Estudo inédito investiga microbioma intestinal de crianças doentes Saúde

terça-feira, 30 julho 2019

Pesquisa realizada pela UFAL e universidades da Inglaterra e da França é publicada em revista internacional

Um projeto inédito que envolve o estudo da flora intestinal de crianças criticamente doentes, e tem como objetivo a obtenção de um painel com o perfil metabólico dos biofluidos (fezes, urina e sangue) desses pacientes, utilizando a ressonância como ferramenta. E com os dados obtidos, os pesquisadores esperam poder direcionar os pacientes a um tratamento mais adequado, incluindo o uso de probióticos e alimentação personalizada.

Com o título Análise multicompartimental de metabolismo bacteriano e humano identificam disbiose intestinal na criança criticamente doente, o estudo é uma parceria entre a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade de Cambridge, Imperial College London, Universidade de Reading, Wellcome Sanger Institute, University College London (todos da Inglaterra) e Hospices Civils de Lyon (da França).

A pesquisa é coordenada pela professora Nazima Pathan, da Universidade de Cambridge, e pela professora Anisha Wijeyesekera, da Universidade de Reading. Em Alagoas, a pesquisa está sob a responsabilidade do servidor da UFAL e doutor em Química, Adilson Sabino. O trabalho, explica o pesquisador, “objetiva a obtenção de um painel com o perfil metabólico em multicompartimento, por meio das fezes, urina e sangue desses pacientes, utilizando técnicas de ressonância magnética nuclear e espectrometria de massas como ferramenta, pois as mesmas permitem a detecção simultânea de ambos metabólitos humanos e microbianos, além de integrar esses dados com o perfil bacteriano, microbioma intestinal, dos mesmos pacientes”.

Adilson Sabino com a coordenadora do projeto, professora Nazima Pathan, do Departamento de Pediatria da Universidade de Cambridge.

Publicação internacional

Parte dos resultados da pesquisa sobre microbioma intestinal de crianças criticamente doentes, realizada no Instituto de Química e Biotecnologia (IQB) da UFAL), foi publicada na revista Critical Care Medicine, periódico enquadrado na categoria A1, o estrato mais elevado na classificação pela Capes.

Ao falar sobre a importância da publicação, o pesquisador alagoano afirma que “é um artigo de alto fator de impacto sobre um estudo realizado pela UFAL, a única instituição brasileira no artigo, e várias instituições internacionais renomadas, a exemplo da Universidade de Cambridge e Imperial College London que estão entre as dez melhores universidade do mundo”, ressalta.

Ainda segundo Sabino, a publicação se torna também importante pelo fato de que “há pesquisas voltadas para o estudo do microbioma intestinal em pacientes em estado crítico apenas em adultos, mas em crianças essa é a primeira vez. E, nesse trabalho, nós relacionamos metabólitos humanos e microbianos, o perfil metabólico, com o perfil microbiano na criança criticamente doente”, argumenta. “Nós observamos a redução de ácido hipúrico, 4-cresol sulfato e ácido fórmico na urina, de ácidos graxos de cadeia curta nas fezes, e a redução de ácidos biliares secundários na criança criticamente doente, associados com a perda de bactérias comensais, tais como, Bacteroides, Faecalibacterium, Roseburia e Prevotella. Podendo, através da metodologia, monitorar a jornada do paciente criticamente doente”, relata.

Adilson Sabino no laboratório da UFAL. Foto: Arquivo pessoal.

Metodologia

O grupo faz análises por Ressonância Magnética Nuclear (RMN) e Cromatografia Líquida acoplada a Espectrometria de Massas (CL-EM) das amostras biológicas em série e dados clínicos abrangentes de um grupo de crianças criticamente doentes, dos hospitais de Cambridge e Imperial College; e saudáveis, pareados com a idade. É feita, também, uma análise para identificar a diversidade microbiana intestinal desses pacientes.

Sabino explica que “o dano ao revestimento da mucosa intestinal em doenças graves, leva à translocação de bactérias ou seus fragmentos para a circulação sanguínea, e pode contribuir para inflamação sistêmica, sepse, falência multiorgânica e até morte”. Por isso, a identificação precoce e a intervenção para o tratamento podem melhorar os resultados de doenças críticas.

Em Londres, Adilson realizou o preparo e extração dos metabólitos das amostras biológicas para análise. Ele afirma que o fato de ser operador do equipamento de RMN na UFAL fez com que os idealizadores o propusessem a participação no projeto. Por isso, aqui no Núcleo de Análise e Pesquisa em Ressonância Magnética Nuclear (NAPRMN), ele recebeu os dados de ressonância magnética e fez as análises estatísticas multivariadas para a identificação dos biomarcadores.

Adilson Sabino com a professora Anisha Wijeyesekera, do Departamento de Microbioma Humano da Universidade de Reading.

Impacto

Ao explicar o impacto social e acadêmico do estudo, o pesquisador esclarece que “o microbioma intestinal é um conjunto de microorganismos que habitam nosso intestino e exerce uma série de funções na nossa saúde, tais como absorção de vitaminas e nutrientes, ativação do sistema imunológico e produção de neurotransmissores”. Em outras palavras, ainda de acordo com Sabino, “nosso microbioma intestinal funciona como uma fábrica de metabólitos e eles influenciam a nossa saúde como o todo. Portanto, monitorar metabólitos microbianos será o futuro da medicina nutricional personalizada e este artigo propõe o uso da Ressonância Magnética Nuclear e Espectrometria de Massas para monitorar esses metabólitos”, justifica.

Segundo o pesquisador da UFAL, “a universidade que dispor de tais equipamentos poderá realizar estudos para o desenvolvimento de métodos para monitorar a saúde das pessoas em geral, como, por exemplo, os ácidos graxos de cadeia curta, produzidos no intestino, ativam nosso sistema imunológico e uma baixa concentração desses metabólitos indica um mal funcionamento do mesmo”, cita. “Outro exemplo de metabólito microbiano é o óxido de trimetilamina que é associado a aterosclerose, doença cardiovascular”, acrescenta o pesquisador.

O doutor em Química ainda acrescenta que, “além de monitorar metabólitos microbianos, pode-se estudar diferentes dietas com uso de probióticos e prebióticos, por meio da formulação de suplementos para modular o microbioma intestinal, visando a manutenção da saúde e prevenção de doenças”.

Para conferir a publicação, acesse aqui.

Fonte: Ascom da UFAL

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