Para pesquisador nigeriano, soluções brasileiras podem resolver problemas agrícolas da África Coluna do Jucá

quinta-feira, 19 julho 2018
Abdulrazak Ibrahim (Foto: Acervo pessoal)

Pesquisador do Fórum de Pesquisa Agrícola na África fala das potencialidades de atuação conjunta entre instituições brasileiras e africanas

A partir dessa edição, a Coluna do Jucá vai publicar entrevistas com pessoas que contribuem para o progresso da ciência.  A primeira entrevista foi realizada com Abdulrazak Ibrahim. Atualmente, ele é pesquisador e consultor do Fórum de Pesquisa Agrícola na África (FARA, da sigla em inglês para Forum for Agricultural Research in Africa), em Gana, no âmbito da capacitação na pesquisa e inovação voltadas à agricultura para desenvolvimento. No início da sua carreira, em 2000, trabalhou como líder de pesquisa em Biotecnologia no Instituto de Pesquisa Agrícola do Estado de Jigawa, Nigéria. Depois de um intercâmbio com a Universidade Federal do Ceará, fez Mestrado, no Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular de Plantas na UFC e Doutorado em Biologia Molecular, na Universidade de Brasília, em parceria com a Embrapa. Em 2008, após a sua volta para a Nigéria, tornou-se professor no Departamento de Bioquímica, da Universidade Ahmadu Bello (ABU), na Nigéria. Abdul também é o editor-chefe adjunto do Jornal Nigeriano de Biotecnologia, além de ter publicado vários artigos em revistas especializadas, artigos de conferências, resumos de políticas e notas técnicas.

Abdulrazak Ibrahim. (Foto: Acervo pessoal)

Coluna do Jucá: O que é o FARA e qual é a atuação desse orgão?

Abdulrazak Ibrahim: O FARA é uma organização internacional, com sede em Gana, que reúne e incentiva a cooperação entre países e instituições estratégicas em prol da pesquisa, desenvolvimento e inovação agrícola na África. Trata-se de um órgão continental de pesquisa e inovação agrícola com mandato da Comissão da União Africana (AUC) para facilitar ações pan-africanas destinadas a aumentar a produtividade e competitividade agrícola do continente.

Coluna do Jucá: Qual é é sua atuação nesse orgão?

AI: A minha função é coordenar pesquisas que facilitam a capacitação de pessoas, instituições e sistemas ligados à agricultura no continente a fim de gerar, adotar e aplicar novas tecnologias e metodologias para aumentar a produtividade e competitividade agrícola da África e a promoção da segurança alimentar e nutricional para a agricultura sustentável.

Coluna do Jucá: Quais instituições brasileiras têm sido parceiras do FARA?

AI: A FARA tem desenvolvido parcerias e projetos com entidades brasileiras como Embrapa, Instituto Brasil-Africa (Ibraf), Ecowas-Brazil Chamber of Commerce, Universidade Federal de Viçosa entre outros. O foco dessas parcerias é a capacitação e o agronegócio, que buscam fortalecer a formação de jovens africanos, nos centros de ensino e pesquisa, órgãos públicos e privados, levando à aquisição de habilidades e conhecimentos por meio de plataformas de inovação e facilitando negócios.

Abdulrazak Ibrahim (Foto: Acervo pessoal)

Coluna do Jucá: O que o senhor acha do Programa Fome Zero, e quais iniciativas do FARA ou da União Africana poderiam ajudar a erradicar ou minimizar a fome na África?

AI: A experiência brasileira mostrou que o crescimento e o desenvolvimento agrícola, apoiados por pesquisas para o desenvolvimento liderado pela Embrapa, foram  responsáveis pelo crescimento econômico de 70% registrado no Brasil nas últimas décadas. No entanto, o crescimento agrícola na África permanece em torno de 6%. O Brasil representa um parceiro natural para todos os países africanos. Além de nossos laços culturais, as condições agroclimáticas que são comuns entre as duas regiões, são ideais para o aproveitamento do poder do desenvolvimento agrícola brasileiro, as tecnologias e produtos desenvolvidos no país por um lado, e os potenciais de crescimento na África, por outro, reunindo parceiros como pesquisadores, bancos, agricultores, investidores, empresas, mulheres e jovens empresários, para criar um ambiente que propicie oportunidades de mercado para o crescimento numa situação “win-win”, ou seja, onde todos ganhem. Isso está enquadrado na colaboração Sul-Sul entre os países africanos e suas contrapartes, como no Brasil. Assim, o Brasil oferece uma infinidade de opções de desenvolvimento comprovadamente eficazes em termos de custos e que têm um enorme potencial para aumentar a escala em benefício dos países africanos que têm condições agroecológicas e socioeconômicas semelhantes.

