O futebol feminino é também uma paixão nacional? Observatório de Mídia

quinta-feira, 12 novembro 2020

Pesquisadoras apontam que mobilizações no Twitter refletem a falta de apoio à categoria

Por Aline Alves e Lanna Artemizia

O futebol é um dos esportes mais populares no mundo e adorado pelos brasileiros. Tamanha paixão ajudou a construir uma história repleta de glórias, títulos e medalhas para os jogadores e clubes que, por sua vez, contribuíram para a edificação de um mercado de grandiosos investimentos que movimenta milhões de reais entres as equipes de futebol. Esse é o famoso Mercado da Bola. No entanto, quando essa narrativa passa a ser protagonizada por mulheres, os rumos são outros. Afinal, o futebol feminino é também uma paixão nacional?

Desde o início do esporte no país, o futebol se caracterizou como algo exclusivamente masculino. “Elas” não podiam participar porque a concepção que se tinha era que essa prática desportiva era agressiva, sendo assim feita por homens e para homens. De acordo com um artigo publicado na Revista Educação Physica em 1940, o futebol era considerado um esporte violento e, por isso, seria incompatível com o temperamento e caráter femininos; além disso, seria anti-higiênico e contrário à “natural” inclinação da alma feminina.

Mas não para por aí: além desse artigo que ganhou espaço na imprensa da época, existiram outros aspectos que acabaram reforçando esse preconceito e restringindo a prática desse esporte por mulheres. Ainda na década de 1940, houve uma intervenção estatal que proibiu o futebol feminino. Assinado pelo então presidente Getúlio Vargas, esse decreto teve vigência por mais de 30 anos e deixou marcas que perduram até hoje.

Apesar das barreiras impostas ao crescimento e manutenção do futebol feminino, a categoria permaneceu lutando por mais reconhecimento e investimentos. Há pouco tempo, algumas conquistas centralizaram as discussões sobre essa modalidade. Nomes de grande destaque no futebol foram escolhidos para gerir o departamento feminino da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Também foi determinado o pagamento das diárias às atletas que são convocadas pela seleção pelo mesmo valor pago à equipe masculina. No entanto, essas pequenas vitórias das jogadoras dentro e fora de campo contrastam com momentos que o futebol feminino gostaria de apagar, e não é preciso ir muito longe para presenciarmos o descaso que ainda se aplica às jogadoras, clubes e competições femininas.

Aline Alves.

Nos últimos meses, parte dos clubes brasileiros sentiu de forma intensa o impacto da ausência de competições. Em uma tentativa de evitar prejuízos, muitos clubes buscaram soluções para não perderem atletas e manter as agremiações funcionando. No entanto, algumas equipes foram na contramão desse movimento, como é o caso do time do Vitória.

Rodeado de polêmicas quando o assunto é futebol feminino, o Clube de Regatas Vitória protagonizou recentemente um daqueles casos de injustiça que deixa o público incrédulo com tamanha falta de respeito. Em 2019, depois das leoas (como são chamadas as atletas), conquistarem o sonhado acesso para a elite do futebol e se manterem na competição com resultados significativos, o time foi completamente desmontado pela equipe técnica. Jogadoras profissionais foram substituídas por uma equipe amadora que gerou, é claro, um custo mais baixo ao clube. Para se ter noção, a folha de pagamento das atletas que elevaram o patamar da equipe era algo em torno de R$ 30 mil reais, cerca de 1% do orçamento do clube, conforme aponta o blog Dibradoras. Mesmo com o valor irrisório, o clube decidiu cortar gastos, dispensou várias atletas no final do ano e desistiu de disputar o estadual da categoria, demonstrando assim a ausência do mínimo de respeito com a equipe feminina.

É por isso que não é surpresa rever o clube citado em mais uma polêmica. Com as dificuldades impostas pela pandemia da Covid-19, as equipes femininas foram extremamente afetadas por questões financeiras. Ciente da situação, a CBF decidiu repassar uma verba destinada a ajudar os times femininos e masculinos a lidarem com a crise. Para o futebol feminino, os valores eram de R$ 120 mil reais para equipes da série A1 e R$ 50 mil para as equipes da série A2.

