Mulheres na ciência: a invisibilidade e o reconhecimento necessário Artigos

sexta-feira, 3 março 2017

Artigo de Maria José Vidal, professora da UERN, analisando a presença das mulheres na ciência como as pioneiras Marie Curie, Mildred Dresselhaus e Marie Tharp

Tratar das questões de gênero é sempre uma abordagem que implica em tensões, lutas e todo um ambiente de desigualdade e injustiça. É importante destacar que ao fazer essa análise da presença das mulheres na ciência, trabalhamos com a noção de ciência enquanto conhecimento, isso significa uma dimensão ampla, de compreender todas as áreas do saber como realizações científicas. Dito isso, se faz necessário também outra ressalva: enquanto ocidentais somos herdeiras e herdeiros da civilização grega e assim como parte de lá nossas compreensões da democracia, da política e da ciência (essa enquanto forma de saber que requer demonstração, numa perspectiva do grego antigo Aristóteles, do século III a.C.) as desigualdades também se originam naquele período. No qual as mulheres não eram consideradas cidadãs, não tinham direitos políticos, para elas estavam destinadas as tarefas domésticas do lar e o cuidado das crianças. A justificativa para tal se dava sob o “argumento” delas terem um nível de razão mínima, sem exatamente demonstrar como se avaliava esse nível de racionalidade, mas por serem mulheres esse era o lugar na polis grega. Mas, claro que tivemos aquelas que ousaram, que não cumpriram as normas vigentes, no entanto ao longo da história permanecem na invisibilidade, sem o devido reconhecimento de suas obras e ideias para o desenvolvimento cientifico e da humanidade.

No decorrer da história tivemos muitas contribuições valiosas: Marie Curie, química e física, se formou na clandestinidade por ser mulher. Para ela foi preciso sair da Polônia para a França para poder cursar a universidade. No entanto, foi a primeira mulher a receber um Nobel em física e outro em química. Também foi a primeira mulher a lecionar na universidade de Sorbone em Paris. Marie Tharp, primeira geóloga e cartógrafa oceanográfica a mapear o fundo do oceano, criadora da teoria das placas tectônicas, teve seu reconhecimento pela comunidade científica muito tempo depois, somente nos anos 60, no princípio teve os resultados de sua pesquisa desconsiderado por ser “conversa de mulher”, inclusive pelo seu companheiro de pesquisa. Seus estudos são utilizados até hoje para investigações oceânicas. Mildred Dresselhaus, conhecida como “a rainha do carbono” cujo alcance de suas pesquisas ainda não se realizaram por completo, mas no futuro farão diferença. Pesquisadora da física, da nanociência, no início de seus estudos pode se dizer que esse ainda não era um campo de investigação, assim como ela não era considerada uma pesquisadora. Teve de enfrentar a imensa desigualdade na disputa por uma vaga nos institutos de pesquisa. Ela defendia a integração das mulheres na ciência, teve uma vasta publicação nessa área das “nano coisas”. São referências para todas nós que nos dedicamos ousar qualquer espaço, em qualquer campo de investigação e sermos pesquisadoras, investigadoras.

Sabemos que não basta mapear nomes que contribuíram significativamente para o desenvolvimento científico. As mulheres que se dedicavam as pesquisas eram tidas como assistentes de seus companheiros ou tutores, eram proibidas de ir ao campo de pesquisa, tinham uma participação quantitativa sempre muito baixa, bem como as vagas ocupadas por mulheres investigadoras nos institutos de pesquisas eram igualmente um número inferior ao dos homens. Foi a partir da segunda metade do século XX que as mudanças começaram a ocorrer, com o fortalecimento do movimento feminista.

No entanto, na nossa realidade essas desigualdades e invisibilidades ainda persistem, apesar das grandes contribuições e dos avanços que tivemos em muitos espaços. Se olharmos para os lugares onde as mulheres estão nas muitas áreas do saber, as chamadas “ciências duras” são ocupadas em grande maioria por homens, isso não significa que não temos grandes pesquisadoras. A quantidade de bolsas de produtividade do CNPQ, em nível mais elevado que são destinadas as mulheres são em número bem menor que aos homens. Quando tratamos das mulheres pesquisadoras negras, essa desigualdade se acentua e o reconhecimento é ainda mais distante.

A questão que fazemos é como sanar essas injustiças? No princípio as mulheres não podiam receber educação formal igualmente aos homens, algumas recebiam lições as escondidas, ou se tornavam autodidatas. A nossa presença foi aumentando, barreiras foram sendo rompidas, com muitas lutas, mas algo significativo para a igualdade ainda não foi alcançado. Mulheres perdem bolsas de pesquisas por suspenderem suas atuações em função da licença maternidade, para terem filhos, em função do casamente e ainda em razão das tarefas domésticas e do cuidado. Por essas razões o nível de escolaridade, na grande maioria dos casos, das mulheres é menor que os dos homens. Parece que algo básico e primordial precisa ainda ser resolvido, no espaço privado, as tarefas domésticas e do cuidado não podem ser de responsabilidade exclusiva das mulheres, elas devem e podem ser compartilhadas por todos os membros da família, porque mulheres também são pesquisadoras. Enquanto essa é uma demanda não compreendida e não resolvida pela “família tradicional” se faz necessário que no âmbito público as mulheres sejam motivas e tenham as condições estruturantes para estudar, para atuar no mundo acadêmico, através de políticas públicas que tornem possíveis a presença delas no mundo para além do cuidado e do espaço doméstico, para diminuir as desigualdades, corrigir danos históricos, fazer justiça e com isso reconhecer que nós mulheres podemos e assim termos a justa visibilidade e cidadania.

Maria José da C. Souza Vidal é Doutora em Filosofia, professora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

Uma resposta para “Mulheres na ciência: a invisibilidade e o reconhecimento necessário”

  1. Considero a divulgação dessas pesquisas realizadas por mulheres muito importante para leva-las ao campo da visibilidade. Sou pesquisadora da área das ciências sociais e a nossa invisibilidade é monstruosa. Temos que conquistar a visibilidade, principalmente no campo político para abrir trilhas no caminho do reconhecimento.

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