Teste identifica vírus no mar Saúde

quinta-feira, 15 setembro 2016

Estudo da UFBA usa leite desnatado para detecção de agentes infecciosos em praias de Salvador

Pesquisadores do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Bahia (UFBA) estão trabalhando para implementar um método de baixo custo e simples de detecção de vírus entéricos em águas ambientais. Diferente das metodologias mais sofisticadas, o estudo baiano utiliza a técnica de floculação orgânica com leite desnatado com o intuito de validar, padronizar e aprimorar o método. Para isso, desde 2015, a equipe do professor Gúbio Soares vem colhendo amostras e monitorando as águas de algumas praias de Salvador, onde desaguam resíduos da rede de esgoto.

Os vírus entéricos humanos (rotavírus, norovírus e vírus da hepatite A) são importantes causas de diarreias e dores abdominais, enfermidades que podem ser veiculadas através da água. Esses patógenos, que são eliminados em grandes quantidades pelas fezes de indivíduos infectados, podem permanecer viáveis e infecciosos durante vários meses no ambiente. “Estamos fazendo um estudo de vírus em água do mar, principalmente, na cidade de Salvador, para demonstrar que a população está exposta aos esgotos não tratáveis. Nossa pesquisa compreende o subúrbio da capital baiana, onde a população é carente e vive de moluscos. Esses alimentos podem estar contaminados com vírus da hepatite A, norovírus e rotavírus”, explica Soares.

Periperi, Penha, Bogari, Pedra Furada, Roma, Ondina, Pituba, Boca do Rio, Corsário, Patamares e a foz do rio Lucaia ao lado da colônia de pescadores do Rio Vermelho foram os pontos de coleta escolhidos na orla de Salvador. Segundo o pesquisador, a ocorrência de vírus entéricos na água do mar das praias é um indício de diversos problemas: manutenção inadequada da rede de esgoto, ligações clandestinas do esgoto das residências à rede de escoamento pluvial ou contaminação provocada por embarcações que despejam seu esgoto inadequadamente nas proximidades da costa. “Tudo isso pode provocar futuros problemas de saúde para a população de Salvador”, detalha.

Metodologia

O professor Soares explica que amostras de água do mar (contendo 10 litros cada uma) foram coletadas em diversos pontos da orla de Salvador durante seis meses (10 pontos por mês), entre outubro de 2015 e abril de 2016, as quais também sofreram o procedimento de concentração de partículas virais. “RNA viral das amostras foi extraído para detecção por eletroforese de gel de poliacrilamida e pela realização de RT-PCR (uma reação da transcriptase reversa, seguida de reação em cadeia da polimerase) com posterior eletroforese de DNA amplificado em gel de agarose. O método de concentração de partículas virais por floculação orgânica com leite desnatado foi validado e modificações foram sugeridas para aumentar sua sensibilidade”, afirma.

Ainda de acordo com Soares, as técnicas mais sofisticadas e com maior precisão utilizam métodos de filtração, ultrafiltração e ultracentrifugação, que requerem equipamentos e materiais dispendiosos em procedimentos que envolvem várias etapas. “Até o momento, foi demonstrado que é viável o desenvolvimento de linhas de pesquisa de baixo custo para a análise de águas ambientais e residuais na região”, comemora.

Baixo risco

A rede de esgoto da cidade de Salvador, em sua grande maioria, tem seus dejetos eliminados no ambiente através de emissário submarino. Na costa das praias apenas desaguam resíduos da rede de escoamento pluvial, remanescente da antiga rede de esgoto do município. Apesar disso, o professor afirma que é muito difícil um banhista adquirir uma virose entérica através do banho de mar, mas alerta que podem ocorrer outras doenças. “A ocorrência desse tipo de vírus na água do mar das praias aponta para contaminação por dejetos de diversas formas, demonstrando que outros agentes patológicos possam estar presentes no ambiente e favorecendo a exposição da população para outros tipos de enfermidades”, pondera.

O projeto da UFBA tem como objetivo principal a padronização do método de detecção de vírus entéricos em águas ambientais, criando novos critérios para avaliação da qualidade da água bem como a detecção de sua contaminação por diversos agentes, buscando diminuir riscos de futuros surtos e novas propostas para o tratamento de águas residuais.

Recursos do PPSUS

A pesquisa desenvolvida no Laboratório de Virologia do Instituto de Ciências da Saúde da UFBA é financiada pelo Programa de Pesquisas para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde, do Ministério da Saúde que tem o objetivo de buscar soluções que possam ser incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Com doutorado em Virologia, o professor Soares conta em sua equipe com dois doutores, dois doutorandos e três estudantes de Iniciação Científica. Como algumas amostras tiveram resultado positivo para norovírus, ele explica que a coleta e os testes prosseguem. “Vamos continuar investigando as ocorrências de vírus entéricos na água do mar”, conclui.

Edna Ferreira

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