“CT&I tem que ser uma política de Estado” Políticas de C&T

quinta-feira, 8 dezembro 2016

Francilene Garcia, presidente do Consecti, fala da importância dos estados para o avanço da ciência brasileira

Francilene Garcia é Secretária Executiva da Ciência e Tecnologia do estado e presidente do Consecti (Conselho Nacional das Secretarias Estaduais de Ciência, Tecnologia e Inovação). Por esta função é membro do Conselho Nacional de Ciência & Tecnologia. Acompanhe a entrevista dada ao Nossa Ciência.

NC: Qual é o papel dos estados para a C&T do país?

FG: A pasta CT&I é muito recente no Brasil e inovação é ainda mais recente. O MCTIC tem pouco menos de três décadas, da mesma forma, há certo espelhamento nos estados e municípios. Havia de ter, a exemplo da União, alguém nos estados que pudesse articular na compreensão do que aquele estado tem em termos de potencial e de fragilidade. Além disso, depois da Lei de Inovação, em 2004, o modelo de fomento e a pesquisa e a inovação no país acabou sendo descentralizado, o que tornou necessária a presença dos orçamentos dos tesouros estaduais para fechar a ponta dos investimentos e casar esses recursos com os federais e até de outras fontes, como o capital de risco das fontes de investimento privada. O que começou a sensibilizar os governantes para a importância dessas pastas (de C&T) foi a necessidade de se ter nos estados e não só na União alguém que fizesse uma articulação das potencialidades daqueles estado vis-à-vis a base de universidades instaladas, vis-à-vis a base empresarial instalada, olhando os investimentos em CT&I como mola propulsora do desenvolvimento econômico social.

NC: Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, INCTs recentemente aprovados podem ser um exemplo …

FG: O CNPq, o Consecti e o Confap (Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa) lançaram 101 INTCs. Nós estamos falando de investimento da ordem de R$ 640 milhões, dos quais metade vem dos estados. Isso dá a magnitude da importância da participação dos orçamentos estaduais no fomento da C&T brasileira. Hoje, os estados são parceiros da União em todas as instâncias, com todas as agências. A preocupação com o futuro entrou nos orçamentos estaduais, porque se a gente não entender que a única alternativa é investir em CT&I e ter uma educação de qualidade, a gente vai ficar sempre batendo a cabeça na parede. É importante citar também a justa distribuição territorial-geográfica desses INCTs no Brasil. Antes, existia uma concentração muito grande nas regiões sul e sudeste, mas isso está mudando. A Paraíba, por exemplo, recebe seu primeiro INCT agora.

NC: Não ter uma secretaria estadual com esse nome, significa uma menor importância que a CT&I goza nesses estados?

FG: Sim. Nesses estados dentre as prioridades, C&T é algo que está na ordem inferior, eles estão marcando passo e atrasando ou retardando o seu próprio desenvolvimento. Alguns estados não percebem a necessidade de ter um organismo interno que pense diariamente sob a perspectiva do século XXI, dos novos desafios, do unir o conhecimento gerado nas universidades ao que tem um impacto social maior. Nossa base empresarial muitas vezes tem um baixo poder de competitividade porque não consegue inovar. Então, se não houver um ente nos estados que pense junto com as políticas federais como é que isso vai avançar? Mas é importante dizer que alguns estados não têm secretarias com essa nomenclatura, mas têm uma fundação de amparo à pesquisa (FAP). Hoje a gente só tem dois estados da Federação que não tem uma FAP. Isso é interessante em termo de mudanças de status, porque se a gente comparar com 10 ou 15 anos atrás, a realidade era bem pior. CT&I tem que ser uma política de Estado.

NC: Os recursos aplicados nesse setor têm sido minimamente suficientes?

FG: Não. Absolutamente não são suficientes. Nós estamos avançando, mas esses avanços não são suficientes. Para a gente se igualar, não digo nem às primeiras potências, mas a países como a Finlândia, Coreia do Sul ou Dinamarca, é preciso que os investimentos em CT&I cheguem a 2% do PIB brasileiro. Hoje temos menos de 1% do PIB investido. Esse percentual é defendido por praticamente todas as entidades protagonistas naquilo que é construir uma Ciência brasileira que tenha repercussão importante no crescimento do país. Elas sabem que é o mínimo para se ter uma ciência que se sustente, que tenha condição de se renovar e que traga a devida resposta que a sociedade brasileira precisa.

NC: Estamos a caminho disto?

