Por um novo iluminismo Artigos

quarta-feira, 29 julho 2020
Independência ou Morte (Pedro Américo - 1888) óleo sobre tela - Museu Paulista da USP

Obscurantismo que avança sobre o Brasil é a personificação da ignorância e do desprezo pela ciência

(Homero Costa)

No livro O novo iluminismo em defesa da razão, da ciência e do humanismo (editora Companhia das Letras, 2018) o cientista cognitivo Steven Pinker faz uma defesa do que chama de Novo Iluminismo, num momento em que o ideário Iluminista nunca foi tão urgente e necessário. Está em curso a negação do conjunto de ideais que se afirmaram na Europa desde o século XVIII (que passou a ser conhecido também como Século das Luzes para se contrapor às trevas).

São muitos os pensadores que ajudaram a construir esse ideário, com suas distintas concepções, mas em defesa da razão e do conhecimento como John Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778), Jean-Jacques Rousseau(1712-1778) David Hume (1711-1776), Denis Diderot (1713-1784) e Kant (1724-1804).

E inegável que os ideias iluministas contribuíram de forma decisiva para o progresso da humanidade, com o primado da razão sobre o teocentrismo defendida pela toda poderosa Igreja Católica de então, em defesa da ciência e da tolerância, combatendo dogmas, fundamentalismos, superstições e preconceitos que impediam o avanço do conhecimento.

O iluminismo, se constitui fornecendo elementos para a construção de uma visão de mundo fundamentada em base científica, com seus instrumentos de investigação e aferição,

No entanto, em que pese todo avanço científico nas mais distintas áreas do conhecimento, constata-se hoje em alguns países é o que Pinker chama de “teoconservadorismo”, uma mistura de teocracia com conservadorismo, e a subversão dos fatos pela chamada pós-verdade.

Por isso só pode ser afirmativa à sua pergunta: “Quem poderia ser contra a razão, a ciência, o humanismo ou o progresso?  Esses ideais precisam mesmo de defesa?”  Sim, precisa. São muitos os anti-iluministas, alguns com poder de decisão e possibilidade de influenciar muitas pessoas e que, na sua ignorância, são contra a ciência, o humanismo e o progresso. Há, portanto, um anti-iluminismo que tem se afirmado como fenômeno político como reação ao iluminismo.

Os exemplos são muitos, especialmente no Brasil onde esse ideário tem sido posto em xeque.

E podem ser citadas pautas de retrocessos em curso, no qual os ideais iluministas, encontram opositores e negacionistas na história (como a estupidez de considerar o nazismo como sendo de esquerda), na Ciência (os exemplos se multiplicam. Defender que terra é plana é apenas um). Mas há outros com potencial letal, como propagandear medicamentos sem eficácia para o coronavírus, por exemplo, contrariando todas as recomendações não apenas da Organização Mundial da Saúde, como de especialistas) e nesse processo não se pode deixar de levar em consideração o papel nefasto do fundamentalismo religioso  e cultural, que contribuem para o cenário obscurantista, uma espécie de retorno à “idade das trevas” (o sentido da palavra iluminismo é exatamente esse: um movimento que desejava iluminar a sociedade que se encontrava nas trevas).

Como disse Michel Gherman, professor da UFRJ no artigo “A política anti-iluminista de Bolsonaro”,  publicado na revista Época no dia 3 de setembro de 2019: “as falácias de cunho religioso e político que vão granjeando os irrefletidos, a opressão e a ofensiva contra a liberdade, que vai avançando, a educação, a cultura e as artes, que se vão definhando, num processo deprimente e aviltante, pela supressão de verbas e recursos”.

Numa entrevista no dia 17 de julho de 2020 ao jornal o Globo o psicanalista Joel Birman fez referência ao que chamou de destruição da ordem iluminista no atual governo, marcado pela violência, culto às armas, descaso com educação, meio ambiente, saúde, cultura etc.

