Burocracia de importação e falta de investimentos são grandes gargalos para a Ciência Entrevistas

quarta-feira, 14 setembro 2016

A opinião é do professor Aldo Lima, da Universidade Federal do Ceará, na segunda parte do Perfil do Pesquisador em análise da realidade da pesquisa no Brasil

Integrando o grupo de pesquisadores de nível 1A no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Aldo Lima trabalha no estudo de doenças diarreicas, desnutrição, enteropatia e barreira funcional intestinal. O foco é a prevenção e o tratamento, e também os impactos a curto, médio e longo prazo no desenvolvimento cognitivo, crescimento e educação em crianças.  Participou na fundação e é coordenador do Instituto Nacional de Biomedicina do Semi-Árido Brasileiro (www.ibisab.ufc.br). Integra duas redes de pesquisas, uma nacional, RECODISA (www.recodisa.ufc.br) e outra internacional MAL__ED (www.upcibimed.ufc.br/MAL-ED/), financiadas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e Bill and Melinda Gates Foundation, respectivamente. Com uma rotina de trabalho de três horários diários, não é raro seguir pela madrugada em leituras e escritas de artigos. Orientou 21 teses, 18 dissertações e 21 trabalhos de Iniciação Científica, e esteve na banca de 64 alunos de Mestrado e Doutorado. Quando pode, gosta de dirigir um buggy pelo litoral cearense. A intenção é aumentar a frequência, mas atualmente faz essas viagens apenas duas vezes por ano. Leia a primeira parte da entrevista.

Quase 20 anos depois de ter ganhado o Prêmio de Melhor Patente do Ano, na Universidade da Virgínia (EUA), qual foi o caminho dessa patente?

A patente foi feita com base numa experimentação pré-clínica com a substância alanil-glutamina – um dipeptídeo, que atua como fármaco na recuperação da lesão da barreira gastro-intestinal, principalmente em crianças com desnutrição e enteropatia  tropical. Desde então, já tivemos intervenções clínicas do tipo 3, com estudo duplo cego randomizado e agora estamos numa fase bastante interessante porque a substância já mostra resultados clínicos, passando para a fase 4, ou seja, de uso em escala já de produção industrial. A Fundação Bill e Melinda Gates agora está interessada em promover um estudo que possa factuar um beneficio, em desenvolver um produto com esta base.

Há boas perspectivas para a produção de um medicamento?

Eu diria que sim, se o momento econômico estivesse melhor. Se a gente tivesse continuado com o momento econômico mais forte, eu acho que essa substância já estaria entrando numa empresa de produção em larga escala. A gente achava que o produto tinha um aspecto mais local, mas depois de avaliado no Sebrae-CE, ele foi considerado com bom para o Brasil e também para outros países, principalmente aqueles em desenvolvimento que apresentem esse tipo de doença que a gente estuda.

O fato do Brasil ter saído do mapa da fome e a melhoria dos indicadores sociais interferiu nessa área que o senhor pesquisa?

Melhorou , mas aqui no Brasil, mesmo há 20 ou 30 anos a gente não tinha uma prevalência alta de desnutrição. Nós tínhamos em torno de 15% e isso foi reduzido a cerca de 6 a 8% aqui na região do semiárido brasileiro. Aqui mesmo na comunidade que a gente iniciou o estudo, a taxa era 5% de desnutrição moderada ou severa, mas o que matava era as diarreias agudas e a subnutrição. Aqui no nosso meio, as crianças não tem desnutrição moderada e severa, elas têm deficiências nutricionais de nutrientes específicos e isso altera toda a fisiologia normal do desenvolvimento da criança, principalmente na área neurocognitiva. Nos resultados que encontramos, as crianças que tiveram mais diarreia nos dois primeiros anos, quando chegam aos sete anos tinham déficit neurocognitivo de inteligência e de memória, déficit de escolaridade  e menor capacidade física do que as crianças que não tinham tido diarreia muito frequente nos dois primeiros anos de vida. Nós estamos com uma doença que é subclínica, ela está impactando o desenvolvimento pleno da população e é isso que o mundo precisa ouvir e está ouvindo. Felizmente, a Fundação Bill e Melinda Gates está priorizando esse tipo de fundamentos e esperamos que outros governos, incluindo o governo brasileiro, também priorizem.