FG: A nossa ciência já foi muito mais forte do que nos dias atuais. O maior exemplo talvez seja o que a gente investiu na área da agroindústria, todo o serviço que a Embrapa e os inúmeros pesquisadores envolvidos prestaram para que a gente tivesse um país que não só tem uma grande quantidade de áreas agricultáveis, mas que tem uma tecnologia importante para várias áreas desse setor. Só para citar outro exemplo, o conhecimento sobre as doenças tropicais, que tem afetado a população brasileira e do hemisfério sul, tem uma quantidade imensa de contribuições de cientistas brasileiros. As empresas inovadoras que surgiram nos últimos 15 anos no Brasil, com patamar de serem médias e grandes em faturamento, são aquelas que tiveram o privilégio de terem contado com esse conhecimento gerado pela Ciência brasileira e souberam aproveitar isso para gerar grandes inovações em várias áreas. Mas isso ainda é muito pouco para o tamanho do nosso país e para o número de desafios que a gente tem.

NC: A indústria brasileira critica a academia, afirmando que esta está encastelada, mas aquela também não quer arriscar, sabendo-se que o risco é inerente à atividade da pesquisa, como é em todo grande negócio. Essa é também a sua visão dessa relação?

FG: Com certeza. Até para sobreviver no mercado global, a indústria brasileira tem que se reinventar. É claro que há exceções, temos iniciativas hoje no Brasil que mostram essa capacidade de reinvenção. Tem dois exemplos: a Embrapii, que é uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (atual MCTIC), foi uma alavanca do governo federal baseado em modelos como dos Fraunhofer (institutos de pesquisa na Alemanha) e outros que existem na Europa de incentivar a indústria a investir em inovação, dentro de sua área de atividade. A Emprapii credenciou um conjunto de unidades – nós temos um aqui na Paraíba na área de software e automação. O modelo funciona basicamente assim: um terço do investimento naquele custeio da inovação vem do governo federal, via Embrapii e dois terços da indústria. Quem sabe esse não será o caminho do ponto de vista do segmento público que vai facilitar o repensar da indústria daquilo que é prioridade absoluta, para ela rever o seu modelo de atuação e investir em inovação. Outro modelo para não citar só uma iniciativa pública, é o modelo dos institutos Senai de inovação. A indústria brasileira e a própria governança do sistema público de ensino no âmbito da educação tecnológica percebeu, não muito tardiamente, mas depois de muito tempo que a educação tecnologia é fundamental para um país como o nosso. Os institutos Senai de inovação (ISI) também baseados no modelo alemão dos Fraunhofer e outros modelos usados na Europa, têm atuado na direção de olhar para essas cadeias produtivas e levar até elas pessoal qualificado em áreas inovadoras.

NC: Então, a inovação seria a resposta?

FG: A grande revolução que a gente está passando hoje é a manufatura 4D. Daqui a pouco vamos ter centenas de milhares de fábricas que vão funcionar com funcionários apertando um botão. Se a gente não redirecionar essa mão-de-obra que hoje está na manufatura não totalmente automatizada, como é que vai ser? É preciso que a gente descubra novas formações dentro do sistema de país que a gente tem e conectado com o mundo. Os ISI dentro da Confederação Nacional da Indústria tem dado uma boa contribuição. Mas a nossa base empresarial ainda precisa ser bastante remexida para que ela compreenda esse diálogo com os entes acadêmicos, que estão menos intramuros do que já foram, e que isso aconteça de maneira sistemática. Uma pesquisa que o CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) fez em 2010 e saiu uma atualização recente, o percentual de doutores formados no Brasil operando em empresas era menos de 10%, ou seja a maioria dos doutores que o Brasil tem está ficando nas universidades, em alguns laboratórios de P&D, institutos etc. Alguma coisa está errada aí. É necessário refazer.

NC: Mas, qual a estratégia para mudar esse quadro?