Como chegamos a isso? O que explica?  Para ele,  uma possível explicação é que há um contexto social e político que possibilitou o retorno dos ressentidos, dos habitantes dos porões da ditadura e se remete a forma como se deu a transição política no Brasil pós ditadura, muito diferente do que ocorreu no Chile, Argentina e Uruguai onde houve um “acerto de contas com torturadores e assassinos, judicializados e criminalizados”,  enquanto  no Brasil houve uma grande conciliação, os torturadores foram poupados, assegurados pela lei de anistia de 1979 e referendado pelo STF e ficaram existindo na sombra, no silêncio, até que puderam vir à tona.

E são esses que se contrapõe ao iluminismo, que fundamenta explica os ataques à ciência, ao “globalismo”, à cultura, os retrocessos na área ambiental, direitos sociais, mas também a negação dos efeitos do aquecimento global, entre outros disparates.

Eratóstenes Ensinando em Alexandria, (Bernardo Strozzi – 1635), óleo sobre tela, Museu de Belas Artes de Montreal

Em relação à terra plana, Carl Sagan (1934-1996) astrônomo norte–americano, autor entre outros livros de “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro (Editora Companhia das Letras,1996) apresentou um programa de muito sucesso na televisão nos Estados Unidos no fim dos anos 1970 chamado Cosmos (disponível no youtube em 13 episódios, dublado). No episódio 01, “os limites do oceano cósmico” explica como alguns gregos antigos já haviam descoberto, através da simples observação, que a Terra é uma esfera. E conta resumidamente a história de Eratóstenes de Cirene (Grécia Antiga) que viveu entre 276 a 194 a.C.   Astrônomo, geógrafo e filósofo (foi também chefe dos bibliotecários da famosa Biblioteca de Alexandria) há mais de dois mil anos, calculou corretamente a circunferência da terra (valores muito próximos que a ciência com instrumentos mais sofisticados confirmou séculos depois) e  mediu a distância da terra  até a lua, além de estudar os movimentos da terra, sol e planetas. Tudo isso como diz Sagan utilizando apenas “varas, olhos, pés, cérebro e o prazer de experimentar”. Hoje com toda sofisticação tecnológica, há ainda os que defendem que a terra é plana, relevando o triunfo da ignorância.

Um dos desdobramentos dos ataques e desprezo à ciência, é o movimento antivacina, que pode causar ou vem causando o ressurgimento de doenças infecciosas já há muito erradicadas do mundo. É parte integrante do crescimento da irracionalidade que leva muitos a acreditarem em mentiras que ajudaram a eleger presidentes como ocorreu nos Estados Unidos, entre muitos exemplos que Hillary Clinton tinha esclerose múltipla e usava uma dublê de corpo e no Brasil sobre “kits gays” e “mamadeiras de pênis”. Como foi demonstrado depois, era mais uma mentira de que mamadeiras com bico de borracha em formato de pênis foram (ou seriam) distribuídas em creches para combater a homofobia. Em um vídeo publicado no Facebook no dia 25 de setembro, e que teve muita repercussão nas redes sociais, especialmente entre os apoiadores de Bolsonaro, é mostrado um objeto  e sobre o qual se diz que era a mamadeira “distribuída em creche, para seu filho, com a desculpa de combater a homofobia” e afirma que se trata de “parte do kit gay, uma invenção de Haddad”, em referência ao candidato à presidência pelo PT, Fernando Haddad. Esta foi apenas uma das muitas mentiras usadas contra ele. O pior não era a mentira, o uso político, mas ter a capacidade de influenciar o voto, de muitas pessoas que acreditarem nisso, como de fato, aconteceu.

