefeiros, mas, em alguns casos, temos a mesma formação e titulação. Podíamos ser mais bem aproveitados”, diz Rosilene. Embora trabalhe avaliando projetos de extensão submetidos para editais, como o do Programa de Bolsas de Extensão (Probex), da Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PRAC), ela não pode coordenar projetos e orientar estudantes.

“Já me sugeriram submeter projeto com assinatura de professor. Não faço projeto para outra pessoa assinar. Não considero correto precisar de um docente na minha equipe para legitimar o meu trabalho. É uma discriminação institucionalizada. Por outro lado, participo de bancas na própria universidade. Poderíamos render muito mais do que somos cobrados”, relata.

Às vezes, a procuram para tirar dúvidas sobre um ou outro projeto. Mesmo estando sozinha na sala em que trabalha, não a reconhecem como alguém capaz de avaliar projetos: “a pessoa chega à porta, olha, me vê, e pergunta se a ‘Rosi’ está. É uma situação discriminatória. Eu sou invisível. Quase não há negros entre os servidores”.

Rosilene já fui confundida com aluno e com profissional de serviços gerais. “Não é que não sejam ocupações dignas. Claro que são dignas. Mas me incomoda a ideia de que negros são habilitados para ocupar apenas funções desassociadas da intelectualidade. Na pesquisa existe isso também”, aponta a doutoranda.

Ela conta que, assim que concluiu o curso de mestrado, com dissertação sobre a educação infantil como direito da criança e da sua família, pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), ao tentar se inscrever em um concurso para professor da Universidade Federal Sergipe (UFS), no início dos anos 2000, não foi considerada uma candidata possível.

“Ao chegar, encostei no balcão e resolvi esperar, ao suspeitar que as duas atendentes estavam ocupadas. Contudo, foi só chegar uma pessoa branca que se prontificaram em recepcioná-la. Finalizado o atendimento, perguntaram o que eu fazia ali. Disse que também queria me inscrever para o concurso. Em seguida, afirmaram que era necessário ter mestrado. Disse que tinha e certificado por uma das dez melhores instituições do País, na época. Deram-me informações e os formulários para preenchimento com muita má vontade”. Depois dessa seleção, nunca mais tentou ser professora.

Rosilene deve se aposentar em fevereiro de 2019, mas não quer parar. “Não estudei tanto para parar agora, com 54 anos. Quero dar aulas em universidades públicas ou privadas”, persevera. Na UFPB, Rosilene nunca sofreu qualquer tipo de assédio. Contudo, em outras instituições, já. “Precisamos falar mais sobre isso”, alerta. “Eu era muito nova. Se fosse hoje, com a cabeça que tenho, teria denunciado. Não sei se daria em alguma coisa porque geralmente quem protagoniza ocupa cargo de alto escalão”.

Fonte: Ascom da UFPB

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