FG: Uma coisa no eixo do Marco legal está acontecendo, a nova lei de Inovação que foi sancionada em janeiro pela presidente Dilma, que é a 13.243 ainda em processo de regulamentação, favorece uma maior presença desses pesquisadores seniors na empresa, sem que eles sejam punidos na sua carreira ou tolhidos de ter uma relação direta com a iniciativa privada, mas é preciso que a iniciativa privada abra a porta para receber esses pesquisadores. Nos últimos 10 anos teve um investimento muito grande nas infraestruturas de laboratórios de P&D em várias áreas. Esses laboratórios precisam também estar à disposição dessa indústria, que precisa se renovar, se reinventar, o novo marco legal permite que isso aconteça. E voltando para o lado acadêmico, os pesquisadores vão ter que se acostumar a ver dentro dos seus laboratórios não apenas os seus estudantes de graduação e pós-graduação, mas também profissionais técnicos que atuam nas empresas, dialogando diretamente e usando essa infraestrutura. Não estou falando de qualquer infraestrutura, estou falando daquela que tem um custo altíssimo para ser adquirida, tem uma necessidade de uma manutenção qualificada e isso tem que ser compartilhado pela base da ciência e pela base da indústria! O Marco legal trouxe uma das primeiras janelas para que essa mudança de cultura aconteça, mas ele não é suficiente, a gente precisa de fomento e esse recurso não dá mais para crer que venha só da iniciativa pública. A indústria também vai ter que começar a ter recurso para investir em inovação, do mesmo jeito que ela monta seu plano estratégico de investimentos para contração de pessoas.

NC: Isso está no horizonte?

FG: A pesquisa do IBGE indica que as empresas que investem em inovação, apesar da região nordeste praticamente ser escanteada e não ter uma base significativa nessa área, em termos de Brasil, essas curvas estão crescendo e a razão maior é a globalização. Se a planta de calçados não investir em tecnologia, em algum momento vai ficar ociosa. Do jeito que eu falo de uma planta de calçado, eu posso falar também de uma empresa de fármacos. Uma indústria que não esteja acompanhando os avanços da manufatura aditiva, vai ficar em algum momentos sem condições de competir. Eu acho que a própria globalização tem dado recados que lentamente estão sendo recebidos, mas as coisas começam a se mover. A média e a grande empresa preferem receber a inovação sem riscos, do que com riscos. Uma coisa que é intrínseca ao fato de se inovar é correr risco. As empresas chamadas startups são diferenciadas porque têm a dinâmica de estarem tentando alguma coisa mais arriscada que outra não tenta. Se der certo, elas vão ser praticamente únicas naquela área que atuam.

NC: E saber que o risco é calculado, não é um salto no escuro…

FG: É por isso que o marco legal ajuda, porque ele cria mecanismos como esse da Embrapii. Quando você tem um risco a correr e um terço alguém assume por você, você está correndo um risco menor. O empresário brasileiro, sobretudo o de uma base mais tradicional, precisa se reciclar nessa questão do risco. Dois exemplos que a gente cita com frequência em relação à cultura empreendedora nos Estados Unidos, é, primeiro, a base geradora de conhecimento americana recebe recursos do tesouro americano para investir em áreas que o governo americano considera como prioritárias. O pesquisador americano em geral atende a uma demanda. A nossa ciência brasileira por mais que a gente tenha excelentes exemplos de impacto importante, mas ela tem uma cultura de ser mais ofertista, não está muito alinhada às demandas estratégicas do país. É preciso que haja uma política de estado que permanentemente lembre que prioridades são essas, independente de se manter o fomento à pesquisa básica em várias áreas. Isso os americanos fazem muito bem. Outra coisa que a gente vê lá também e tem relação com esse tema do risco é o capital privado investindo em inovação, sendo colocado à disposição do investimento em inovação. No Brasil tem uma associação chamada ABVCAP (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital) que tem em torno de 100 fundos de investidores. Esses fundos investidores buscam exatamente essas oportunidades, inovações tecnológicas que vão ter retorno e para isso os fundos chegam junto para acelerar o desenvolvimento do produto e fazê-lo chegar mais rápido ao mercado e para isso se tornam sócios. Temos aquela história da empresa que não quer sócios investidores porque tem aquilo de dizer eu tenho que me manter dono de 100% do negócio. A gente precisa criar uma cultura do capital empreendedor aqui porque ele dialoga muito bem com o risco inerente a uma atividade inovadora. A Finep começou a fazer uma coisa interessante recentemente, que ela chama de bônus tecnológico , ela começou a investir com cotas de participação em algumas empresas brasileiras inovadoras. Isso é uma coisa nova que o Marco Legal atual passou a permitir, quiçá se a gente já tivesse isso numa escala maior em termos de país. Vamos falar em termos de região nordeste. Quando o BNB (Banco do Nordeste) tem essa cultura empreendedora? Imagine o que é bater na porta no BNB e chamar ele para ser sócio de um empreendimento que faça bioprospecção no bioma da Caatinga olhando para uma nova cadeia na área de cosméticos, na área de fitoterápicos.

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