Agora especialmente, que o Brasil está num momento politicamente muito confuso, qual é a sua avaliação da Ciência no Brasil? Quais são as grandes as grandes dificuldades para quem atua no setor?

O primeiro grande gargalo é nossa burocracia de importação de material para pesquisa. A gente paga um preço muito alto porque a maioria dos reagentes e equipamentos é cara e a importação requer um tempo longo. Por exemplo, todo o material deve ser solicitado seis meses antes de sua utilização, enquanto lá fora, nos Estados Unidos ou na Europa, o pesquisador compra os reagentes por telefone, como se estivesse comprando uma pizza. Se não chegar no mesmo dia, chega no dia seguinte. Isso é uma diferença enorme.

O senhor falou em primeiro problema. Há outros?

O segundo problema é o nosso momento econômico, que está muito crítico porque todo o financiamento de pesquisa está em suspenso e a gente está aguardando que as coisas retornem. Para se tornar um país com autonomia, com desenvolvimento, que possa alcançar o primeiro mundo, o Brasil precisa priorizar a área de pesquisa. Sem isso, não se cria autonomia e produção local que permita que o país tome suas próprias diretrizes e possa avançar em saúde e nas outras áreas, que são também necessárias.

Como o país poderia investir para desenvolver a potencialidade que existe no Nordeste?

Aqui o Ceará, essa queixa da dificuldade de aquisição de reagentes, de material para pesquisa é a mesma em estados como São Paulo e Rio de Janeiro. O que diferencia São Paulo de outros estados, é que São Paulo é o estado mais rico e tem uma fundação de amparo à pesquisa (Fapesp) bastante operante, ela investe significativamente mais em pesquisa. Não se faz pesquisa se não houver investimento econômico porque é uma atividade cara, tem que ter alguém que sustente a atividade da pesquisa. O país já melhorou muito no sentido de ampliar para outras áreas e não só São Paulo e Rio de Janeiro, mas eu acho que o país precisa entender que existem potenciais em varias regiões que devem frutificar e deve apoiar essas potencialidades.

Há uma crítica bastante generalizada de que há um gap entre a academia, que produz o conhecimento, e a empresa, que é capaz de transformar o conhecimento em bens para a sociedade. Qual é a sua avaliação desse quadro? Ele é real? Quem são os responsáveis?

Eu acho que falta maturidade ao Brasil em ambos os lados (academia e empresa) para ter uma coerência de associação mais eficiente. Tem que haver um estímulo cada vez maior para que essa coerência possa ser associada. Todos os países que amadurecem, ficam mais estáveis economicamente, partem para melhorar a ciência, para melhorar a indústria nessa associação. Essa inércia é dependente desse aspecto macro que o país tem que passar. A medida que o país avança nesse desenvolvimento econômico, ele começa a sentir a necessidade dessa associação, essa necessidade de criação com inovação científica e tecnológica para que ele possa criar produtos mais autônomos, com melhor qualidade. As universidades federais não estão maduras o suficiente para que possa ter um regime que possa permear melhor esse tipo de interação. O nosso regime de trabalho, por exemplo, não permite a quem tem regime de trabalho de dedicação exclusiva nenhuma associação com empresas. Esses são pontos que têm que ser trabalhados.

O que lhe dá mais prazer: bancada de laboratório ou sala de aula? As atividades de pesquisador ou as de professor?

Se for para escolher uma, a pesquisa me envolve cem por cento, mas todo pesquisador deve ter um percentual de, no mínimo de 30% do seu tempo, para o ensino porque é através do ensino, da sala de aula que se consegue empolgar alunos para a pesquisa, despertar neles a vocação para a pesquisa que é necessária na Medicina. A Medicina tem que avançar bastante em muitas doenças e muitos conhecimentos porque muitas pessoas ainda padecem dessas doenças.

Como é a relação de sua família com sua atuação na Ciência?

Eu tive a sorte de casar com uma colega de turma, a pediatra Noelia Leal Lima, que tem formação na área da pesquisa que eu faço e que continua me ajudando na pesquisa. Sempre houve um estímulo e um respeito e em todas as vezes que eu precisei de tempo e espaço, a minha família sempre fez questão de prover. Isso é uma questão muito positiva, porque não se sobrevive bem numa área de tanta dedicação, se não tiver alguém apoiando e ajudando para que se possa conseguir os objetivos que quer contemplar.

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