Uma mariquinha no país de maricas Diversidades

segunda-feira, 27 setembro 2021
Foto: Alair Gomes

Da boca do presidente à ofensa na rua, com quantas maricas se faz uma crise na política brasileira?

Por Ribamar Oliveira* (Instagram: @ribaemar).

Não sei o que escrever porque se eu fosse falar, não falaria nada. Aliás, não falei ainda a não ser por essas palavras que pleno oco mostram uma vontade de vazio. Não falaria se precisasse somente pelo cansaço. Escrevo somente por lembrar de duas coisas: estamos em um país de maricas e quem escreve este texto até mesmo calado pode ser visto como uma delas. Na verdade, mais do que dizer que quem escreve pode ser visto como uma marica, podemos inclusive perguntar qual o sentido do termo “marica” e como se perdurou ao longo do tempo para definir o colapso dos nossos dias. Não precisaria justificar quem disse o quê. Até porque acho marica um termo bem démodé para apelidar um viado que passa na rua. Mas, no caso estamos falando da mobilização do ódio da macropolítica para a micropolítica. Do discurso do presidente durante cerimônia no Palácio do Planalto para uma esquina de uma das estações de trem do Rio de Janeiro. Estou atrasado para escrever sobre isso, mas apenas agora fui “xingado” assim lembrei de Bolsonaro, como se fosse possível esquecer.

Ribamar Oliveira. Foto: Acervo pessoal.

Aliás, acredito que apenas escrevo para provocar o que pode ser nomeado de “marica” na fantasia do controle político do governo. Não tenho a intenção de ouvir respostas, pois uma das respostas está no espelho. Nem tenho o objetivo de me alongar, cada um entende o que quer dizer por marica na forma como foi ensinado ao longo do tempo. “Tem que deixar de ser um país de maricas”, disse o presidente há 10 meses, em novembro de 2020, pouco antes de completarmos quase um ano de pandemia de Covid-19 no Brasil, quando o país chegou na marca de 162,6 mil mortes. Na ocasião, ele questiona qual seria o “enfrentamento” dos brasileiros diante da crise que estamos cruzando. Como diz a filósofa Judith Butler, quem enuncia o discurso de ódio é responsável pela maneira como ele é repetido e ao lembrar de quando recebi um “bom dia mariquinha” na estação de trem no Rio, apenas por cruzar a catraca da estação, me veio o silêncio que, entre o medo e a raiva, beira mais o cansaço. O que há entre a fala de Bolsonaro e a ofensa de um desconhecido na rua? Para definir uma palavra que machuca não bastam essas reflexões.

Foto: Alair Gomes

Se enfrentar a pandemia de peito aberto quer dizer tomar banho frio ou usar as escadas ao invés do elevador para Bolsonaro, como mencionou no último dia 23 de setembro, diante da crise hídrica desencadeada pelas políticas de governo genocida, acredito que temos indícios do que significa o termo “marica” na política performativa do governo. Em outro momento já escrevi sobre o que é golden shower, então agora quero apenas perguntar o que é ser marica para quem está lendo, sobretudo, quando a responsabilidade do falante consiste em negociar o legado do uso da palavra que limita e possibilita o discurso. Distante de me ofender, o termo abre os sentidos para pensarmos a crise diante de cada marica que somos ao enfrentarmos nossas próprias crises durante a pandemia. Escuto “marica” e ao invés de somente me preocupar com os efeitos desse discurso a partir de mim, que passo por diversos privilégios, lembro das minhas amigas trans e travestis e das outras sapatas e maricas que podem ser lidas pela mesma ótica em passagens diferentes dos usos da palavra e da violência. O que existe é apenas uma fantasia do que é ser marica na política performativa do governo genocida. Para quem não queria falar quase nada, acho que falei muito. Estou cansado, mas não iremos ajudar o Brasil com banho frio. Nem se for para água de chuca. Aliás, moro no 9º andar. Não há como esgotar o Brasil esgotado em si mesmo.

*Ribamar Oliveira é jornalista e doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Membro do grupo de pesquisa DesCom, ligado ao Departamento de Comunicação Social (DECOM) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

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“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom é um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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