De olho no futuro Geral

sexta-feira, 20 abril 2018
Palestrantes da Campus Party, Anderson Cruz, Ângela Paiva, ao lado Francesco Farruggia e Sueldo Medeiros à direita. Foto: Luana França.

Reitora da UFRN, Ângela Paiva, e o professor do Instituto Metrópole Digital, Anderson Cruz, comentam participação na Campus Party e falam sobre a área tecnológica no Rio Grande do Norte

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte foi uma das principais articuladoras na realização da Campus Party em Natal. O Nossa Ciência conversou a reitora Ângela Paiva e o diretor do Parque Metrópole Digital, Anderson Cruz. Os dois fizeram um balanço do evento com ênfase no papel da universidade e do IMD e apontaram projetos desenvolvidos em prol do empreendedorismo, tecnologia e inovação na cidade.

Nossa Ciência: Já na coletiva de imprensa de abertura, o Francesco Farruggia (presidente do Instituto Campus Party), destacou o papel da UFRN em trazer a Campus Party para Natal. Como a senhora avalia o evento?

Ângela Paiva: Essa é a primeira Campus Party aqui e quando nós conhecemos o projeto, encampamos e candidatamos o estado e Natal para recebê-lo. Trabalhamos como parceiros junto ao Governo do Estado, à Prefeitura e outras instituições para organizá-lo. Aqui é um cluster de instituições para dar conta de um evento como esse, é um investimento para o futuro. Nossa avaliação da Campus é muito positiva, porque o que plantamos aqui, de conhecimento, de experiências, de narrativas, das operações nascidas a partir desses encontros e de conhecer projetos diferenciados e inovadores, veremos os resultados lá na frente, décadas à frente.

NC: De que maneira a UFRN participou?

AP: Além da candidatura, decidimos participar com conteúdo e, portanto, com pessoas e projetos. Estamos juntos ao estande da Prefeitura, compartilhado com Instituto Metrópole Digital e o Parque Tecnológico e estamos mais presentes em conteúdo. Evidentemente que no futuro podemos nos apresentar de uma maneira física, visível e mais ampliada, mas nós estamos muito felizes e achamos que estamos cumprindo o papel, mostrando um pouco do que fazemos na área de empreendedorismo e inovação, principalmente na área de tecnologia da informação. Isso tudo é um primeiro ensaio, um piloto e nossa decisão foi inserir mais conteúdo e pessoas. Aqui temos a noção de instituições de ensino superior e de pesquisa presentes, estão as escolas públicas e privadas. São sementes que ficam bem plantadas e retroalimentadas em cada edição da Campus. Então, é um projeto de longo prazo, e a nossa participação crescerá em outras edições.

Ângela Paiva e Anderson Cruz em visita à Campus Party. Foto: Luana França.

NC: A Campus Party é uma vitrine para o Rio Grande do Norte e Natal é a terceira cidade do Nordeste a recebê-la. Como a senhora vê esse pioneirismo regional da UFRN na parte de inovação e tecnologia? 

AP: No Rio grande do Norte, a UFRN e outras instituições formaram um ecossistema que já está bastante atrativo e diferenciado no Nordeste em relação, principalmente, à tecnologia da informação. Nós tivemos em poucos anos a formatação, a qualificação de pessoas, a organização e implementação de infraestrutura laboratorial, equipamentos, datacenters, supercomputadores e muita competência, ou seja, o capital humano muito bem articulado, formado para essa área. Então, esse pioneirismo se deve a isso, a esse projeto estratégico que em menos de 10 anos já está suprindo e se destacando. Eu digo 10 anos me referindo ao Instituto Metrópole Digital, mas a nossa Secretaria de Educação à Distância (SEDIS) tem 15 anos de estruturação, porque nós entendíamos que tecnologia da informação e comunicação são uma estratégia de desenvolvimento social de inclusão e de democratização, não só como ferramenta para o ensino superior, mas de disseminação daquela tecnologia. Não é só do ponto de vista administrativo, mas do ponto de vista acadêmico a universidade cuida há décadas de ter capital humano e também em infraestrutura. Penso que são esses elementos que dão esse retrato de pioneirismo para a UFRN.

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A UFRN esteve em vários espaços do evento. Foto: Luana França.

NC: De que maneira o atual contexto político nacional lança desafios para manter esses projetos, já que o nordeste nos últimos anos vinha recebendo investimentos para a ciência que estão sendo gradativamente diminuídos?

