Pesquisa cria índice para avaliar ‘ciclabilidade’ das cidades Pesquisa

sexta-feira, 15 março 2019
Objetivo do estudo foi identificar se as cidades são “amigas” da bicicleta. Foto: Andre Moreira

Testado em Aracaju, modelo aponta nível ‘crítico’ nas condições de ciclovias e ciclofaixas da capital sergipana

Repensar a mobilidade urbana é um desafio que envolve vários aspectos sociais, como questões econômicas e ambientais para melhorar a qualidade de vida. Nessa discussão, uma alternativa que está sendo debatida é a presença da bicicleta no trânsito como uma opção de transporte diário. Porém, mesmo com um alto número de ciclistas, a ideia ainda não é tão disseminada.

Ao observar essas necessidades, o pesquisador José Waldson Costa de Andrade construiu o primeiro índice para avaliação da ciclabilidade em uma cidade, utilizando Aracaju como pontapé da pesquisa. A inquietação pessoal foi a grande motivação da sua tese. Em 2007, ele fundou a organização “Ciclo Urbano” para pesquisar a utilização de bicicletas e, desde então, participa de movimentos que debatem o tema.

O objetivo é identificar se as cidades são “amigas” da bicicleta e mostrar como um projeto bem estruturado é capaz de modificar a lógica individualista que pode ser percebida no espaço urbano. “A cidade mais ‘ciclável’ do mundo é uma cidade onde o trânsito seja compartilhado de forma equitativa e isso faz parte dos desafios da ciclabilidade. Existe uma dificuldade muito grande que é a infraestrutura e o que se vê é uma política de desincentivo à mobilidade”, diz José Waldson.

O pesquisador criou um índice para avaliar a “ciclabilidade” das cidades (Infográfico: Giordanna Belotti)

O trabalho levou em conta não só critérios qualitativos de ciclovia (como qualidade de piso e sinalização), mas também aspectos ambientais, técnicos e sociais. O fruto dos apontamentos foi a construção do Índice de Ciclabilidade com cinco categorias e 12 indicadores (veja infográfico).

O pesquisador aplicou utilizou o modelo em quatro ciclovias ou ciclofaixas de Aracaju: a ciclofaixa da avenida Augusto Franco (Rio de Janeiro) e as ciclovias das avenidas Tancredo Neves, Beira-Mar e Heráclito Rollemberg (veja no mapa). O resultado – em média ponderada – de 1,31, é considerado crítico e insatisfatório (veja infográfico).

Ciclovias e ciclofaixas de Aracaju analisadas na pesquisa (Mapa elaborado pelo pesquisador. Adaptação: Giordanna Belotti)

Segundo as conclusões do trabalho, o menor índice foi conferido à ciclofaixa da avenida Augusto Franco. “Esta infraestrutura apresenta vários indicadores insuficientes que devem ser considerados como prioridade na execução de projetos e programas de melhoria viária e de sinalização. Para reverter esta situação, ações simples e planejadas, sem altos investimentos, podem contribuir para uma melhor circulação e conforto para os usuários”, disserta José Waldson em sua pesquisa.

O índice, porém, não aumenta tanto quando analisada a melhor pontuação entre os trechos verificados na cidade, a da ciclovia da avenida Heráclito Rollemberg. “O que mostra que algumas necessidades de intervenção são comuns a todas as áreas de pesquisa, fato este que já é de conhecimento da população”, aponta ainda o trabalho do pesquisador.

Avaliação da ciclabilidade em Aracaju (Infográfico: Giordanna Belotti)

Construção da pesquisa

José Waldson começou a desenvolver sua pesquisa pelo Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema) da Universidade Federal de Sergipe (UFS) em 2015 para trabalhar com unidades de conservação, mas por não se identificar com o tema, resolveu mudar seu foco. Somente em 2016 ele decidiu realmente trabalhar com a questão das bicicletas em Aracaju.

“A construção do processo metodológico teve seus pilares na troca de saberes. Da minha parte o saber acadêmico, e da parte do Waldson o saber e a vivência na militância em movimentos ligados com a mobilidade urbana e também a experiência como usuário das ciclovias”, afirma a orientadora da dissertação, professora Laura Gomes.

Com o novo tema definido, a dissertação foi construída a partir da observação das cinco ciclovias mais utilizadas na cidade e a contagem de ciclistas foi um dado fundamental. Para fazer essa contagem, Waldson estipulou dias e horários específicos para cada ciclovia, de acordo com critérios da engenharia de tráfego.

José Waldson Costa de Andrade: “A cidade mais ‘ciclável’ do mundo é uma cidade onde o trânsito seja compartilhado de forma equitativa” (Foto: Schirlene Reis – Ascom/UFS)

“Não fazíamos contagens nem dia de segunda, nem de sexta, nem véspera de feriado. Nos outros dias, ficávamos de 6h até 21h de forma ininterrupta na ciclovia e todo ciclista que passava, a gente contava. Levamos em conta área de entrada e área de saída de cada um e traçamos características como horário, tipo de bicicleta e uso de capacete”, explica o autor do trabalho.

De acordo com a professora Laura, o trabalho traz uma sensação de ânimo para o campo acadêmico. “Cada pesquisa que realizamos, mesmo com dificuldades financeiras, é uma resposta da importância do nosso papel na pesquisa brasileira. Esperamos que de fato, nossos estudos sejam compreendidos pela sociedade e que venha a contribuir para a consolidação de uma sociedade mais justa e sustentável”, afirma.

Desafios e constatações

Apesar de já ter bastante vivência na área, José Waldson não pôde deixar de observar algumas surpresas no caminho. Segundo ele, a grande quantidade de mulheres pedalando foi algo inesperado que trouxe um lado positivo nos resultados obtidos. Porém, a falta de iniciativa do poder público em melhorar as condições para utilização das bicicletas ainda é algo grave que impede um bom desenvolvimento urbano.

“A gente luta tanto para que as pesquisas ultrapassem os muros da universidade, mas percebemos que o governo ainda não tem percepção de que deve colher essas informações que a academia está produzindo”, diz José Waldson.

Além disso, é preciso conscientização por parte de toda a população para que possa existir um bom compartilhamento do espaço público. No entanto, José Waldson avalia que, independente das dificuldades ainda existentes, a tese já é uma grande conquista.

“O peso científico tem muita importância para validar a pesquisa. Como o Ciclo Urbano trazia muita experiência prática, nós não tínhamos respaldo teórico para firmar o que acontece com Aracaju. Agora, a pesquisa nos proporcionou isso. Consegui atingir meu objetivo e fiquei muito satisfeito, mas me sinto agora muito desafiado a continuar. Isso aqui ainda é apenas uma parte do meu sonho”, afirma o pesquisador.

A dissertação pode ser baixada no Repositório Institucional da UFS.

 

Fonte: Ascom da UFS

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