Onde estão os fósseis em Pernambuco? Pesquisa

sexta-feira, 16 julho 2021
Foto: Diário de Pernambuco

Artigo científico publicado por pesquisadoras da UFPE descreve quais são e onde se encontram fósseis em solo pernambucano

Quais são e onde podem ser encontrados fósseis em solo pernambucano? Foi para responder a essa questão que a professora Alcina Magnólia Barreto, do Departamento de Geologia da UFPE (DGeo), e a pesquisadora Márcia Polck, da Agência Nacional de Mineração (ANM), publicaram o artigo científico “Fósseis de Pernambuco: desafios na busca de conexões para integrar sociedade a seus acervos”, elencando a ocorrência desses achados tão importantes para a paleontologia. O registro aponta que, dos 184 municípios do estado, pelo menos 64 deles têm ocorrência de fósseis, estes associados às bacias sedimentares de Jatobá, Araripe, Pernambuco e Paraíba, além das pequenas áreas de depósitos fluviais, lagoas e tanques com mamíferos de grande porte.

A publicação detalha que os municípios de Petrolândia e Tacaratu têm um vasto registro da Era Paleozoica e, como destaque da Era Mesozoica, aparece a Formação Romualdo da Bacia do Araripe, nas cidades de Exu, Araripina, Trindade e Ipubi. Do final do Cretáceo e o início do Paleógeno, a maior importância em termos de acervo fica no município de Paulista, na Bacia da Paraíba, com rochas e fósseis do limite Cretáceo/Paleógeno (K/Pg). Quanto ao Período Quaternário, destacam-se os depósitos de mamíferos de grande porte distribuídos nas zonas do Agreste e Sertão, com ocorrência em mais de 45 municípios.

O artigo também revela que os grupos fósseis mais importantes do estado são os da Era Paleozoica, ou Período Devoniano, por serem os mais antigos, contando algo em torno de 380 milhões de anos. Moluscos bivalves e braquiópodes, esses fósseis foram encontrados em Tacaratu e Petrolândia. Já os da Era Mesozoica são relevantes por serem raros; eles são fósseis do Jurássico do Brasil e foram encontrados no município de Ibimirim, sendo eles exemplares de peixes pulmonados – alguns com mais de dois metros de comprimento (celacantídeos) –, tubarões e crocodilos, que viviam em ambiente continental e lacustre.

Do final da Mesozoica e início da Cenozoica, quando 75% dos seres vivos se extinguiram, incluindo os dinossauros, o estudo elenca os fósseis do litoral de Pernambuco, do município de Paulista, constituindo-se em grandes moluscos amonides (com conchas), crocodilos marinhos e tartarugas, além de vários grupos de invertebrados marinhos. E, ainda da Era Cenozoica, considerados muito importante porque mais de 45 municípios do estado têm algum tipo de ocorrência desses fósseis, são os mamíferos de grande porte do Período Quaternário, da Época Pleistoceno, como as preguiças gigantes, os parentes de elefantes, os tatus gigantes e muitos outros.

A Coleção Científica Paleontológica do Departamento de Geologia da UFPE abriga mais de 10 mil números de entrada de macrofósseis de invertebrados, vertebrados, plantas e iconofósseis coletados e estudados por docentes e alunos ao longo dos 64 anos do curso de Geologia em Recife.

Acervo

A professora Alcina Barreto é a responsável pela Coleção Científica Paleontológica do Departamento de Geologia, que abriga mais de 10 mil números de entrada de macrofósseis de invertebrados, vertebrados, plantas e icnofósseis das eras Paleozoica, Mesozoica e Cenozoica, coletados e estudados por docentes e alunos, ao longo dos 64 anos do curso de Geologia na UFPE. O acervo do DGeo normalmente está aberto à visitação de estudantes e pesquisadores, porém encontra-se fechado devido à pandemia da Covid-19.

Segundo a docente, infelizmente não existem museus de História Natural em nenhum dos municípios citados no artigo, de forma que não há como um turista interessado em ver de perto os fósseis ir a esses locais para conhecê-los. “Os achados de Pernambuco encontram-se em vários locais do Brasil e, até mesmo, fora do país, como o dinossauro pernambucano que está em um museu na Alemanha”, atesta. O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, também tinha importante acervo antes de sofrer o incêndio, assim como o Museu de História Natural de Taubaté (SP), e o Museu do antigo Departamento Nacional de Produção Mineral, hoje Agência Nacional de Mineração (ANM), no Rio de Janeiro.

Nesse contexto, o trabalho das pesquisadoras endossa a importância de compartilhar essas informações, sobretudo, em função da possibilidade de esse patrimônio paleontológico revelar a pré-história da Terra, que, por sua vez, faz parte da própria história da humanidade. Com valor científico e didático, o fóssil é considerado um recurso natural, que também conta com valor cultural e, muitas vezes perde-se esse valor pela falta de museus de História Natural que mostrem os fósseis para as pessoas que são da região, em primeiro lugar, e para o público em geral. “É preciso contar essa história para a sociedade e para as gerações futuras porque, como entender e se situar no presente se não se conheceu o passado? O presente é o resultado da evolução da vida e dos antigos ecossistemas da Terra”, destaca Alcina.

Retorno

Segundo as pesquisadoras Alcina Barreto e Márcia Polck, para além da sua grande importância acadêmica e científica, o fóssil também pode ser convertido em capital econômico, trazendo retorno para a população com a construção de museus e para empresas que ajudem na sua extração e preservação. “Caso o fóssil, seja apropriado pela população, ele vai valorizar a identidade de um lugar e do povo, podendo se tornar um símbolo de uma cidade, o que muito ajudaria no estímulo à preservação do patrimônio para as gerações futuras e na continuidade das pesquisas científicas”, explicam.

Como exemplo de empresa mineradora que respeita os protocolos de preservação e extração dos fósseis ao mesmo tempo em que realiza as suas atividades de extração de minério, as pesquisadoras citam o Grupo Votorantim, que, desde 2018, mantém o Geossítio K-Pg Mina Poty na Pedreira Poty, no município de Paulista, em Pernambuco. “Esse geossítio representa a primeira área formalmente preservada no Brasil, com informações paleontológicas importantes, num espaço de uma mineração em atividade. É uma referência de sustentabilidade da atividade de mineração, a partir da conservação do patrimônio geológico/ paleontológico do nosso país”, destacam.

Ambas atestam que “além da convivência do geossítio com as atividades do empreendimento mínero-industrial, a sua existência eleva o patamar da discussão sobre sustentabilidade da produção mineral por representar acréscimos nos conceitos de responsabilidade e ética das empresas de mineração”. É também, segundo o artigo, “esta é uma iniciativa inédita e bem-sucedida no intuito da defesa do patrimônio geopaleontológico brasileiro e com um adicional importante, a reunião de entendimentos cooperativos da indústria, universidade e órgãos públicos”.

Fonte: Ascom da UFPE

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