Coluna do Jucá: Quais foram as suas motivações para estudar no Brasil

Minha experiência brasileira foi gratificante e, como você observou, vejo as grandes potencialidades em implantar a abordagem brasileira na abordagem de nossos problemas agrícolas, mesmo enquanto estudante. Morei no Brasil entre 2003 e 2015, quando tinha entre 20 e 30 anos de idade. Nesses momentos, vivi e acompanhei a transformação que colocou o Brasil como a sexta maior economia do mundo. Assim como foi dito pelo falecido professor Calestous Juma, de Havard Queniano, “para cada problema africano, existe uma solução brasileira”. Após meu breve treinamento em cultura de tecidos na UFC em 2003, reconheci a oportunidade única que o Brasil oferecia aos jovens aspirantes cientistas como eu, e isso fez com que eu aprendesse Português, o que me qualificou para uma bolsa de estudos (pela CAPES). Para mim, o Brasil representa uma interface da infraestrutura científica super sofisticada dos países mais desenvolvidos e dos países não desenvolvidos (uma oportunidade ideal para os cientistas africanos, que lidam com situações difíceis). Desde então, tenho mostrado a muitos nigerianos esse caminho e ajudado algumas pessoas nesse sentido.

Coluna do Jucá: Como foram suas exeperiências nas pós-graduação?

Minha experiência na UFC foi altamente gratificante intelectualmente e abriu as portas para maiores conquistas pessoais e profissionais. Desenvolvi minha tese de Doutorado no Laboratório de Engenharia Genética Aplicada à Agricultura Tropical, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, sob a orientação do pesquisador Francisco Aragão. O trabalho resultou em uma nova metodologia de produção de planta resistente a inseto-praga baseada na tecnologia de RNA interferente, cujo pedido de patente foi depositado em 2016. Hoje, como pesquisador da FARA, espero poder empregar a minha experiência na Embrapa e no Brasil para disponibilizar e mostrar as oportunidades que tive para outros estudantes e cientistas africanos. Vejo isso como minha contribuição para tirar a África da situação de fome e pobreza extrema.

Coluna do Jucá: Qual é a sua avaliação sobre o momento atual da ciência no Brasil?

AI: Vejo no jornal e converso com meus colegas brasileiros. Para mim, a política no Brasil é algo bastante complexo, mas entendo que não se pode progredir sem ciência e tecnologia. Os cortes nos investimentos da ciência são lamentáveis e só podem causar problemas para o país. Se olharmos o cenário mundial hoje, veremos que nenhum país se desenvolveu sem investimentos na ciência e na tecnologia, e o próprio Brasil foi a prova disso, graças aos investimentos que fez na ciencia e tecnologia.

(foto: Acervo pessoal)

Coluna do Jucá: No livro A Elite do Atraso, o sociólogo Jessé Sousa aponta a escravidão ocorrida no Brasil como raiz de problemas brasileiros, como as desigualdades racial e social. Como você vê as questões de cunho racial e social no Brasil?

AI: Escrevi três artigos alguns anos atrás sobre a minha experiência brasileira como negro e africano. Os anos que passei no Brasil me mostraram na cara que o Brasil tem muito que melhorar no que se trata da questão racial e da desigualidade. Muitos brasileiros pensam que o país não tem racismo, mas pensam dessa forma, porque o próprio país foi historicamente fundado para o povo pensar assim. Eu ja registrei mais de 30 acontecimentos pessoais que tinham a ver com o racismo. Desde a moça que pensa que não podia alugar quarto porque eu era negro, até a abordagem física e a ameaça por uma pessoa desconhecida na rua e do nada. Quando percebi que era inútil discutir questões de racismo com a maioria das pessoas, resolvi escrever aqueles artigos. Pois cada vez que tentei falar sobre o assunto, via como as pessoas me diziam que era coisa da minha cabeça. Ou seja, eu só podia pensar da forma que eles pensavam. Eu acho que as coisas melhoraram um pouco. O assunto deixou de ser tabu em certos lugares, foram criados sistemas de cotas apesar da oposição ao sistema. Há pouco li uma matéria na Veja com a capa “como é ser negro no Brasil”. Fiquei feliz, pois pelo menos o racismo está sendo conversado no país, mas ainda há muito para melhorar.

The Afro-Brazilian Story I: Black November and Zumbi dos Palmares

The Afro-Brazilian Story II: Slavery, Identity and Question of Racism

The Afro-Brazilian Story III: Link With Africa, Affirmative Action, Chaniging Trends

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Leia o texto anterior: Dia Nacional da Ciência: um jogo que ainda vamos virar

Thiago Jucá, edição Mônica Costa

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