A hashtag #glifosato repercutiu na ciência, na mídia e nos tribunais em 2018 Coluna do Jucá

quinta-feira, 20 dezembro 2018

Para o biólogo Thiago Jucá, esse foi um dos personagens do ano e que ainda deverá ser debatido e comentado em 2019

Não resta dúvida que a técnica Crispr/CAS9, a qual permite a edição de genes, esteve no epicentro do furacão que abalou a comunidade científica no ano de 2018. Em especial, com o anúncio do cientista chinês Jiankui He, que diz ter lançado mão dessa estratégia para alterar geneticamente os embriões de gêmeas recém-nascidas. A despeito das preocupações e implicações no campo da bioética, e até mesmo das limitações e da segurança na utilização dessa técnica, o colunista que vos escreve considera, particularmente, que outros dois eventos também de grande repercussão tiveram mais alcance entre os leigos nesse ano que se encerra.

Fertilização, embriões editados e o futuro da reprodução humana

A técnica Crispr/CAS9 esteve no epicentro do furacão que abalou a comunidade científica no ano de 2018. Fonte: Google.

O primeiro deles fora publicado na prestigiada revista PNAS em outubro e intitulado, em tradução livre, “O glifosato interfere na microbiota intestinal de abelhas”. O glifosato é o principal herbicida utilizado para o controle de ervas daninhas em escala global. Ele atua sobre uma enzima chave – 5-enolpiruvoilchiquimato 3-fosfato sintase (EPSPs, E.C. 2.5.1.19) – encontrada em plantas e em alguns microorganismos. Portanto, espera-se que esse herbicida seja inócuo para animais. Porém, entre os microorganismos simbiontes que compõem a microbiota intestinal das abelhas, há aqueles que são suscetíveis e os que são resistentes a esse herbicida, afetando, assim, organismos não alvos.

Os autores mostraram que a exposição das abelhas ao glifosato altera a comunidade intestinal desses polinizadores, o que compromete o seu crescimento, bem como aumenta a suscetibilidade à infecção por patógenos oportunistas. Portanto, compreender como esse herbicida afeta essa natureza simbionte é uma condição premente para elucidar um possível papel dessa substância química no declínio das colônias desses polinizadores. Certamente esse declínio relaciona-se também a outros fatores, como, por exemplo, o uso dos neonicotinóides, perda de habitats e o desmatamento.

Não há fim à vista em torno da discussão do uso do herbicida glifosato, conhecido comercialmente por meio da marca Roundup. Fonte: Google

O ano de 2018 também foi marcado por decisão inédita da justiça americana, ao condenar a fabricante de produtos químicos agrícolas Monsanto – filial da multinacional alemã Bayer. De acordo com aquela corte, o herbicida glifosato, conhecido comercialmente por meio da marca Roundup, foi o responsável pelo câncer terminal do jardineiro da Califórnia, Dewayne Johnson. Ou seja, o estudo da PNAS, atrelado à multa milionária imposta à companhia, pôs mais lenha na fogueira no debate já fervoroso em torno do uso do glifosato.

Pelo visto, a hastag #glifosato também estará na crista da onda no ano de 2019, seja na ciência, na mídia ou nos tribunais.

Referências
Erick V. S. et al. 2018. Glyphosate perturbs the gut microbiota of honey bees. PNAS, October 9, 2018, vol. 115, N°. 41, 10305–10310. www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1803880115 PNAS

Justiça americana confirma condenação à Monsanto por glifosato (23.10.2018) https://p.dw.com/p/373Jo

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Leia o texto anterior: “Reconectar as pessoas com o planeta é urgente e vital”

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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