Por que a Amazônia precisa de mais espaço? Artigos

quarta-feira, 30 setembro 2015

Artigo de José Monserrat Filho* para o Nossa Ciência

Nenhum país ou região do mundo pode hoje abrir mão dos benefícios e vantagens do espaço – essenciais a qualquer esforço de desenvolvimento sustentável. A região da Amazônia, sem descuidar das outras, precisa de mais e mais atividades espaciais. Como frisou o renomado cientista Aziz Ab’Saber (1924-2012), ela tem 5 milhões de km² – área 16 a 17 vezes maior que a do Estado de São Paulo – e 95% do espaço total florestado, com florestas tropicais biodiversas de grande extensão e 25 mil km de rios navegáveis. São 67% das florestas tropicais do mundo. É a maior bacia hidrográfica do planeta com 20% do total de águas doces. Dai que já houve, lá fora e aqui dentro, quem ambicionasse “internacionalizar” a Hileia Amazônica, para dela se locupletar.

De nossa parte, haja tecnologia espacial para conhecer, cuidar, proteger e usar essa imensa riqueza de modo sustentável. Não devemos desperdiçá-la ou gastá-la inutilmente, mas aproveitá-la da forma mais racional possível e também preservá-la para seus povos indígenas nativos, bem como para as futuras gerações. Esse é o caminho da sobrevivência para todos.

A Amazônia legal, conceito criado em 1966, abrange dez estados: Acre, Amapá, Amazonas, Goiás, Mato Grosso, Maranhão (parte), Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Ocupa quase 60% do território nacional, mas sua densidade populacional é de 5 habitantes por km². Nos 775 municípios da região vivem 24 milhões de pessoas – menos de 10% da do país, que já tem 200 milhões.

O vazio de gente em área tão grande e rica pode e deve ser preenchido por satélites. A dispersão populacional, com pequenos casarios e vilarejos muito distantes uns dos outros, impõe a necessária a telemedicina – prestação de serviços de saúde, até os mais complexos, com o uso de satélites. O Secretário de Saúde do Estado da Amazônia, Wilson Duarte Alecrim, especialista em telessaúde, conhece bem o assunto, como informa a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE).

A baixa densidade populacional facilita também o desmatamento ilegal, o roubo de recursos naturais, o contrabando de madeira, o tráfico de drogas e outros crimes ambientais ou não. Daí a relevância dos Projetos PRODES, DETER e Amazônia SAR, entre outros.

Com o Projeto Amazônia SAR a terra será observada até sob o clima mais adverso, furando-se as nuvens e a copa das árvores. Nele acabam de ser investidos R$ 80,5 milhões, como anunciou o Ministério da Defesa (MD) em 20 de julho último. Pela primeira vez a Amazônia será rastreada de modo sistemático com radar orbital – velho sonho dos pesquisadores da região.

O radar orbital vai monitorar 950 mil km² – 17% da Amazônia que equivalem aos estados de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e ainda um pouco mais. O projeto será coordenado pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam/MD), em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Vigiará o desmatamento de outubro a abril, emitindo alertas de apoio às ações de fiscalização e enviando ao INPE dados para alimentar o sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (DETER).

Para receber e gravar as imagens do radar orbital, o Censipam construirá uma antena de 11 a 15 metros de diâmetro, a ser instalada perto de Brasília. A antena lhe permitirá receber rapidamente o sinal de satélite, baixando as imagens em tempo real. O sistema deve ser inaugurado em 2019.

A sigla SAR vem do nome em inglês Synthetic Aperture Radar – radar de abertura sintética. O sistema funciona com pulsos de ondas eletromagnéticas, independentes da luz. Por isso, pode superar barreiras físicas como as nuvens e a copa das árvores. As ondas como que “iluminam” o que deve ser “fotografado” e o reflexo, o eco, de cada pulso é gravado.

O PRODES, por sua vez, monitora por satélites o desmatamento por corte raso e produz, desde 1988, as taxas anuais de desmatamento, usadas pelo governo para promover políticas públicas. São usadas imagens dos satélites sino-brasileiros de recursos terrestres (CBERS), do americano Landsat, do europeu LISS-3, do indiano Resourcesat-2 e do inglês UK-DMC2. O PRODES integra o Grupo Permanente de Trabalho Interministerial para a redução dos índices de desmatamento da Amazônia legal, criado em 2004.

O DETER, sistema expedito de alerta gerido pelo INPE, opera todo santo dia em apoio ao IBAMA na fiscalização e no controle de desmatamento e da degradação florestal ilegais. Mapeia essa degradação que prepara o desmatamento (“brocagem”), cicatrizes de incêndios e a exploração madeireira, usando dados do sensor MODIS do satélite Terra, com resolução de 250 metros. A divulgação dos mapas para a sociedade tem sido ampliada e mais detalhada, o que merece elogios.

Mas a demanda por mais atividades espaciais na Amazônia exige mais espacialistas, sobretudo no rastreio de florestas tropicais por satélite. Enfrentando o problema, o Centro Regional da Amazônia (CRA/INPE), em Belém, lançou, em 31 de agosto passado, 24 vídeos aulas sobre o Programa Amazônia, Noções de Sensoriamento Remoto, Geoprocessamento e Processamento Digital de Imagens. E mais 20 aulas práticas que lidam com o TerraAmazon, software desenvolvido no CRA para monitorar a floresta amazônica. Todo esse material pode ser baixado no site do CRA (www.inpe.br/cra) e as vídeos aulas práticas, no canal do Youtube® INPE-CRA. Há versões em português, inglês, espanhol e francês. As tecnologias para monitorar florestas tropicais já foram assimiladas por mais de 300 técnicos de países da América Latina, Ásia e África.

Mais espaço para a Amazônia significa mais domínio do país sobre as inestimáveis riquezas da região, mais brasileiros capacitados, mais cooperação internacional útil a quem mais precisa.

*José Monserrat Filho é vice-presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), diretor honorário do Instituto Internacional de Direito Espacial, membro pleno da Academia Internacional de Astronáutica (IAA) e chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB)

Esse texto expressa exclusivamente a opinião do autor.

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