Pesquisador defende presença de cientista no Ministério da Ciência Entrevistas

quarta-feira, 10 agosto 2016

Para Sidarta Ribeiro, a participação de pelo menos um cientista no Ministério é questão de sobrevivência nacional

NC: Isso não é corporativismo?

SR: Não. Porque a Ciência é uma coisa muito diferente das outras coisas, é muito específica e pouquíssima gente entende especificamente. É preciso que fique claro que a Ciência e Tecnologia não vai ser resolvida por um administrador apenas, tem que ser um cientista administrador. É assim como você dizer que o cirurgião que vai fazer sua ponte de safena é contador, é um cara ótimo, ele já olhou na internet como é que faz. Não dá! E a gente corre o risco de ser passado para trás, e de fazer escolhas erradas e isso tem impacto para o resto da nossa vida. Por exemplo, tenho certeza de que se tivesse havido uma consulta científica eficaz, o Brasil não teria embarcado em tirar mais petróleo do fundo do mar, em vez de aprender a transformar foto em eletro, alimentando as casas das pessoas. A tecnologia dos painéis fotovoltaicos poderia ter ficado muito mais barata se o Brasil tivesse colocado o seu esforço nisso e o Brasil hoje estaria bem melhor. Faltou visão de futuro com estratégia baseada na Ciência, desde a Ecologia até a Economia. Os cientistas sabem disso porque eles acreditam no futuro, eles não trabalham com o presente. Ter pelo um cientista no ministério não é corporativismo, é uma questão de sobrevivência nacional. Sem Ciência vamos dar com os burros n’água porque temos o que perder. Se fosse uma ilhazinha, talvez passássemos despercebidos, mas não! Nós seremos canibalizados.

NC: Quando o senhor fala em cientista, a quem se refere? Há algo em comum em todos os cientistas?

SR: É uma ótima pergunta por que a Teoria da Ciência tem ótimos filósofos com visões diferentes do que é Ciência. Pode ser um popperiano (Karl Popper), feyerabendiano (Paul Feyerabend), poder ser um kuhniano (Thomas Kuhn), um lakatosiano (Imre Lakatos), pode ser uma pessoa que nunca ouviu falar nada disso e mesmo assim é cientista e deveria compartilhar de uma série de pressupostos, mas eu acho que todos vão concordar que Ciência tem a ver com método empírico, com rigor e verdade, com teste de hipóteses. Mas a Ciência não é igual a tudo, a gente tem que apostar mais nela. Ela nos trouxe até aqui. As pessoas não querem tomar vacina e ter choque anafilático, elas não querem usar um cosmético e ter uma alergia; as pessoas esquecem a quantidade de Ciência que tem na vida delas. Elas tratam a Ciência como se fosse uma nova religião, obedecem tudo o que se fala na televisão que é científico, mas não se mobilizam pela Ciência. Não percebem que a Ciência precisa de condições para funcionar que não estão dadas no Brasil. Será que somos tão irresponsáveis, será que as pessoas são tão pouco maduras, infantis que não percebem que é preciso garantir a manutenção de sua política de C&T? Isso é a garantia do futuro e mais direto assim é impossível, é o que agrega valor à produção, é o que nos dá segurança, é o que nos permite competir.

Leia a primeira parte dessa entrevista. 

NC: O senhor veio para Natal e fincou raiz, aqui tem mulher e filho, já se considera natalense?

SR: Eu sou. Mais do que qualquer outra coisa. Adoro Natal, não quero nem me mudar de onde eu moro, eu quero ficar aqui. Toda vez que eu viajo, eu quero viajar menos porque cada vez mais eu sinto que bom mesmo é ficar aqui.

NC: Mas o senhor é sempre muito convidado a sair para ministrar palestras, participar de bancas.

SR: Sim, eu sou sempre convidado para um monte de coisas, mas eu estou aprendendo a não ir, a dizer que não dá. Outro dia um amigão meu me chamou para ir ao Japão, só que por causa de outros compromissos eu tinha que ir num dia, ficar lá um dia e voltar. Se eu tivesse 20 anos eu ia na hora. Eu nunca fui ao Japão e tenho vontade de ir, eu quero ficar pelo menos uma semana, quero conhecer direito. A questão é que aqui hoje, no nosso Instituto tem muito mais coisas para serem feitas do que há cinco ou dez anos, então quanto mais tempo eu puder ficar aqui com meu grupo e com meus alunos, melhor para o meu grupo, para os meus alunos, melhor para a gente. Tem uma época da sua carreira que é muito importante viajar para o seu trabalho ser conhecido, mas cada vez que você está dando uma palestra, menos tempo você está investindo em uma coisa nova, vendo um resultado novo, escrevendo um artigo novo.

NC: O senhor está onde queria estar quando fazia o Doutorado ou o Pós-Doc?

De jeito nenhum. Eu sai do plano de voo há muito tempo, eu estou em outro lugar. O processo aqui foi muito atribulado. Mas agora isso é menos importante para mim porque aqui a gente tem condições de fazer coisas mais interessantes e divertidas, coisas novas. Hoje eu tenho uma pesquisa em seres humanos, com Psicologia e que eu nem sonhava e que é baratíssima. Depois da cisão (entre o grupo de Sidarta Ribeiro e Miguel Nicolelis), a gente passou muito tempo sem recursos nenhum, então eu tive que mudar o eixo dos meus interesses. Acho que o fundamental é vocês estar confortável onde está, com as escolhas feitas. O que eu estou fazendo aqui é importante para mim e certamente é importante para o entorno.

NC: Quando houve a cisão, houve sofrimento porque o futuro não ia ser mais o planejado?