AP: Eu quero iniciar dizendo que realmente nós encaramos como desafio,  a história vai e a história vem, ciclicamente temos crises econômicas e visões diferentes de governos, para a Educação, Ciência e Tecnologia. Mesmo estando em crise, o Estado do Rio Grande do Norte, por exemplo recebeu e financiou a realização da Campus Party. A Universidade encara esse momento com preocupação, mas também nós não vamos parar de pensar projetos estratégicos. Evidentemente não podemos negar que estamos vivendo um momento de baixo financiamento para a área de desenvolvimento tecnológico. Temos muito menos recursos, entretanto, nós não vamos parar de projetar o que queremos para a universidade e para o estado.

NC: O que fazer diante da crise?

AP: Bem, nós sabemos que esse ciclo vai passar e na hora que passar a pergunta é: quem  tem projeto para implementar? quem não parou de pensar estrategicamente. É isso que eu vejo e devemos continuar fazendo, mas é muito importante a sociedade estar atenta nesse ano de 2018 para governos, posições do ponto de vista do legislativo e do executivo para que a gente aponte pessoas que vão estar nesse lugares no futuro que tenham visões progressistas em relação ao orçamento que se coloca para a educação, ciência e tecnologia, que enxergue como investimento e não como gasto, por que atualmente nós estamos com vários cortes. Devemos fazer projetos e exigir dos próximos parlamentares eleitos e dos próximos governantes que eles entendam que a educação, ciência e tecnologia num país são fatores de desenvolvimento, se não fizermos isso, se não investirmos nessas áreas, nosso país estará numa situação bastante difícil nas próximas décadas. Se temos a emenda constitucional 95, que foi aprovada e diz que não deve haver investimentos, orçamentos diferenciados para se avançar na educação, essa emenda precisa ser revista.

Equipe Car-Kará, composta por estudantes da UFRN já participou de várias competições internacionais. Foto: Luana França.

NC: Como fazer que a sociedade entenda a importância desse tipo de investimento, ainda mais em nosso contexto de desigualdade social ainda tão forte? 

AP: Vocês da imprensa têm um papel fundamental em esclarecer e dizer à sociedade o papel da educação. Sem educação, se você tiver um belo sistema de saúde, um belo sistema de infovias para internet banda larga em todo lugar, nós não vamos a lugar nenhum porque as pessoas não saberão aproveitar esses recursos disponíveis.  A educação é a base de tudo e a universidade não consegue divulgar tudo que faz, por que às vezes o que encanta o mundo da notícia não são as boas notícias das Universidades, das escolas, são outras linhas de reportagem. Então a imprensa tem um papel fundamental para mostrar a sociedade como a educação é transformadora para o país. Nós vamos continuar fazendo a nossa parte, informando divulgando, mas eu acho que a imprensa e as mídias têm um papel fundamental na disseminação desses valores.

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  • Anderson Cruz  – Diretor do Parque Metrópole Digital

Nossa Ciência: Que avaliação você faz da Campus Party?

Anderson Cruz: Acreditamos que o evento foi muito positivo. Nós decidimos participar com conteúdos e desses conteúdos, avaliamos que uma expressiva massa veio da UFRN, seja por indicação de professores, da própria gestão da universidade e por nós do Instituto Metrópole Digital. Fizemos várias indicações bem aceitas pela equipe da Campus Party, que formata esses conteúdos a serem mostrados como oficinas e palestras. Também participamos com a incubadora do Instituto Metrópole Digital. A incubadora teve uma participação no estande do Sebrae, tivemos muitas startups selecionadas para participar também no espaço startup & makers e estivemos todos os dias no estande da prefeitura, mostrando o parque tecnológico, que é uma iniciativa da UFRN, mas desde o início contou com o apoio da Prefeitura do Natal para sair do papel.

A Void3D é uma startup incupada na Inova Metrópole. Foto: Luana França.

NC: Quais as perspectivas do IMD para outra edição?

AC: A gente espera que aconteça novamente. A Campus Party é um trabalho para fazer desde agora para que não fique somente em quatro dias de evento.  Esses quatro dias são importantes, mostrando para cidade que realmente nós temos uma cultura de tecnologia forte, que temos coisas interessantes sendo desenvolvidas aqui na UFRN. Estamos bem nesse sentido e isso às vezes ficava dentro do muro da universidade e a Campus conseguiu dar uma boa visibilidade a essa cultura de ciência e tecnologia da nossa cidade e do nosso estado. Agora devemos trabalhar de fato para que as conexões, contatos, ações desenvolvidas lá possam continuar durante todo ano até uma próxima Campus e espero que tenha outra já em 2019.

