Caatinga e semiárido na pesquisa brasileira – parte 2 Destruição Criativa

quinta-feira, 25 junho 2020

Texto aborda a diversificação da base técnico-científica da Caatinga e Semiárido

Como observado em texto anterior, as Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs), localizadas na região Nordeste e no Estado de Minas Gerais, recentemente, contribuíram para consolidar uma base técnico-científica no semiárido brasileiro. Formada por 188 Grupos de Pesquisa que abrigam 302 Linhas de Pesquisa em diferentes áreas de conhecimento e com expertises em diversas áreas profissionalizantes: agronomia, tecnologia de alimentos, zootecnia, ecologia, geociência, engenharias, educação, turismo, artes e entre outras

Com o objetivo de enxergar as especialidades do conhecimento produzido por esses Grupos de Pesquisa, identificaremos a participação destes por grandes áreas de conhecimento, de acordo com a tipologia do CNPq e, em seguida, decomporemos cada grande área de conhecimento. Com isso, daremos conta de um espectro mais acurado dos saberes com potencial de aplicação na caatinga e semiárido.

Utilizaremos as informações coletadas na base de dados corrente do DGP-CNPq, em 15 de junho de 2020, para identificarmos e desagregarmos as grandes áreas de conhecimento exploradas pelos 188 Grupos de Pesquisa.

De modo geral, o Gráfico 1 apresenta a distribuição da base técnico-cientifica dos 188 Grupos de Pesquisa, por grandes áreas de conhecimento. No ano de 2020, a grande área de conhecimento Ciências Agrárias participam com 94 Grupos de Pesquisa, um percentual de 50% do total; a grande área de conhecimento Ciências da Saúde e Biológicas com 47 Grupos de Pesquisa ocupa a segunda posição com 25% do total; a grande área de conhecimento Humanidades – incluindo as Ciências Humanas, Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes -, com 17 Grupos de Pesquisa e uma participação de 9% do total; na grande área de conhecimento Engenharias consta 13 Grupos de Pesquisa e uma participação de 7% do total; a grande área de conhecimento Ciências Exatas e da Terra com 12 Grupos de Pesquisa e com uma participação de 6.4% do total; Outras com 5 Grupos de Pesquisa e um percentual de 2.6% do total.

Percebe-se a grande participação, num total de 75%, de duas grandes áreas de conhecimento: agrárias e biológica. De fato, são áreas que trazem, pela sua natureza, um engajamento direto com as problemáticas do semiárido.

Partindo para um detalhamento mais minucioso, conforme nosso objetivo, analisaremos as especialidades do conhecimento produzidos pelos Grupos de Pesquisa.

O Gráfico 2 mostra que, na grande área de conhecimento Ciências Agrárias, soma-se 95 Grupos de Pesquisa. Observa-se a predominância da área Agronomia, com 41 grupos; seguida pela Zootecnia com 22 grupos; Medicina Veterinária com 10 grupos; Engenharia Agrícola e Recursos/Engenharia Florestal, ambas as áreas, com 8 grupos cada; Ciências e Tecnologia de Alimentos com 5 grupos; e Recursos/Engenharia de Pesca, com um único registro.

Observa-se que a caatinga e o semiárido abrigam competências técnico-cientificas especificas em quase todas as áreas de conhecimento que compõem a grande área de conhecimento Ciências Agrárias.

O gráfico 3 revela na grande área de conhecimento Ciências Biológicas 39 grupos de pesquisa ao todo. Merecem destaque as áreas de Ecologia e Botânica em número de grupos de pesquisa, 14 e 8 grupos, respectivamente; seguidas por: Biologia Geral (4 grupos), Biotecnologia (3 grupos), Genética (3 grupos), Zoologia (3 grupos), Microbiologia (2 grupos), Farmacologia e Morfologia (ambos com 1 grupo). Constatou-se a ausência de atividades de pesquisa nas seguintes áreas de conhecimento: Biofísica, Bioquímica, Fisiologia, Imunologia e Parasitologia, como mostra o Gráfico abaixo.

O gráfico 4 demonstra que, na grande área de conhecimento Ciências da Saúde, há o registro de apenas 5 grupos de pesquisa, assim distribuídos: Educação Física e Saúde Coletiva com 2 grupos cada e, Farmácia com apenas 1 grupo. Verificou-se que ficaram de fora áreas importantes do conhecimento, entre elas: Enfermagem, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Nutrição e Odontologia.

O Gráfico 5 aponta que, na grande área de conhecimento Ciências Exatas e da Terra consta o total de 13 grupos de pesquisa.  As evidências vão para a Geociências, com 9 grupos de pesquisa registrados; seguida pela Química com 3 grupos; e Ciência da Computação com 1 grupo. As competências em Física, Astronomia, Matemática e Probabilidades e Estatística não despertaram ainda o interesse dos pesquisadores com a temática do semiárido e do bioma caatinga.

