Peixes contaminados, agrotóxicos e saúde mental Saúde

quinta-feira, 13 maio 2021
Em 2016, a atividade de piscicultura teve crescimento de cerca de 10%, número menor em relação a 2015, em que a produção no Paraná aumentou 22%.

Dois estudos do Programa de Pesquisa para o SUS, em Alagoas, analisaram peixes contaminados o que gerou interesse por agrotóxico e seu efeito na saúde

Saúde ambiental intimamente ligada às condições para a saúde humana: É essa a motivação de dois estudos realizados no Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS), com apoio do Governo de Alagoas através da sua Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapeal) e da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).

Um primeiro estudo, financiado pelo edital 2016-2018, observou que tilápias do Nilo apresentam problemas reprodutivos, de comportamento e comprometimento de órgãos vitais quando expostas a grandes concentrações de piriproxifeno.

O piriproxifeno é o veneno utilizado nas ações de saúde pública de combate ao Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, Chikungunya e Zyka. Quando usado de forma descuidada, ele pode ir para esgotos e contaminar rios. Se isso ocorrer de forma continuada, existe risco de acumulação no ambiente e bioacumulação em seres vivos, como os peixes.

O ponto esclarecedor da questão é que as águas do experimento controlado em laboratório pelos pesquisadores, mesmo com altos níveis de piriproxifeno, mantinham-se dentro dos padrões de controle de qualidade recomendados pela Organização Mundial da Saúde. Por outro lado, a substância se acumulou no corpo dos peixes e, a depender da concentração testada, causou morte e outros efeitos de intoxicação.

Não foi feito estudo clínico com seres humanos, mas os pesquisadores avaliam que os efeitos tóxicos nos peixes indicam potencial efeito tóxico nos seres humanos, guardadas as devidas proporções.

Observando isso, o grupo produziu vídeos e cartilhas, para os gestores da rede de saúde pública de Alagoas que participam do PPSUS, incluindo-se estado e municípios, para tornar a informação disponível para os próprios agentes que aplicam o piriproxifeno, e conscientizar sobre os riscos de uso excessivo. Mas as implicações científicas do que foi observado vão além.

O conceito de bioacumulação significa que, em longo prazo, o consumo de peixes contaminados pode causar efeito no corpo dos seres humanos. Embora seja improvável que ocorram quadros agudos, ou seja, de risco imediato, a preocupação real dos pesquisadores é com o risco de problemas de saúde crônicos, levando em conta possíveis condições reais de consumo de peixes contaminados ao longo de muito tempo.

O experimento foi feito fora do ambiente natural, com águas de laboratório e altas concentrações de piriproxifeno definidas especificamente para os testes. Porém, após a observação experimental, os pesquisadores resolveram investigar condições realmente existentes em Alagoas.

Um grupo multidisciplinar de 19 cientistas, que envolve as Universidades Federais de Alagoas (principalmente), Pernambuco e Paraíba e a Sesau AL, conseguiram aprovar mais um projeto no edital atual do PPSUS, e terão financiamento durante 24 meses para observar se o agrotóxico mais utilizado nas plantações de cana às margens do Rio Santo Antônio estão chegando à população, através da contaminação das águas e bioacumulação nos peixes consumidos.

Dessa vez, além dos peixes, habitantes da região também devem ser testados clinicamente, para detectar se existem ou não traços do agrotóxico hexazinona, e se a exposição continuada ao mesmo, a longo prazo, estaria ou não causando efeitos observáveis em atendimentos do SUS, especialmente em relação às condições de saúde  mental, como risco de depressão, suicídio e mal de Parkinson.

O projeto destaca que outros estudos já observaram que os sujeitos sociais mais atingidos pelos agrotóxicos são os trabalhadores rurais (assalariados) das empresas do agronegócio, os camponeses e os residentes nas comunidades rurais circunvizinhas aos perímetros irrigados de cultivos agrícolas.

Alunos de Iniciação Científica e mestrado no Laboratório de Aquicultura e Qualidade da Água – Laqua – Foto: Laqua Ufal.

Competências

O grupo de pesquisa chega a 20 pessoas, pois inclui a colaboração de gerente de saúde ambiental da Sesau AL que, de acordo com o projeto submetido à Fapeal, atuará na articulação das instituições públicas de saúde junto à pesquisa e à população, para na efetiva aplicação dos resultados ao SUS.

Ambos os estudos têm a coordenação do professor Elton Lima Santos, doutor em Zootecnia e pesquisador no Laboratório de Aquicultura do Centro de Engenharias e Ciências Agrárias (Laqua UFAL).

A equipe também inclui participantes graduados, especialistas, mestres ou doutores nas seguintes áreas: Fisioterapia, Veterinária, Enfermagem, Química, Biologia, Zootecnia, Educação, Saúde Mental, Engenharias Agrônoma, Química e de Pesca, Análises Químicas Industriais e Engenharia Sanitária Ambiental.

Dentre os resultados esperados, encontra-se o desenvolvimento de um biossensor para detecção de agrotóxicos na água e carne dos peixes.

Financiamento e Apoio

A edição atual do PPSUS apoia estudos e formação de profissionais para a saúde pública em Alagoas até 2023, através de 26 projetos.

O edital recebeu R$1 milhão do Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e da Fapeal, com R$500 mil reais de cada instituição, e do Ministério da Saúde que cedeu R$3 milhões através do Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde – Decit/SCTIE/MS. O PPSUS também conta com a parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

Fonte: Ascom da Fapeal

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