Pesquisa alagoana descreve ação tóxica de peixes Pesquisa

segunda-feira, 2 abril 2018
Peixe-escorpião também conhecido como beatriz. Foto: Divulgação UFAL

O fato novo é atividade de intoxicação desses animais marinhos ser oposta ao que é encontrado nos animais terrestres peçonhentos

O peixe-sapo, mais conhecido como niquim, é facilmente encontrado nas lagoas, um dos principais ecossistemas do estado alagoano. Já o peixe-escorpião, também chamado de beatriz, vive escondido em recifes de coral, como os que podem ser encontrados nas praias de Maceió e também nas do interior de Alagoas. O comum entre os dois é o raro e até então desconhecido mecanismo de toxicidade, ou seja, o modo de atuação da peçonha (popularmente, chamada de veneno) quando inoculado no ser humano.

A descoberta é do grupo de pesquisa de Bioquímica e Biologia Molecular, do Laboratório de Metabolismo e Proteômica (Lamp), vinculado ao Instituto de Química e Biotecnologia (IQB) da UFAL, e surpreendeu o meio científico pelo fato desses animais marinhos apresentarem uma atividade de intoxicação totalmente oposta ao que é encontrado nos animais terrestres peçonhentos.

“Em cascavéis, jararacas, aranhas e escorpiões, geralmente, o mecanismo de toxicidade é inibir uma atividade enzimática específica, chamada enzima conversora. Ocorre que nós encontramos a própria enzima nas peçonhas dos peixes sapo e escorpião, ou seja, são animais que usam a enzima e não a inibição dela. É algo totalmente diferente de tudo o que é visto nas espécies terrestres”, explica o doutor em Bioquímica e coordenador da pesquisa, professor Hugo Pereira.

Ele explica também que as peçonhas dos animais terrestres são mais líquidas, diferente da dos animais marinhos pesquisados, que são quase gelatinosas, viscosas e demoram mais tempo a dissolver.

Diante desse importante achado científico, o desafio agora é explicar como essas enzimas funcionam nas peçonhas. “Temos que entender como podem ser tão tóxicas, se nos animais terrestres você tem a inibição delas como parte da toxicidade. Isso explica a ineficácia em se buscar tratamentos, porque, em todas as espécies terrestres, você encontra a inibição dessa enzima como parte do mecanismo da toxicidade e isso não ocorre com os peixes sapo e escorpião”, esclarece.

Preocupação maior com o peixe-sapo

Foto: Divulgação UFAL

Além da importância acadêmica, a continuidade da pesquisa tem relevância por causa de seu impacto social, principalmente, em Alagoas. Embora não seja um caso de notificação obrigatória pela Secretaria de Estado da Saúde, é alta a incidência de pessoas feridas pelo niquim e com consequências sociais graves, uma vez que não há antídoto que neutralize a ação da peçonha produzida pelo animal.

Os principais atingidos são pescadores, sobretudo, os que trabalham na pesca do sururu. Ao mergulhar na lagoa e remexer a lama para retirar o molusco, o trabalhador entra no ambiente do peixe-sapo que, para se defender, recorre ao mecanismo de defesa o qual é formado pelo sistema inoculador.

“É fatal quando esse encontro ocorre, não tem como evitar, infelizmente. O hábito do peixe é viver na lama, ficar de repouso no leito da lagoa, justamente onde fica o sururu. Não tem como evitar”, esclarece o pesquisador.

A substância tóxica do niquim não é letal, mas pode deixar sequelas incapacitantes, como a perda total do membro ou da sua função motora. O professor Hugo Pereira entrevistou vários pescadores e se surpreendeu ao ver quantos deles não apresentam a capacidade integral para o trabalho. “É difícil encontrar um com todos os dedos funcionando. Eles [pescadores] dizem ‘esse não mexe’, ‘perdi esse em um acidente’, ‘já tive vários acidentes’”, conta. Mas o pesquisador alerta que nem todos os feridos pelo peixe perdem os movimentos, pois depende da idade e do quadro físico de cada pessoa.

