Ciência sem cordão umbilical

terça-feira, 19 setembro 2017

Nesta edição da coluna Ciência Nordestina, Helinando Oliveira conta como foi o início do primeiro mestrado da Univasf, que em agosto de 2017 completou 10 anos

O processo de transição da condição de aluno de doutorado a professor orientador pode ser comparado a um corte no cordão umbilical entre orientador e orientando, quando a independência do ex-estudante e sua entrada no mundo acadêmico representam uma etapa crítica para a perspectiva de sua atuação por toda a vida profissional.

Na maioria das vezes, esta transição se dá em um ambiente novo – Universidade e Departamentos distintos da formação do estudante e requer a adaptação do novo profissional aos colegas e a rotina.

O mês de agosto de 2017 marcou 10 anos do início do primeiro mestrado da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), criada em 2004.

A experiência para criação deste mestrado foi única e merece registro.

Éramos sete doutores recém-formados provenientes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), contratados junto ao primeiro grupo de docentes da instituição. Por ser uma Universidade nova não dispúnhamos de prédios, salas de aula e muito menos laboratórios de pesquisa. Todos sabíamos que a infraestrutura inexistente poderia afetar a competitividade dos curriculum de cada um e que a criação de um programa de pós-graduação significava uma ação primordial para seguirmos pela vida acadêmica. E a inexperiência foi sem dúvida um grande empecilho, contornado todavia pelo desejo de fazer ciência no sertão nordestino. Todos beiravam os 30 anos de idade e a vida profissional (aulas na graduação, comissões, coordenação de cursos e conselhos) era novidade para todos. E a postura mais elogiável daquele grupo foi a união e a capacidade de focar no que era mais relevante: orientar estudantes de Iniciação Científica (IC) e captar recursos nos diversos editais de pesquisa. Espaços para laboratórios simplesmente inexistiam mas mesmo assim ocupamos salas e puxadinhos (sem água e circulação de ar) para iniciar os experimentos sob condições precaríssimas.

E foi assim que começamos a orientar estudantes de IC e a publicar os primeiros artigos de forma independente. Após três anos de contratação, trabalhávamos todos em uma sala com pouco mais de 20 metros quadrados (teóricos e experimentais) na antiga Fundação Assistencial de Juazeiro (FACJU), em Juazeiro. E este desejo de fazer ciência nos levou a aprovar a proposta de mestrado em ciência dos materiais (éramos seis físicos e um químico) ainda em 2007, quando a Universidade assumiu o compromisso de construir o seu primeiro Instituto de Pesquisa, no novo campus de Juazeiro. Com isso, saímos das salas improvisadas e iniciamos o trabalho em uma estrutura adequada para a pesquisa em materiais (para conhecer o instituto de pesquisa em ciência dos materiais assista o vídeo).

Desde 2004 até os dias atuais, tem sido extremamente importante o apoio dos grandes grupos de pesquisa e parceiros da UFPE e USP, que permitiram com que chegássemos a uma condição muito boa de trabalho. O programa que hoje conta com 13 docentes em uma diversidade maior de áreas de atuação, contabiliza um total de 53 defesas e busca crescimento que o credencie a atingir o nível 4 na CAPES, habilitando-o a oferecer o curso de doutorado.

Este amadurecimento compulsório pelo qual fomos conduzidos a seguir deixou ensinamentos importantes para aqueles que estão saindo da condição de estudante de doutorado e desejam entrar na carreira acadêmica:

Fazer pesquisa e formar pessoas é um ato que requer empenho e dedicação total, sem que para isso exista retorno financeiro adicional. Contrariamente, não são raras as vezes em que se faz necessário usar do próprio salário para comprar insumos para o laboratório. Estabelecer a vitimização e culpar a instituição por falta de estrutura pode ser confortante em um primeiro momento. Todavia, a carreira de cada um depende exclusivamente da capacidade de fazer o máximo com o que se tem disponível. Em nosso caso, não tínhamos nada!

E este esforço vale a pena porque criar novas linhas de pesquisa e fazer o brilho da ciência surgir nos olhos dos jovens é algo mágico, um tratamento natural contra o adoecimento docente e as demais ameaças que nos atormentam no dia-a-dia. Por mais dificuldades que todo este processo represente, podemos afirmar que vale a pena. Não apenas por nós, mas essencialmente pelo futuro. Vida longa à pós-graduação no Brasil. Venceremos!

A coluna Ciência Nordestina de Helinando Oliveira é atualizada às terças-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag #CiênciaNordestina.

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Helinando Oliveira

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