Como saber se tem antibiótico na minha comida? Ciência Nordestina

terça-feira, 10 julho 2018

A indústria de alimentos pode ser a grande beneficiária de tecnologias capazes de identificar contaminantes reais e subprodutos

A incorporação de antibióticos em alimentos é um problema crescente, dado o uso indiscriminado destes materiais na produção animal. Isso faz com que traços de antibióticos estejam presentes nos derivados de alimentos. Outro agravante se refere à presença de compostos de difícil detecção ou agentes que tornem esta tarefa ainda mais árdua. Um exemplo didático se refere à penicilina, que pode ser modificada a ácido penicilóico pela ação da enzima beta-lactamase. Esta enzima provoca a hidrólise do anel beta-lactâmico da penicilina, removendo sua ação antibacteriana e induzindo resistência à própria penicilina.

Testes realizados na China em caixas de leite processadas industrialmente identificaram tipos específicos da enzima b-lactamase que havia sido incorporada ilicitamente ao leite para “apagar” vestígios do antibiótico penicilina G.

A incorporação de antibióticos em alimentos é um problema crescente

Desta forma, além da dificuldade em detectar o próprio antibiótico, a amostra de leite continha resíduos do ácido penicilóico e da b-lactamase, compostos nocivos à saúde humana, usados para “apagar” vestígios de contaminantes. Dada a tecnologia de ponta que vem sendo usada na adulteração de alimentos, faz-se necessário uma grande resposta relativa às técnicas de identificação de contaminantes.

As técnicas experimentais que são usadas para identificar traços de contaminantes em água e alimentos são normalmente complexas e exigem várias etapas de purificação dos compostos a serem testados. Isso torna o processo longo e caro.

O uso de técnicas alternativas e mais baixo custo para identificação de contaminantes (reais e subprodutos) é extremamente desejada pela indústria de alimentos.  Neste sentido, a técnica de espalhamento Raman intensificado pela superfície (do inglês SERS) representa uma importante alternativa às técnicas convencionais de monitoramento de contaminantes, uma vez que permite com o espalhamento de luz seja usado para identificar a “impressão digital” de compostos em baixíssima concentração.

Testes realizados na China em caixas de leite processadas identificaram “apagamento” de vestígios do antibiótico penicilina G

A amplificação do sinal destes compostos é favorecida pelo engrandecimento na intensidade da luz espalhada por nanopartículas metálicas (ouro e prata) dispostas na proximidade da molécula de interesse. Desta forma, o grau de agregação das nanopartículas é parâmetro crítico para a determinação do sinal da molécula de interesse, que deve estar muito próxima à superfície das nanopartículas. Em mesmo nível de importância à agregação, outra importante variável para a técnica SERS é a rugosidade das nanopartículas usadas, o que interfere na resposta à luz espalhada: a resposta de nanopartículas lisas pode ser bem diferente das partículas com ranhuras. E é neste ponto que a nanotecnologia entra como grande aliada para a detecção de traços de contaminantes.

Temos produzido nanoflores de prata em nosso laboratório, na Univasf Juazeiro, que têm capacidade de amplificar o sinal de antibióticos em leite ou água em concentrações tão baixas quanto 1 pM ou (0,000000001 mol/L). Esta linha de pesquisa, além de promissora, permite uma aproximação maior entre as soluções nanotecnológicas e a indústria de alimentos, garantindo maior segurança alimentar para todos nós. A criação de selos de certificação em alimentos é provavelmente o caminho mais curto e efetivo que faça o mercado entender que alimento é alimento e antibiótico é antibiótico.

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Helinando Oliveira

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