NC: O Rio Grande do Norte é um estado pouco industrializado e quando se fala em inovação, muito se pensa em sua aplicação na indústria. Qual o papel da inovação como incentivo econômico para o estado e para Natal?

AC: Vejo inicialmente na forma de conexões e visibilidade. Comecei a perceber na minha palestra e outros momentos a presença de empresários e que eles não necessariamente estavam totalmente voltados a importância da inovação em suas empresas, então o evento gera um despertar. Mesmo achando que algumas indústrias ainda não pensam nisso, a gente já faz alguns trabalhos com a Fiern, junto ao núcleo de apoio de gestão da imagem da Federação para que as tecnologias e as inovações feitas aqui através das startups ou dentro dos próprios laboratórios da universidade consigam chegar na indústria potiguar. Novos empresários começaram a ter entendimento e a percepção da importância de inovar.

NC: Que atividades vocês desempenham no Parque Tecnológico?

AC: Começamos a incubadora de empresas aqui em 2013 e dai tentamos criar uma cultura mais forte de empreendedorismo e inovação na própria universidade e isso acabou refletindo em outros campos, como começamos a perceber em entidades que fomentam isso. A própria federação olha cada vez mais a inovação, o Sebrae, já era um grande fomentador de incubadoras no Brasil inteiro. O que tentamos fazer no parque tecnológico é dar uma estrutura para as empresas criadas, de conexão, esforços conjuntos com essas entidades, o estado, com a próprias empresas já existentes e nós da Academia para elas continuarem e também atraírem novas.

Evento recebeu cerca de 60 mil visitantes na área do Open Campus. Foto: Luana França.

NC: Qual o trabalho da Inova Metrópole?

AC: A Inova Metrópole tem o trabalho de criar e desenvolver empresas e o parque tecnológico tem o trabalho de manter e atrair. Com relação à parte institucional, sabemos que acompanha o desenvolvimento dos talentos. Na universidade formamos muitos talentos, na parte técnica e a gente e trabalha para que tenham alta qualificação relacionada ao empreendedorismo. Com isso a gente espera criar grandes empresários e grandes funcionários. Esses grandes empresários vão criar novas e os grandes funcionários vão atrair demandas para outras empresas bem como ajudam as existentes aqui. Parcerias e facilidades com o governo do estado e com a prefeitura já estão tornando possível que elas continuem, por exemplo, com os benefícios da lei que conseguimos aprovar ano passado para as empresas de tecnologia e inovação.

NC: Qual é essa lei?

AC: A municipal Lei 167/2017. Aí nós temos incentivos fiscais para empresas integrantes do Parque Tecnológico de Natal e conseguimos também uma parceria com o governo estadual  para as empresas cadastradas no parque, fundamentalmente de hardware, possam também ter desconto do ICMS, ou seja, uma parceria com o governo do estado para empresas que desenvolvem hardware aqui no parque tecnológico, que elas possam se conectar mais facilmente com os programas já existentes no governo.

NC: Em um mercado global como o da tecnologia, o que vocês estão fazendo para combater a fuga dessas novas empresas?

AC: Estruturando a base para que nossas empresas possam ser criadas, mantidas aqui e atraírem novas, porque a gente já tinha uma fuga de cérebros anteriormente e hoje conseguimos crescer com a Inova Metrópole. Se a gente tinha uma lista de sete empresas de tecnologia da informação, só a Inova conseguiu formar e apoiar 120 empreendimentos em 4 anos. Fomos uma escola de empreendedorismo e inovação para a criação de vários empreendimentos na cidade. Mas o que a gente já estava começando a notar também? Que esses empreendimentos estavam percebendo ser mais fácil se manter lá fora, com isso precisamos criar condições de fato para que pudessem continuar aqui e atrair novas também, estabelecendo condições de benefícios fiscais para a empresa. O talento é muito importante, porque o talento que a gente desenvolve aqui precisa de oportunidades de trabalho. Falamos do desenvolvimento de talentos na própria empresa, mas não é só isso que queremos. O talento precisa ser desenvolvido na própria cidade, precisa de uma boa moradia, precisa ter lazer. Precisamos de qualidade de vida e desenvolvimento de talentos na cidade, e ter uma boa conexão com essa cidade. Então ele só se fixa, só se mantem aqui e atrai quando a gente consegue desenvolver o talento também na cidade. Que ele possa então se desenvolver e gerar qualidade de vida pra Natal e gerar desenvolvimento humano e sustentável para o nosso estado. O objetivo do parque é criar condições para que a gente tenha um ambiente propício para desenvolvimento de talentos e empresas.

Luana França

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