Mais velhos e mais consumistas

quarta-feira, 21 outubro 2015

Pesquisa do Programa de Pós Graduação em Demografia da UFRN indica que redução do crescimento populacional não acarretará em menor consumo de energia

Nas discussões sobre a temática ambiental e as mudanças climáticas globais, há uma tendência a se afirmar que a pressão dos recursos naturais é quase exclusivamente resultante do crescimento populacional. Por esse entendimento, pode-se prever que haverá redução do consumo de energia elétrica se houver baixo crescimento ou mesmo estabilização do crescimento populacional brasileiro. Certo? Não. Foi o que concluiu o pesquisador Victor Hugo Dias Diógenes, orientado pelo professor Ricardo Ojima, na pesquisa que resultou na dissertação “Quando menos é mais: análise do impacto da transição demográfica no consumo de energia elétrica domiciliar do brasileiro”, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Demografia  (PPGDem), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

“Com as estimativas adotadas nesse trabalho, o acréscimo do consumo decorrente da transição demográfica é o equivalente ao consumo de energia elétrica residencial por três dias da cidade de São Paulo, por 24 dias do Rio Grande do Norte ou a 40 vezes o que foi economizado de energia no horário de verão 2012-2013″, propõe o estudo.

Um exemplo do aumento do consumo pode ser observado na casa de Jozelia Paulino de Oliveira, que mora no bairro da Cidade Satélite, em Natal/RN. Lá o consumo passou de 341 kilowatts por hora (kwh) em 2012, para 374 em 2015, embora o número de pessoas na casa tenha caído de cinco para três. A empregada, que trabalhava diariamente, passou a vir duas vezes por semana. A dona da casa não soube explicar o aumento.

Na família de Maricelia Vasconcelos de Melo, que mora com o marido num apartamento no bairro do Bessa, em João Pessoa/PB, aumento e redução do consumo se alternam, dependendo do período do ano. Em janeiro de 2014, o consumo foi de 465 kwh e no mesmo mês de 2015 passou para 695. Já a última conta de luz, referente ao consumo de setembro, apresentou uma significativa redução do consumo com 266 kwh. Quando questionada sobre o aumento de um janeiro para outro, a aposentada não soube informar, mas explicou que nesse período do ano o aumento ocorre devido à visita dos filhos, que moram em outros estados. “Normalmente é mais quente e temos mais duas pessoas em casa e ficam três (aparelhos) ar condicionados ligados diariamente”, justificou.

Envelhecimento

Durante a pesquisa, cuja apresentação ocorreu em fevereiro deste ano, foram analisados os efeitos do processo de envelhecimento populacional em curso no Brasil e suas consequências sobre o consumo energético domiciliar. Para Diógenes, que é professor do Departamento de Finanças e Contabilidade, da Universidade Federal da Paraíba, a dimensão demográfica é tradicionalmente tratada a partir dos números absolutos, ou seja “sob a luz do malthusianismo, cuja ideia principal era que a sobrevivência humana estava ameaçada pelo crescimento populacional devido a uma hipotética escassez de alimentos”. Na sua pesquisa, isso não ocorreu. Ele observou que o contingente populacional em si não seria suficiente para explicar mudanças ambientais e discute a necessidade de que outros fatores demográficos sejam considerados.

A projeção mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que a população brasileira já assume um patamar muito baixo de crescimento, chegando próximo à estabilidade, como aponta Ojima, que coordena o PPGDem. Os dados referem-se às projeções de que a população brasileira passe a decrescer antes do meio deste século, decorrente principalmente da acelerada queda das taxas de fecundidade total, que é o número médio de filhos por mulher. Nos últimos 40 anos esse número caiu, em média, de seis filhos por mulher para menos de dois, segundo o Censo Demográfico 1940/2010, disponível no site do IBGE.

Consumo

Será que quando a população brasileira passar a decrescer, os níveis de consumo agregado também serão reduzidos? Foi pergunta inicial da pesquisa, que identificou que a redução acelerada dos níveis de fecundidade no Brasil ocorre junto com alterações profundas na estrutura etária da população. Diminui-se rapidamente a participação de crianças e jovens e aumenta-se a proporção de pessoas adultas e idosas. O mesmo ocorre com o perfil dos domicílios, com a média de moradores por domicílio diminuindo e a média da idade destes moradores aumentando, pois há menos crianças nos arranjos domiciliares atuais. “Isso faz com que o padrão de consumo de um domicílio de hoje seja muito mais intensivo em consumo do que um padrão de domicílio mais jovem, mesmo com mais moradores”, afirma Ojima.

No estudo, Diógenes e Ojima utilizaram técnicas demográficas para estimar qual seria o consumo de energia elétrica dos domicílios brasileiros considerando apenas a variação da estrutura de idades dos domicílios. As questões foram formuladas para se entender se mesmo que a população não crescesse e o padrão de consumo de energia elétrica permanecesse o mesmo de hoje, a mudança na estrutura por idades da população seria suficiente para aumentar ou diminuir o consumo.

“Os resultados indicaram que o nível de consumo de energia elétrica domiciliar per capita deve aumentar quando os domicílios apresentarem uma estrutura por idade do chefe mais envelhecida, ou seja, um maior consumo de energia deve surgir como decorrência do envelhecimento da população”, garante Diógenes. Umas das conclusões da pesquisa é que os maiores níveis de consumo de energia elétrica por pessoa foram observados nas casas de pessoas mais velhas, tanto as que moram sozinhas ou casais sem filhos.

Seminário

A pesquisa será um dos trabalhos apresentados no Seminário  da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP), realizado pelo o Grupo de Trabalho sobre População, Espaço e Ambiente, nos dias 22 e 23 de outubro de 2015, no Rio de Janeiro. Realizado a cada dois anos, a edição 2015 terá como tema “População, Mudança Ambiental e Sustentabilidade: entre utopias e realidades”. Os professores Diógenes e Ojima apresentam o trabalho na sessão temática “Dados e métodos em análise espacial nos estudos de População, Espaço e Ambiente”.

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