Aquecimento global pode aniquilar recifes de coral no Brasil e no mundo Meio Ambiente

quinta-feira, 9 setembro 2021
Recife de Siderastrea stellata com corais branqueados no litoral do RN em 2020. Foto: Natalia Roos/LECOM-UFRN.

Estudos traçam um cenário preocupante para a biodiversidade recifal nas próximas décadas, com possível perda de espécies e mudanças ecossistêmicas profundas

O agravamento do aquecimento global tem implicações trágicas para os recifes de coral no Brasil e no mundo. Mesmo que a humanidade, por meio de um esforço coletivo de transformações sociais, políticas e econômicas sem precedentes, consiga segurar o aquecimento em 2 graus Celsius (ºC) até o final deste século — como objetiva o Acordo de Paris —, as mudanças climáticas e oceânicas causadas por esse aumento de temperatura ainda terão potencial para exterminar quase 100% dos recifes de coral de águas tropicais existentes no oceano, segundo pesquisadores. Em outras palavras: os recifes de coral, como os conhecemos hoje, podem deixar de existir como ecossistemas funcionais no planeta Terra já nas próximas décadas, com consequências gravíssimas para a biodiversidade marinha e para os milhões de pessoas ao redor do mundo que dependem dela para a sua sobrevivência.

Para os cientistas que trabalham com o tema, isso não é novidade; já faz alguns anos que pesquisadores vêm alertando sobre a vulnerabilidade dos recifes de coral às mudanças climáticas, sobre o aumento dos eventos de branqueamento (quando os corais ficam brancos, em função da elevação da temperatura da água) e sobre o risco de um colapso generalizado desses ecossistemas ao redor do mundo, se a tendência atual de aquecimento global não for rapidamente revertida. Uma série de estudos e relatórios publicados recentemente, porém, torna esse alerta mais claro, detalhado e urgente do que nunca.

O sexto Relatório de Análise (AR6) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC), divulgado no início deste mês, informa que a temperatura média de superfície da Terra já aumentou 1,1 ºC desde o início da era industrial, em função de atividades humanas, e é muito provável que esse aumento ultrapasse 2 ºC já nos próximos 20 a 40 anos, se as coisas seguirem como estão. A possibilidade de frear o aquecimento em 1,5 ºC é pequena, mas ainda existe, dependendo de reduções drásticas e imediatas nas emissões de gases de efeito estufa oriundas de atividades humanas para a atmosfera.

Recife de corais em Raja Ampat, Indonésia – Foto: Herton Escobar

“Dois graus de aquecimento, para os recifes de coral, é genocídio. Você entra num estado de stress térmico constante; e aí a mortalidade vai aumentar expressivamente. Não tem coral que aguente”, diz Miguel Mies.

Meio grau a mais no termômetro, neste caso, representa uma diferença enorme: com 2 ºC de aquecimento, cerca de 99% dos recifes de corais de águas quentes (tropicais) do mundo deverão desaparecer, comparado a 70% a 90%, no cenário de 1,5 ºC, segundo um relatório especial do IPCC, publicado em 2018. “Dois graus de aquecimento, para os recifes de coral, é genocídio”, resume o oceanógrafo Miguel Mies, pesquisador associado do Instituto de Oceanografia da USP (IO) e coordenador de pesquisas do Projeto Coral Vivo. Nesse cenário, eventos globais de branqueamento em massa de corais, que até recentemente costumavam ser esporádicos, passarão a ocorrer todos os anos a partir de 2045, segundo projeções de um relatório especial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), publicado em novembro de 2021. “Você entra num estado de stress térmico constante; e aí a mortalidade vai aumentar expressivamente. Não tem coral que aguente.”

É um processo em andamento. Estudos sugerem que metade da cobertura de corais do planeta já desapareceu nos últimos 30 anos.

“Agora, mais do que nunca, os ecossistemas de recifes de coral são uma prioridade ambiental global, exigindo atenção imediata, dadas as ameaças do desenvolvimento insustentável e das mudanças climáticas”, diz um relatório da Sociedade Internacional de Recifes de Corais (ICRS), divulgado em julho, com o objetivo de subsidiar tecnicamente as próximas discussões sobre o tema no âmbito das Nações Unidas. “O próximo ano e a próxima década oferecem, provavelmente, a última chance para que entidades internacionais, nacionais, regionais e locais trabalhem de forma sinérgica para mudar a trajetória dos recifes de coral de ‘rumo ao colapso mundial’ para ‘caminhando para uma recuperação lenta, mas constante’.”

Um relatório conjunto, divulgado em junho pelo IPCC e pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), também aponta os recifes de coral como um dos ecossistemas mais ameaçados do planeta, cuja proteção é prioritária tanto para preservação do clima quanto da biodiversidade global.

Veja mais em https://jornal.usp.br/ciencias/aquecimento-global-pode-aniquilar-recifes-de-coral-no-brasil-e-no-mundo/

Fonte: Jornal da USP

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