SR: Não. Quando houve a cisão isso já estava bem claro. Eu sofri muito quando cheguei em 2005/2006, eu sabia que estava entrando num período que ia levar muitos anos até eu conseguir publicar de novo como vinha publicando. Só não sabia que ia demorar tanto… Então foi duro porque eu vim sozinho, eu ficava no prédio sozinho, escrevendo artigo e a única coisa que tinha no início era o meu computador. Eu estava longe da Universidade, não conhecia quase ninguém, eu estava muito isolado. Era um contraste muito grande sair da Rockfeller, da Duke para uma casa alugada nas cercanias, entre os motéis da Candelária, o jegue ali fora, estrada de terra, favela do lado. O que eu fiz? Peguei meu berimbau e fui para a favela. Fui dar aula de Capoeira para aquelas crianças, me pareceu a coisa mais real. Se eu ficasse sofrendo porque eu não podia fazer o experimento que eu fazia nos Estados Unidos, eu estaria ferrado. Foi dando aula de capoeira na favela que eu conheci minha mulher, ela veio se associar a esse trabalho porque ela é médica, estava em formação na época. A gente começou a dar aula de Capoeira para aquelas crianças e através da Capoeira trazer eles para o Instituto, pra começar a dar aula de Português, Inglês, Matemática, computador, Música. Em 2006, a gente fez um programa para que toda tarde os meninos ficassem no Instituto.

NC: Isso tem 10 anos. O senhor sabe onde estão esses meninos?

SR: A maioria eu perdi de vista. Apenas uma aluna da segunda turma está comigo na Capoeira. A favela foi removida.

NC: Conseguiu trazer alguém para a Ciência?

SR: Não posso dizer que trouxemos da Capoeira para a Ciência, mas em 2008 a gente começou a ter alunos de ensino médio frequentando o Instituto, que hoje estão no Doutorado aqui no Instituto, inclusive uma no meu Laboratório.

NC: Quando veio para Natal, o senhor já conhecia a Capoeira?

SR: Eu tentei fazer Capoeira em Brasília e não deu, eu achei que eu estava velho, na graduação, vinte e poucos anos. Quando eu estava no Doutorado, em Nova York, com 28 comecei. Meu mestre Caxias também foi importante na minha formação de outra maneira. Ele dá aula em Abu-Dabi, atualmente. A Capoeira é uma coisa muito importante para sobreviver.

NC: Em sua casa, há conversa sobre Ciência?

SR: Só tem. Meu filho não aguenta porque a gente fala de Ciência sem parar, a gente tem se policiado para não fazer isso, mas é uma característica de quem faz Ciência. A gente está tentando juntar dois estudos que estão convergindo e a gente está muito emocionado porque as coisas estão batendo. A gente está em contato o tempo todo, manda e-mail, liga, é uma febre e é isso que é legal.

NC: O que lhe dá mais prazer, dar aula ou a bancada?

SR: Se eu tivesse que escolher uma coisa ou outra, eu escolheria pesquisa. Mas eu também gosto muito de dar aula. Quando vim para o Brasil, eu achava que seria muito difícil me acostumar a dar aula porque a pesquisa consome todo o tempo que se tem, mas a partir de 2008, quando me tornei professor da UFRN e passei a dar aula todos os semestres na graduação e na pós-graduação, descobri que dar aula é divertido, que o professor aprende muito dando aula, algumas perguntas feitas pelos alunos em sala de aula, às vezes viram pergunta de pesquisa. Dar aula não é problema, é contribuir para os alunos pensarem de maneira mais livre e isso é muito gratificante.

NC: O que o seu orientador fez com você sobre a conversa diária, o senhor consegue fazer com seus orientandos?

SR: Certamente não. Com nenhum deles, uns mais outros menos. Quando eu cheguei no Brasil, eu cometi o grande equívoco que quase todo mundo comete, quando está numa situação semelhante, eu peguei 25 alunos , alunos demais. Eu tinha muitas ideia na cabeça e achei que era uma boa ideia, mas é um erro. Hoje eu tenho sete, mas o bom mesmo é você ter dois. Tenho tentando trabalhar com um grupo menor para eu poder ver as pessoas e saber o que elas estão fazendo. Não é como foi meu orientador que era todo dia, mas também não pode ser uma vez por semestre. Uma reunião semanal é importante. É claro que à medida que a pessoa vai se desenvolvendo, cada vez ela fica mais autônoma e precisa cada vez menos de você, mas por outro lado, ninguém faz Ciência sozinho.

NC: Há uma crítica à exigência de publicação afirmando que ela gera uma exaustão …

SR: Eu acho que é preciso mudar o tipo de exigência. O que deveria ser é que a gente estivesse sempre orientado pelo que é mais importante, mas isso é muito difícil de aferir. Fator de impacto é uma coisa cheia de distorções, o paper pode ter alto fator de impacto e não ser relevante, e pode ser relevante e não ter impacto; então tem que medir o impacto do artigo ou da revista e o do artigo é melhor do que o a revista, mas se tivesse que escolher uma métrica, hoje eu escolheria essa. É importante que a gente tenha as mesmas medidas que o primeiro mundo. Não se preocupar com isso e criar um sistema artificial é complicado. O Qualis melhorou, reflete melhor o gradiente de fator de impacto, mas só um pouquinho. Eu quero que meu grupo faça artigos que sejam avanços que interessem a muita gente no mundo para isso eu tenho que ter calma, não dá para publicar toda hora. Não dá para fazer dez papers excelentes por ano. Você tem que pensar na qualidade primeiro.

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