O Gráfico 6 exibe que, na grande área de conhecimento Engenharias, há o registo de exclusivamente 14 grupos de pesquisa. Como podemos visualizar estão empatadas as Engenharias de Energia, de Materiais e de Química com um único grupo cada; destaque para Engenharia Civil (6 grupos), seguida por Engenharia Sanitária (3 grupos) e Engenharia de Minas (2 grupos). Engenharias tradicionais não registram presenças, entre elas, Produção, Transporte, Elétrica e Mecânica, assim como, as novas engenharias Biomédica e Nuclear.

Por último, o Gráfico 7 demonstra que, a grande área de conhecimento Humanidades, que incorpora três grandes áreas do conhecimento: Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes somam, em conjunto, 17 grupos de pesquisa.

A área Ciências Humanas contabiliza 12 grupos, dentro desses, sobressai Geografia (7 grupos), Educação (3 grupos) e Filosofia e Sociologia com 1 grupo cada; na grande área Ciências Sociais Aplicadas foram registrados 4 grupos, preponderando Administração (2 grupos), Direito e Turismo, ambos com 1 grupo; por fim, na área Linguística, Letras e Artes, destaca-se apenas Artes com um regular grupo de pesquisa.

Cabe anotar que alguns saberes relacionados as Humanidades ficaram de fora da planilha de Grupos de Pesquisa inseridos na temática do semiárido:  Antropologia, Arquivatura, Ciência Política, História, Psicologia e Teologia, abrangidos pelas ciências humanas; Arquitetura e Urbanismo, Ciência da Informação, Comunicação, Demografia, Desenho Industrial, Economia, Economia Doméstica, Museologia, Planejamento Urbano e Rural e Serviço Social, contidos nas Ciências Sociais Aplicadas; e por fim, não conta registros na área específica  em Letras e Linguísticas.

Concluindo, vale ressaltar que que há mais Grupos de Pesquisa atuando em diversas áreas do conhecimento envolvidos com problemas e soluções da caatinga e do semiárido brasileiro. Eles não foram percebidos em nosso estudo em razão da nossa busca, no DGP-CNPq, levantar unicamente os Grupos de Pesquisa que carregam em seu nome as palavras-chave: semiárido, semi-árido e caatinga. No terceiro texto a ser publicado sobre o tema semiárido, analisaremos a questão supracitada.

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Leia outro texto dos mesmos autores: Caatinga e Semiárido na pesquisa brasileira

Vaneide Ferreira Lopes é pesquisadora e Líder do Grupo Inovação, Tecnologia e Projetos na Paraiba (GiTecPB) e Carlos Alberto da Silva é professor titular da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Líder do Laboratório de Pesquisas em Economia Aplicada e Engenharia de Produção (Lapea).

Vaneide Ferreira Lopes e Carlos Alberto da Silva

3 respostas para “Caatinga e semiárido na pesquisa brasileira – parte 2”

  1. Fernando Luiz Alves Barroso disse:

    O artigo escrito por Carlos Alberto e Vaneide é muito bom. Primeiro o tema é muito interessante e importante: “saberes com potencial de aplicação na caatinga e semiárido” (…) áreas do conhecimento envolvidos com problemas e soluções da caatinga e do semiárido brasileiro”. Em segundo lugar, o artigo me permitiu uma descoberta que gostei muito: “grande participação (…) duas grandes áreas de conhecimento: agrárias e biológica (…) trazem, pela sua natureza, um engajamento direto com as problemáticas do semiárido”. Agronomia, Zootecnia, Veterinária, Engenharia Florestal. Que beleza! Descubro que a universidade não vira as costas para a realidade ao seu redor. O dinheiro dos pagadores de impostos está sendo bem empregado. Desconfio que a produção qualitativamente mais fraca seja das ciências humanas.

  2. Noaldo Ribeiro disse:

    A série Caatinga e semiárido na pesquisa brasileira, de autoria de Carlos Alberto da Silva e Vaneide Ferreira Lopes, mapeia os estudos que possivelmente poderão propiciar se enxergar o Nordeste não com a velha capa folclorizada (no pior sentido do termo), mas como uma região promissora, carecendo de políticas sérias, voltadas para o seu desenvolvimento.

  3. Roberto Siqueira disse:

    Ao trazerem a lume os saberes de quase duas centenas de grupos de pesquisa, de variadas áreas do conhecimento, com relevante atuação na temática do semiárido nordestino e mineiro, os autores presenteiam, além da comunidade acadêmica, os empreendedores e gestores públicos com informações importantes para tomada de decisões, fulcradas no conhecimento científico. Parabéns!

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