O time do Vitória, que disputa atualmente a série A1, foi contemplado por essa verba da CBF, mas diferente do que foi proposto pela entidade que doou o dinheiro, o clube optou por confiscar a quantia e incluí-la no caixa único da equipe. Em uma entrevista concedida à rádio Sociedade de Salvador, Paulo Carneiro, presidente do clube, explicou a decisão tomada por ele e reiterou sua visão a respeito da categoria. Ele afirmou o seguinte: “Eu vou pagar, mas eu vou pagar quando (eu) quiser, quando eu achar que devo […]. Pra ficar claro, meu rapaz, é que quem manda no Vitória sou eu e a prioridade vai ser sempre o futebol masculino e acabou. Entendeu isso? O Vitória não entende o futebol feminino como prioridade.”

O caso repercutiu muito nas redes sociais, principalmente, no Twitter. Diversos jornalistas esportivos deram visibilidade ao que estava acontecendo dentro do clube e rapidamente o assunto tomou conta das plataformas digitais. Como a jornalista Olga Bagatini, jornalista esportiva, que utilizou seu perfil em uma rede social para trazer visibilidades ao que estava acontecendo dentro do time feminino do Vitória.

Um dos agentes que elevaram essa mobilização a outro nível foi um perfil dedicado ao clube do Vitória. A Frente Vitória Popular iniciou uma campanha para ajudar na arrecadação de recursos para apoiar a equipe feminina do clube e conseguir quitar o salário das atletas. A mobilização, motivada pelo descaso do próprio clube com as jogadoras, movimentou as redes sociais e o projeto #EuApoioasLeoas alcançou a meta estipulada e conseguiu fazer o que seria tarefa do clube.

Lanna Artemizia.

Diante desse acontecimento, é possível observar que as redes sociais tiveram um papel fundamental na circulação desse caso que tomou grandes proporções. No entanto, essa não é a primeira vez que essas plataformas fortaleceram uma discussão em torno do futebol feminino. Por ser um espaço onde se concentra um grande número de apoiadores desse esporte, a mobilização e a divulgação das partidas é algo que acontece com frequência em comparativo com a mídia hegemônica, que segue priorizando o futebol masculino.

Um exemplo disso, são as transmissões de jogos dos campeonatos femininos que vem acontecendo no próprio Twitter. Há algumas semanas, a partida disputada entre os clubes São Paulo e Santos pelas quartas de final do Campeonato Brasileiro Feminino atingiu a marca de 700 mil espectadores na plataforma. Com isso, notamos que as redes sociais, em especial, o Twitter tem funcionado como um potencializador do alcance desses jogos o que acaba possibilitando um maior acesso e reconhecimento do trabalho desempenhado pelas atletas.

Além disso, outro ponto que tem contribuído bastante para o fortalecimento da categoria feminina no esporte, são os comentários feitos lance a lance no momento da partida. Essa prática é bastante comum entre os clubes masculinos no Twitter, entretanto, as disputas femininas não costumam ter esse mesmo tratamento. Exceto pelo Corinthians, que vem desempenhando um importante papel ao oferecer esse espaço também para a equipe feminina utilizando sua conta na rede social para todas as categorias esportivas.

Esses pequenos avanços fazem parte de diversas ações que têm contribuído com a reformulação do futebol feminino no Brasil que vão desde o ciberativismo, que possibilitou a discussão e visibilidade para as categorias femininas, como também a participação das mulheres no gerenciamento das equipes.

Nesse contexto, podemos visualizar o importante papel de integração que as mídias sociais produzem atualmente. Afinal, muitas discussões têm ganhado força nesses ambientes digitais, como é o caso do futebol feminino, e esses passos têm sido fundamentais para o futuro do esporte. Aos poucos, as mulheres retomam um espaço que é seu por direito e que foi tomado sem consentimento.

A história do futebol feminino, permeado de lutas, está se desvinculando de um passado pouco favorecido e tenta avançar cada vez mais rumo a um futuro em que todas as categorias da modalidade funcionem e proporcionem maior equidade e acesso aos mesmos meios que o futebol masculino hoje dispõe.

 

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O próximo texto será publicado no dia 26 de novembro

JOII – Grupo de pesquisa em Jornalismo, Inovação e Igualdade da Universidade Federal do Piauí

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