Ciência congelada Ciência Nordestina

terça-feira, 17 julho 2018

Os cortes drásticos em ciência e tecnologia dos últimos anos no Brasil começam a ter reflexos claros nos laboratórios e programas de pós-graduação

Já dizia o velho mestre: “Fazer ciência é como andar de bicicleta… Não pode parar”. E para permanecer em movimento é necessário energia. Esta mesma energia que vem das pessoas, que precisam de dinheiro para sobreviver e de dinheiro para fazer pesquisa. Os cortes drásticos em ciência e tecnologia dos últimos anos no Brasil começam a ter reflexos claros nos laboratórios e programas de pós-graduação pelo país. Sem recursos para passagens, o intercâmbio de pesquisadores em visitas técnicas e bancas de qualificação tornou-se cada vez mais raro – passamos a usar a internet. Sem recursos para comprar equipamentos novos, continuamos a usar o que temos – mesmo não tendo recursos para a manutenção destes. Sem recursos para comprar materiais consumíveis, usamos o resto que dispomos, sem reposição do estoque. E as máquinas começam a quebrar, materiais a faltar, alunos a perder bolsas. A ciência começa a ser um desafio ainda maior, pois sem infraestrutura tudo é mais difícil. E não há horizonte de novos editais… Sentimos falta do bom e velho Edital Universal do CNPq, dos editais multiusuários em parceria com a CAPES, da possibilidade de competir e sonhar com novas fronteiras de conhecimento a desbravar. Tudo o que vemos é um cenário de terra arrasada, pouca esperança e uma única certeza: do jeito que está, a ciência no Brasil não tarda a morrer. Primeiro serão os grupos emergentes, depois os grupos consolidados… Uma nação jovem, criativa e de enorme potencial decidiu fechar para balanço. Resolveu colocar toda a sua ciência no freezer. Na falsa esperança de que em 20 anos poderá reaquecer no micro-ondas e retomar de onde parou. Estamos falando de pessoas, sonhos, planos de futuro para uma nação. Ninguém pode congelar a ciência de um país continental – o antigo colosso da América do Sul. Temos muitos problemas e o mais importante: muitas riquezas para financiar a busca pela solução destes problemas. Não precisamos admitir escravidão à máquina neoliberal, ao ponto de entregar nosso petróleo e jogar nossa ciência num balde de nitrogênio líquido.

Os cientistas brasileiros precisam manter a chama acesa pela ciência. Que não seja apenas usando o resto do equipamento e do reagente, comprando seus materiais com o pouco dinheiro que tem no bolso… Tornando rotineira a vida de um laboratório em ruínas… Mas lutando de forma coesa por um ministério de ciência e tecnologia que mantenha o fomento à pesquisa, que ouse planejar dias melhores para esta desgraça que decaiu por sobre toda a academia. Não é momento de disputar as últimas migalhas que restam no cofre. Não interessa neste momento levantar discussões inúteis sobre a importância das áreas de conhecimento. Todas são relevantes! Todas são imprescindíveis. A hora é de sermos cada vez mais um corpo de pessoas que lutam pela mesma causa.

A ciência do Brasil está na UTI e tem os dias contados. Você já pensou no que irá fazer antes que ela morra?

A coluna Ciência Nordestina é atualizada às terças-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag CiênciaNordestina.

Leia o texto anterior: Como saber se tem antibiótico na minha comida?

Helinando Oliveira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital