Serpentes da Caatinga: Guia Ilustrado Meio Ambiente

quarta-feira, 18 outubro 2017
Thamnodynastes phoenix. Foto: Thaís Guedes

Resultado de tese de doutorado vira livro e revela que este bioma exclusivamente brasileiro é rico em espécies únicas

A Caatinga é rica em espécies de serpentes e hoje ocupa o 4º lugar no ranking de biomas mais ricos e com maior endemismo (espécies exclusivas ou únicas) de serpentes do país. Essa é a principal informação da publicação “Serpentes da Caatinga: Guia Ilustrado”, resultado da tese de doutorado da pesquisadora Thaís Barreto Guedes. “Hoje reconhecemos que 114 espécies de serpentes ocorrem na região (das cerca de 350 registradas para todo o território nacional). É bastante! E sabemos que 24 dessas espécies só ocorrem na Caatinga, são endêmicas! Não existem em nenhum outro lugar do planeta!”, comemora a pesquisadora que tem PhD em Biogeografia, Conservação e Herpetologia.

O trabalho de doutorado foi finalizado em 2012 e publicado em meio científico em 2014 em duas importantes revistas científicas internacionais (Zootaxa e Journal of Biogeography). Agora ele foi transformado em livro parte de uma coleção que também contém volumes para outros biomas brasileiros (como a Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal). O lançamento de “Serpentes da Caatinga: Guia Ilustrado” será nesta quinta (19) às 18h30 no Auditório do Museu Biológico do Instituto Butantan, em São Paulo-SP.

Serpentes da Paraíba: diversidade que precisa ser preservada

Ao lado de Thaís Guedes estão, na autoria da publicação, os pesquisadores Otavio Marques, do Instituto Butantan (que foi o orientador do doutorado de Thaís); André Eterovic, professor da Universidade Federal do ABC; e Ivan Sazima, do Museu de Zoologia da Unicamp. Ela explica que o objetivo da tese foi catalogar e mapear todas as espécies de serpentes registradas para a área da Caatinga (uma área de 850.000 km2). “Para isso eu coletei dados em museus de história natural e coleções científicas espalhadas por todo o país. Foi no doutorado que obtive os resultados mais expressivos e que foram usados de base para o livro em questão”, completa.

“Durante muito tempo a Caatinga foi considerada como pobre, sem vida e de pouca importância biológica e essa visão prevaleceu também entre zoológos/herpetólogos. No que diz respeito às serpentes, acreditava-se que a Caatinga não tinha fauna própria e que as espécies que ali ocorriam eram as mesmas que ocorriam na diagonal de formações abertas da América do Sul (que inclui também o Cerrado, Chaco e Pampas). E só mais recentemente, graças ao amplo estudo na área essa visão está paulatinamente sendo desfeita”, esclarece a pesquisadora.

Ineditismo

De acordo com a pesquisadora, apesar de esse ser o terceiro livro que trata das Serpentes da Caatinga até o momento, esse é um trabalho inédito. “O nosso trabalho é o primeiro que faz esse amplo estudo na área e fornece a primeira lista de serpentes endêmicas (exclusivas) até hoje”, afirma.

Catálogo reúne conhecimento sobre plantas medicinais da Caatinga

As outras publicações seriam “Répteis das Caatingas” de Vanzolini et al, publicado em 1980, que assinalava 25 espécies de serpentes para a região. O segundo é um capítulo do Miguel Rodrigues (USP) no livro “Ecologia e Conservação da Caatinga” publicado em 2003, que assinala 50 espécies de serpentes para a Caatinga. “Nenhuma dessas obras indicam uma lista de espécies endêmicas de serpentes para a região. Apenas afirmam, com base em dados de lagartos, que os endemismos na Caatinga estavam associados a regiões de solos arenosos (dunas quaternárias do Rio São Francisco) e aos brejos nordestinos (áreas de elevada altitude em meio a Caatinga)”, aponta Thaís Guedes.

Micrurus ibiboboca. Foto: Ivan Sazima

Preservação

A pesquisadora alerta para a necessidade de preservação do bioma diante do muito que ainda há para ser feito. Os especialistas sabem, por exemplo, que os endemismos estão relacionados a áreas de solos arenosos e brejos nordestinos. “Contudo, pela primeira vez também foi visto que existem 11 espécies endêmicas de serpentes cuja distribuição é totalmente coincidente com a caatinga semiárida de baixada, chamando a atenção para a importância em preservar também essa parte da Caatinga. Por exemplo, todos esses resultados bacanas vieram de um levantamento que, no geral, só fornece dados satisfatórios de 33% da área. Não sabemos muito sobre as espécies de serpentes de todo o resto.”, reforça.

Novos materiais na Caatinga

A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, e apesar dos recentes avanços ainda há muito a se fazer. Os pesquisadores acreditam que existem muitas espécies a serem descritas. Só no primeiro semestre deste ano, por exemplo, duas novas espécies de serpentes endêmicas foram descritas para a região. “O que nos preocupa é que mais de 51% da Caatinga está alterada e, perda de habitat é o maior causador de extinção. Vamos perder o que sequer conhecemos. Atualmente, oito espécies de serpentes endêmicas da Caatinga já se encontram em alto grau de ameaça (na lista brasileira de espécies ameaçadas publicada pelo ICMBio em 2016). Adicionalmente, só menos de 2% da região está protegida por unidades de conservação que já avaliamos que não protegem nem as espécies endêmicas e nem a história evolutiva das serpentes da Caatinga”, lamenta Thaís Guedes.

Pesquisa em andamento

Atualmente dedicada ao seu terceiro pós-doutorado, na Universidade Federal de São Paulo (USP), Thaís Guedes é também pesquisadora associada ao The Antonelli Lab na University of Gothenburg (Suécia), ao Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan e ao Laboratório de Herpetologia do Museu de Zoologia da USP. “Continuo fazendo pesquisa sim. Meu foco de trabalho é usar dados de distribuição dos organismos para análises de biogeografia e conservação em larga escala. Tenho usado dados de serpentes como principal base para os meus estudos”, ressalta.

Sistema de monitoramento da vegetação da Caatinga

Ela conta que a graduação foi na Universidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande-PB, onde estudou aspectos quantitativos e qualitativos dos acidentes ofídicos provocados por serpentes do gênero Bothrops (jararaca-da-seca) no estado da Paraíba. O mestrado foi na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal-RN, onde “praticamente morei por 1 ano em uma Unidade de Conservação na Caatinga (a ESEC Seridó em Serra Negra do Norte-RN) e coletei dados ecológicos das serpentes da área”.

O doutorado foi na Universidade Estadual Paulista e Instituto Butantan, em São Paulo-SP onde fez a tese sobre diversidade, distribuição, biogeografia e conservação das Serpentes da Caatinga. Já os pós-doutorados foram no Instituto Butantan e na University of Gothenburg, em Göteborg na Suécia.

Edna Ferreira e Mônica Costa

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