Charles Gildon, um escritor inglês (1665-1724), citado por Carlos Eduardo Araújo no artigo O contra-iluminismo bolsonarista,  publicado no site 247 no dia 27 de janeiro de 2020  afirma que ele “elenca inúmeras razões como guia soberano do pensamento (…) a luz que ilumina as coisas, impedindo que vaguemos às cegas na escuridão, reconhecendo, sabiamente, que não é ela suficiente, mas, ainda assim, imprescindível para nos levar ao perfeito conhecimento de todas as coisas (…) sendo a razão a guia suprema e originária de cada homem, toda violação à sua liberdade de orientação significa uma violação ao estatuto basilar da natureza, quando não do direito específico de cada homem. Assim, os que se comportam dessa maneira são rotulados de inimigos da humanidade”.

No artigo A ciência versus Bolsonaro, Luiz Marques (professor livre-docente do Departamento de História da Unicamp) afirma que Bolsonaro é a figura emblemática da ignorância e do desprezo pela ciência,  e se refere a uma entrevista à Jovem Pan, no dia 8 de abril de 2019 na qual ele revelou sua profunda ignorância sobre pesquisa no Brasil afirmando que “Poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte está na iniciativa privada, como a Mackenzie em São Paulo”. Marques cita o artigo de Reinaldo José de Azevedo publicado no jornal Folha de São Paulo, 21 de maio de 2019 o qual mostra, que “Universidades públicas produzem mais de 90% da pesquisa do país. E que no ranking da pesquisa nacional, as 10 melhores universidades do país são públicas e que entre as 20 há apenas duas privadas (PUC-RS e PUC-RJ, 18ª e a 19ª, respectivamente), enquanto a citada pelo presidente estava naquele momento na 62ª posição. (https://www.unicamp.br/unicamp/index.php/ju/artigos/luiz-marques/ciencia-versus-bolsonaro).

O editorial Postura anti-ciência paralisa a Saúde do jornal, d’O Globo de 25 de julho de 2020, afirma que o “irresponsável passeio de moto de Bolsonaro — infectado pelo Sars-Cov-2 — nos jardins do Alvorada, sem máscara, pôs em risco os garis também desprotegidos com quem ele conversou e produziu mais uma cena para ilustrar os desatinos que a postura anti-Ciência do presidente tem causado em um Ministério da Saúde omisso diante da pandemia que já matou mais de 85 mil brasileiros.”  Outra afirmação é que a rejeição do presidente ao conhecimento científico “se torna mais inaceitável a cada estudo sério que é publicado no mundo desaconselhando o uso da cloroquina contra a Covid-19. O último desses trabalhos, de um grupo de especialistas brasileiros, saiu no New England Journal of Medicine nesta semana. Diante do acúmulo de evidências, as sociedades brasileiras de Infectologia e Pneumologia recomendaram de forma clara ao Ministério da Saúde que abandone a orientação para o uso do remédio no tratamento da doença”.

Diante do conjunto de retrocessos (e não apenas no campo científico) é de fundamental a defesa do legado iluminista, ou um novo iluminismo, como diz Steve Pinker: não podemos ou não devemos aceitar o obscurantismo. Em 1784 Kant publicou o artigo” O que é iluminismo?” e responde resumidamente que é a saída da nossa minoridade intelectual. E quanto ao Brasil de hoje, Carlos Eduardo Araújo no citado artigo afirma que é “a um passado obscurantista e atrasado que o senhor Bolsonaro e o seu séquito de néscios, incluindo seus principais ministros e todo o rebanho que faz coro às suas sandices, querem nos fazer regressar. Vivem envoltos pelas trevas, habitando uma noite interminável que não é nunca secundada pelo dia, pela luz”.

Creio ser não apenas um diagnóstico preciso como um desafio para os que defendem a importância e necessidade do desgaste do ideário iluminista ou, como defende Pinker, neste momento histórico, de um novo iluminismo.

Nossa Ciência firmou parceria com a Saiba Mais – Agência de reportagem e jornalismo independente do Rio Grande do Norte. Saiba Mais.

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Homero de Oliveira Costa é Professor Titular (Ciência Política) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Homero de Oliveira Costa

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