Zika pode ter ciclo silvestre no Brasil Pesquisa

sexta-feira, 2 novembro 2018

Pesquisadores descobriam o vírus em macacos o que sugere que a doença também tenha um ciclo em ambiente silvestre

O vírus da zika foi encontrado em carcaças de macacos nas cercanias de São José do Rio Preto (SP) e de Belo Horizonte. Esses macacos haviam sido mortos a tiros ou pauladas pelas populações locais, quando se suspeitou que pudessem estar acometidos por febre amarela. Não estavam, mas a infecção por zika fez com que adoecessem e se tornassem mais vulneráveis ao ataque humano.

“A descoberta indica que existe o potencial de um ciclo silvestre para a zika no Brasil – a exemplo do que ocorre com a febre amarela. Se o ciclo silvestre for confirmado, isso muda completamente a epidemiologia da zika, porque passa a existir um reservatório natural a partir do qual o vírus pode reinfectar muito mais frequentemente a população humana”, disse Maurício Lacerda Nogueira, coordenador do estudo, à Agência Fapesp. Professor na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), Nogueira é também presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

O vírus da zika já havia sido encontrado em macacos habituados à presença humana no Ceará. Mas agora é a primeira vez em que ele é claramente identificado no contexto da epidemia. Artigo a respeito, assinado por Nogueira e pesquisadores de diversas instituições, acaba de ser publicado na Scientific Reports, do grupo Nature.

“Durante a epidemia de febre amarela, percebemos que havia muitos macacos mortos – não pela febre amarela, mas pela ação das populações humanas, temerosas do contágio. Foram mortos a tiros, pauladas ou mordidos por cachorros. Quando saudáveis, esses primatas – principalmente saguis (Callithrix sp.) e micos (Sapajus sp.) – são muito difíceis de capturar. Pensamos então que, se estavam sendo mortos com facilidade, era porque poderiam estar doentes. Não com a febre amarela, que lhes é fatal, mas com alguma outra doença que, sem matar, os deixava mais fracos e vulneráveis”, disse Nogueira.

Ciclo forneceria ao vírus um reservatório natural, a partir do qual poderia reinfectar com maior frequência populações humanas. Estudo a respeito foi publicado por pesquisadores brasileiros na Scientific Reports

Evidências

Os pesquisadores analisaram carcaças dos animais e verificaram que estavam infectadas pelo zika, tanto em São José do Rio Preto como em Belo Horizonte. O sequenciamento completo mostrou que o vírus era muito parecido com aquele que estava infectando os humanos. Mais uma evidência foi o fato de que, nos locais onde foram encontradas as carcaças, os pesquisadores coletaram, na mesma semana, mosquitos infectados por zika.

“Para levar adiante o estudo, induzimos infecção experimental por zika em macacos vivos. E a inoculação dos vírus provocou viremia [presença de vírus no sangue]. Os macacos tiveram alteração de comportamento, confirmando nossa hipótese inicial de que a infecção os teria tornado mais suscetíveis a serem capturados e mortos”, disse Nogueira.

O estudo teve apoio da Fapesp por meio de um Projeto Temático coordenado por Nogueira e da Rede de Pesquisa sobre Zika Vírus em São Paulo (Rede Zika). A primeira autora do artigo, Ana Carolina Bernardes Terzian, da Famerp, é bolsista de pós-doutorado da Fapesp.

Participaram do trabalho pesquisadores da Famerp, da Universidade Federal de Minas Gerais, do Instituto Adolfo Lutz, da Universidade de São Paulo, da Universidade Estadual Paulista, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Dengue e da University of Texas Medical Branch (UTMB).

Ciclo da febre amarela

A infecção natural e experimental de macacos com zika indica que esses animais podem ser hospedeiros vertebrados na transmissão e circulação do vírus em ambientes tropicais urbanos. Mas o artigo agora publicado destaca que “mais estudos são necessários para entender o papel que eles podem desempenhar na manutenção do ciclo urbano do vírus zika e como eles podem ser um canal no estabelecimento de um ciclo de transmissão enzoótica [em animais não humanos] na América Latina tropical”.

“Como a febre amarela nos mostrou, doenças epizoóticas [que ocorrem ao mesmo tempo em vários animais de uma mesma área geográfica] serão sempre fonte de epidemias entre humanos, mesmo após um possível controle e erradicação do ciclo de transmissão urbana por meio do desenvolvimento de contramedidas bem-sucedidas (vacinas e antivirais, por exemplo). É um fator fundamental que deve ser levado em conta pelos responsáveis por políticas públicas e pelo setor de saúde, bem como por desenvolvedores de vacinas”, disse Nikos Vasilakis, professor no Centro de Doenças Tropicais da UTMB, e um dos autores principais do artigo agora publicado.

O vírus da zika apareceu originalmente em macacos na África. Esporadicamente, saía das florestas e infectava populações humanas. Quando se propagou da África para a Ásia, o vírus passou a circular somente entre humanos. E, aparentemente, manteve essa característica quando se instalou nas Américas – o que sugeria um ciclo semelhante ao do vírus da dengue.

Implicações

Mas a nova descoberta sugere uma outra epidemiologia possível, mais parecida com a da febre amarela. Se essa epidemiologia for confirmada, o combate à zika poderá ser muito mais árduo do que se supunha.

“Nossas observações terão implicações importantes na compreensão da ecologia e da transmissão de zika nas Américas. Embora este seja um dos primeiros passos no estabelecimento de um ciclo de transmissão entre primatas não humanos no Novo Mundo e mosquitos arbóreos, as implicações são enormes, pois é impossível erradicar esse ciclo de transmissão”, disse Vasilakis.

Vasilakis destacou a importância para o estudo do financiamento da Fapesp e dos National Institutes of Health (NIH), que “reconheceram cedo a importância do assunto”, apoiando um trabalho que também serve como exemplo da “longa e contínua colaboração entre os grupos da UTMB e da Famerp”.

O artigo Evidence of natural Zika vírus infection in neotropical non-human primates in Brazil (doi 10.1038/s41598-018-34423-6), de Ana Carolina B. Terzian, Nathalia Zini, Lívia Sacchetto, Rebeca Froes Rocha, Maisa Carla Pereira Parra, Juliana Lemos Del Sarto, Ana Carolina Fialho Dias, Felipe Coutinho, Jéssica Rayra, Rafael Alves da Silva, Vivian Vasconcelos Costa, Natália Coelho Couto de Azevedo Fernandes, Rodrigo Réssio, Josué Díaz-Delgado, Juliana Guerra, Mariana S. Cunha, José Luiz Catão-Dias , Cintia Bittar, Andréia Francesli Negri Reis, Izalco Nuremberg Penha dos Santos, Andréia Cristina Marascalchi Ferreira, Lilian Elisa Arão Antônio Cruz, Paula Rahal, Leila Ullmann, Camila Malossi, João Pessoa de Araújo Junior, Steven Widen, Izabela Maurício de Rezende, Érica Mello, Carolina Colombelli Pacca, Erna Geessien Kroon, Giliane Trindade, Betânia Drumond, Francisco Chiaravalloti-Neto, Nikos Vasilakis, Mauro M. Teixeira e Maurício Lacerda Nogueira.

Leia o artigo na Scientific Reports.

 

Fonte: Agência Fapesp

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