As principais queixas daqueles que se acidentam são dor intensa e febre. “ ‘Dói o osso, professor’, é o que eles dizem. E esse ‘empeçonhamento’ é muito triste, pois tem um lado social. Ele fica impedido de trabalhar por semanas, porque é a mão ou o pé que perde movimento, às vezes, é preciso até amputar”, lamenta o pesquisador.

Para saber o número de pessoas acidentadas aqui no Estado, o pesquisador analisou os dados globais referentes a animais peçonhentos, fornecidos pela Secretaria de Saúde, desmembrando entre terrestres e marinhos.

Ao analisar os prontuários, foram encontradas 76 subnotificações (informações de prontuário) de acidentes com o niquim no período de três anos. “É um índice sete vezes maior que o do Ceará. Enquanto a secretaria de Saúde do estado cearense relata 21 casos em 10 anos, a Secretaria de Alagoas apresenta 76 em três anos de coleta. E essa prevalência pode ser ainda maior, uma vez que aqui há muito mais lagoas e não há notificação de acidentes com animais marinhos peçonhentos”, diz o pesquisador, num comparativo com o estado de Ceará, onde há uma central exclusiva para comunicação de acidentes com quaisquer animais marinhos peçonhentos.

Encontrar um tratamento eficiente é um dos principais desafios do grupo de pesquisa da UFAL. Hoje, ao ser picada por uma cobra, por exemplo, a pessoa vai ao posto de saúde e tem chances de receber um medicamento específico. No caso do peixe-sapo,isso não é possível, pois não há tratamento pela soroterapia, tal como é feito com os animais terrestres, nem paliativo. O principal procedimento adotado é a analgesia. “Todos os anti-inflamatórios não respondem bem, pois o principal quadro é de inflamação, com um grande inchamento do membro, às vezes com infecção secundária, que pode evoluir para uma gangrena, tendo possibilidade de perder o membro”, explica o pesquisador.

Publicação da pesquisa em revistas e livro

Hugo Pereira, pesquisador do Laboratório de Metabolismo e Proteômica, vinculado ao Instituto de Química e Biotecnologia da UFAL. Foto: Divulgação UFAL

A descoberta já resultou na publicação de livro e de três artigos em revistas científicas de circulação internacional. Com o título Atividades vasopeptidasícas da peçonha e do muco tegumentar, da editora Novas Edições Acadêmicas, o livro é um relato detalhado sobre como foi a descoberta do inusitado mecanismo de toxicidade dos peixes sapo e escorpião.

“São animais que nunca foram estudados e até esperávamos encontrar coisas muito diferentes, mas não opostas. É um tópico extremamente estimulante do ponto de vista cientifico, mas também há uma motivação social de entender e, uma vez entendido, interferir. E essa descoberta é destrinchada na obra”, assinala o autor. O livro foi bem recebido pela comunidade acadêmica e está sendo traduzido para o inglês. A obra será lançada pela editora polonesa Intech e distribuído na União Europeia.

Já os artigos, publicados em periódicos internacionais, abordam a descrição e o isolamento da atividade tóxica apresentada pelos animais marinhos. Dois deles foram publicados na revista Toxicon, do grupo Elsevier, um no mês de maio de 2015 e o outro em setembro.

O terceiro foi publicado no International Journal of Biological Macromolecules, também pertencente ao grupo Elsevier. Nessa publicação, o pesquisador explica que foi um estudo mais refinado, apresentando pela primeira vez o isolamento da enzima, chamada conversora de angiotensina, responsável pela atividade tóxica, caracterizando-a estruturalmente.

“Foi um artigo cientificamente mais desafiador, mas estamos nos motivando cada vez mais. Vamos continuar os estudos para compreender a ação dessa peçonha que se mostra tão diferente da dos terrestres. Há o desafio cientifico e também prático, pois estamos em Alagoas e é compromisso nosso poder melhorar a qualidade de vida das pessoas. E acreditamos que compreendendo esses componentes a gente consiga, sim, melhorar”, ressalta o professor.

Fonte: Ascom UFAL

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