Ser Professor Artigos

quinta-feira, 5 novembro 2015
Foto: Pedro Ribas/Fotos Públicas

Para Nelson Preto, condições de trabalhosalário formação inicial e continuada formam o tripé básico para transformar a profissão do professor na carreira mais cobiçada da sociedade

Ser professor é assumir uma profissão que demanda, principalmente, tratar com gente. Portanto, ter a capacidade de interagir com a meninada, não ser intolerante, saber tratar com as diferenças, essas são algumas das principais características daquilo que considero como sendo as capacidades e habilidades fundamentais para ser um bom professor. A formação dos mestres, realizada por nós nas universidades, deve, ao mesmo tempo, ter olhar atento para a formação técnica, que trata dos conteúdos específicos, e um outro olhar, mais amplo, que mire na ideia de que, sem uma formação solidamente movida por princípios e práticas democráticas cotidianas, não se forma um bom professor. Precisamos, pois, de uma formação inicial que nos leve a uma profunda reflexão sobre a sociedade e as políticas públicas, essas pensadas para todas as áreas e, não somente, para o campo da educação.

 Portanto, entendo que seja necessário um profundo compromisso político e profissional de todos os envolvidos na educação para que possamos, de fato, promover as necessárias transformações que a contemporaneidade está a exigir.

 Esse é um enorme desafio, pois há uma demanda muito grande de profissionais para a educação, afinal, o Brasil tem em torno de 200 mil escolas e colocar professores qualificados e comprometidos em todas elas é uma tarefa que exige enorme determinação e vontade política dos governantes. Principalmente porque, desde muito, a profissão não vem sendo atrativa! Precisaríamos transformar a profissão de professor numa das mais cobiçadas da sociedade, como bem fez a Finlândia, por exemplo, tão citada nos exemplos de uma educação que vai bem. Para isso, ínsito, temos que enfrentar o problema atuando em um tripé que considero básico: condições de trabalho, salário e formação inicial e continuada. Só fortalecendo esse tripé poderemos ver avançar a educação no país. E isso não vem sendo feito, lamentavelmente.

 Assim, entendo que as políticas públicas precisam ser desenhadas em uma dimensão maior do que o pensar pequeninho dos treinamentos para o ENEM (agora, complementado com o já conhecido MecFlix, de aulas online!) ou de um olhar apenas para o fortalecimento do ensino de português e matemática. Precisamos de políticas públicas que olhem a educação com uma visão bastante ampliada. Para tanto, necessário se faz pensar a escola, e ai os professores são fundamentais, insisto, numa perspectiva muito mais ampla. Eles precisam ser estimulados a serem profissionais comprometidos com o desenvolvimento econômico, social e humano do país. Profissionais que tenham clareza da importância do seu papel e, para tal, precisam ser apoiados e fortalecidos.

 Penso um pouco na minha própria prática como professor. Saber que estou sempre em contato com pessoas mais jovens, que me provocam e me estimulam a provocá-los também, tem sido algo muito gratificante e rejuvenescedor. Tenho mais de 40 anos atuando como professor e isso é muito importante para mim, pois sei que muitos dos que hoje estão atuando na imprensa, no comércio, nas profissões liberais, nas artes, na medicina, enfim, que, são hoje profissionais construindo o nosso país, passaram por mim como professor, no caso aqui na Bahia, e que dei uma pequenina contribuição para que eles sejam profissionais comprometidos socialmente, solidários e, principalmente, ativistas.

Por essas e por outras razões, considero básico valorizar a profissão de professor, um professor intelectual e ativista político, que, assim, pode participar ativamente na luta em defesa da educação pública, laica e de qualidade em nosso país.

Nelson Pretto é professor titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). www.pretto.info

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