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sexta-feira, 30 agosto 2019

Em dia histórico para o esporte, com a seleção feminina de futebol na TV aberta, mulheres goleiam, dirigem o time, torcem, narram e comentam o jogo

(Por Lívia Cirne)

Parece que o jogo está virando! Nesta quinta-feira, 29, tivemos um momento histórico para o cenário desportivo no Brasil e para a televisão aberta. Aliás, para a seleção feminina de futebol também. Uma noite cheia de protagonismos. Isso porque começou o evento amistoso “Torneio Uber Internacional de Futebol Feminino de Seleções”, que se estende até o dia 1 de setembro, em São Paulo, com times de quatro países, sendo exibido com exclusividade pela TV Cultura. É a primeira vez que a TV aberta prestigia quase que integralmente um campeonato de futebol com mulheres. Não bastasse essa conquista, ainda tem mais: assim como foi o desta quinta, os demais jogos serão narrados por Natália Lara e terá a ex-goleira da Seleção Feminina de Futebol, Thaís Picarte, como comentarista. Não parou por aí: foi lançado o primeiro desafio da técnica Pia Sundhage comandando a seleção.

Na torcida, dentre as 13.180 pessoas que foram assistir ao jogo, mulheres preencheram as arquibancadas com faixas de coletivos feministas, com bandeiras coloridas do movimento LGBT, com cartazes em tom político e dispostas a entoar gritos e cantos de protesto contra o presidente Jair Bolsonaro. Todo esse conjunto é bem simbólico: uma grande barreira está sendo quebrada.

É impossível falar de futebol feminino sem associar à opressão e à intolerância. No mesmo estádio de ontem, no Pacaembu, foi onde houve os primeiros jogos de mulheres, em 1940. Pouco depois, após pressão, a modalidade foi proibida, por Decreto-Lei N. 3199, de 14 de abril de 1941, assinado por Getúlio Vargas, que normatizou as bases de organização dos desportos, criou o Conselho Nacional de Desportos e estabeleceu, nas entrelinhas, que o futebol era um esporte violento para ser praticado pelas atletas e incompatível com as suas condições físicas. Por mais absurdo que possa aparecer, está lá no artigo 54. Só em 1979 que a lei foi revogada e em 1983 o esporte foi regulamentado sem distinção de gênero. Por isso, cada “passo” assina uma nova jornada e emplaca um gol de resistência.

Desde o dia 7 de junho de 2019, com a transmissão da abertura da Copa do Mundo feminina na França e a primeira partida televisionada para todos os continente, entre jogadoras da França e Coreia do Sul, o cenário vem trazendo mais esperança nesta luta. Depois dessa data, o futebol já não é mais o mesmo, para quem o faz e nem para quem o assiste. Não é só do esporte que estamos falando. Mas do lugar de empoderamento das mulheres. Na Copa, os estádios foram palco para demonstração das habilidades na modalidade, mas também para o ativismo de mulheres que não aceitam mais a invisibilidade no trabalho e desejam respeito das entidades desportivas e autoridades políticas em relação à orientação sexual, nos reconhecimentos e nas premiações, além de ações incisivas de combate ao assédio sexual. Ou seja, temos, nos times, mulheres que, além de jogar muito, querem driblar a misoginia e o preconceito.

Mesmo sendo reconhecida pelo seu talento inquestionável, por exemplo, Marta, a jogadora de futebol eleita seis vezes a melhor do mundo, recordista de gols em jogos da seleção, artilheira da história das Copas e Embaixadora global da ONU Mulheres precisou usar os holofotes do campo para expressar sua indignação sobre a gritante desigualdade de gêneros no esporte. Por que jogadoras com desempenho técnico semelhante ao dos homens não têm ainda rendimentos financeiros equivalentes ou compatíveis? Por que as mulheres têm que mendigar patrocinadores?

Após o gol de Marta no jogo Brasil x Austrália, ela fez um protesto simbólico que reverberou em todos os países: apontou para a chuteira preta, sem patrocínio, sem marca e com detalhes em azul e rosa, como parte da Campanha #GoEqual. Entrou para os Trends Topics das redes sociais e acendeu a chama para o debate urgente sobre as diferenças salariais entre homens e mulheres. Nenhuma novidade, na verdade. O último estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE) apresentou números que preocupam: as mulheres ganham, em média, 20,5% a menos que os homens em todas as ocupações profissionais no Brasil.

Nos esportes, o abismo está presente de igual forma, ainda mais quando, no futebol, tradicionalmente, determinou-se como um espaço preconceituoso e viril, que associa resistência física ao gênero. Aspectos socioculturais fundamentam essa relação de discrepância e eles estão descritos sistematicamente em várias pesquisas e artigos científicos, basta que demos um “google”. Mas podemos resumir que esse processo de subjetivação também é consequência da cultura machista e de domínio dos corpos femininos, que elege as dinâmicas de comportamento adequado aos gêneros e determinam padrões físicos e estéticos, inserindo as mulheres em categoria como “frágil”, incapazes, e os homens como “forte”.

Não problematizar sobre isso, é justamente o que autoriza que as atletas não figurem entre as mais bem pagas do Mundo, no ranking da Forbes. É o que permite que uma jogadora como a Marta, recordistas de títulos, receba cerca de 1% do salário de jogadores masculinos de alto nível, como Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar, conforme revelou o relatório do Sporting, o Global Sports Salaries Survey (GSSS), divulgado em 2017. Isso não dá mais para silenciar!

Temos que valorizar cada uma dessas batalhas, desses caminhos de superação no mundo desigual. Apoiar a luta dessas atletas que querem um ponto de virada na história de marginalização e fugir do aprisionamento que a cultura dos homens institui e tanta gente absorve, inclusive as mulheres, por pura alienação ou falta de empatia. Dar as mãos e torcer por esse sucesso do futebol feminino é também um ato político. Estamos nos ajudando. É estratégia de fortalecimento. É ressignificar nossa identidade. É sobre nossa existência no esporte. Representatividade importa sim! Os cinco gols da partida simbolizam nossas vitórias: seleção talentosa, comandada por uma técnica, narrada por uma jornalista e comentada por uma ex-goleira, na televisão aberta, como nunca antes na história do país. Golaço!

Extra

Pra quem não sabe, seguem duas dicas do Nordeste e de Natal. A primeira é o TVU Esporte, um programa da TV Universitária (UFRN) com matérias e entrevistas inteiramente produzidas e apresentadas por mulheres, alunas dos cursos de Jornalismo, Audiovisual e Publicidade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Faz parte de um projeto de extensão da TVU.rn com o Departamento de Comunicação, e vai ao ar toda segunda-feira, no canal 5.1 (digital) ou 17 (tv por assinatura), às 19h. Pode ser visto e revisto também no Youtube. A outra dica é o e-book “Elas e o futebol”, disponível para download, organizado por Cecília Almeida, Larissa Brainer e Soraya Barreto, que agrupa textos de 17 autoras analisando a importância da representatividade e da participação da mulher no futebol.  A obra é resultado do Observatório de Mídia – Gênero, Democracia e Direitos Humanos da Universidade Federal de Pernambuco em parceria com a Editora Xeroca!, comandada pela professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Janaine Aires.

Referências:

TVU.rn

E-book “Elas e o futebol”

Lívia Cirne é professora adjunta do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e do Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN).

Lívia Cirne

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