Celebração, luta e alimento Geral

terça-feira, 3 julho 2018
Festa da Colheita em Tabuleiro do Norte. Foto: Alisson Matos.

Comunidades rurais no Ceará mantém viva a tradição das Festas da Colheita. Agricultores também lutam pela garantia de seus direitos

“As chuvas caíram em nosso chão, banharam nosso semiárido de muita vida e a colheita é abundante. Para celebrar as chuvas, o trabalho no campo e agradecer pela fartura do pão, realizamos este grande encontro”. Foi nesse tom festivo e de agradecimento que a Associação Escola Família Agrícola Jaguaribana Zé Maria do Tomé, situada no município de Tabuleiro do Norte, no Ceará, realizou no domingo, 24 de junho, a Festa da Colheita que contou com a presença de dezenas de agricultores e agricultoras familiares que se reuniram para agradecer e celebrar a colheita que realizaram este ano.

Durante a celebração teve música, dança, poesia e comidas típicas produzidas nas terras da própria comunidade. Segundo, Thiago Valentim, presidente da Associação Escola Família Agrícola Jaguaribana, “o costume de celebrar a colheita vem de muito tempo atrás, de muitas culturas. Por exemplo, na Bíblia nós encontramos festas celebradas por povos bem antigos. Então, há 3 mil anos, nós já temos registros em documentos, em livros como a Bíblia, de celebrações da colheita. É um costume muito antigo e que a gente dá continuidade e vai se tornando novo a cada festa da colheita feita e tem um sentido muito profundo para os agricultores e para as agricultoras pela relação que estes têm com a terra. A terra como mãe, a terra como aquela onde se planta e se produz o alimento para a família e para a comunidade”.

Festa da Colheita em Tabuleiro do Norte. Foto: Alisson Matos.

Soberania alimentar

Embora não exista um calendário fixo para a realização das festas da colheita, elas ocorrem com frequência nos meses de junho e julho, quando o período coincide com a colheita de safra realizada pela agricultura familiar. As festas da colheita, também, servem de reflexão e luta por melhorias para os povos do campo. “As nossas festas, também, têm tido um cunho político de pautar, de discutir o acesso à terra, o acesso à água que na região é um desafio muito grande e de pautar, inclusive, os impactos do agronegócio sobre a vida dos agricultores e agricultoras, sobre as águas da região e o uso intensivo de agrotóxicos. Então, tem sido um momento para celebrar, mas tem sido, também, um momento pra reafirmar uma luta importante pela garantia dos direitos dos agricultores e agricultoras familiares” explica Thiago Valentim.

Para a professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Anna Erika Ferreira Lima, “as manifestações culturais a exemplo das festas de colheita, são a expressão mais tradicional e genuína das práticas tradicionais de plantio, colheita e alimentação. São formas de celebrar e saudar o cultivo e a garantia do alimento que representa a soberania alimentar de tais grupos sociais”.

Manifestação indígena

Esse tipo de manifestação cultural, também, é organizado pelos povos indígenas, quilombolas, além dos agricultores e agricultoras familiares.  Exemplo disso foi a Festa do Milho, também, chamada de Festa do Mucunzá, realizada pelo povo Kanindé, no município de Aratuba, Ceará, no dia 18 de junho. A professora Anna Erika esteve no evento e contou que lá, os índios, celebram como expressão de espiritualidade e em agradecimento pelos alimentos colhidos. O povo Kanindé, em Aratuba, vive na Serra do Pindá e a aldeia é formada por um grupo de cerca de 800 índios. “Para os Kanindé, o milho é utilizado cotidianamente na alimentação e por isso é festejado na época da semeadura e da colheita”, afirmou a pesquisadora, em artigo publicado no Observatório Cearense da Cultura Alimentar (OCCA) da qual é membro.

Festa do Mucunzá do povo Kanindé, em Aratuba. Foto: Anna Erika F. Lima.

E o milho é, certamente, um dos alimentos mais homenageados nessas celebrações pela importância nutritiva e econômica que representa na vida dessas comunidades e na base alimentar do próprio Estado. Para Odálio Girão, analista de mercado da Central de Abastecimento do Ceará (Ceasa), 40% de todo o milho comercializado no Estado vem da agricultura familiar e o restante da agricultura irrigada.

Somente no mês de junho, foram comercializadas 975 toneladas de milho e o preço está 16% menor em comparação ao mês passado.  “A boa safra com ótimas colheitas ocasionou uma forte oferta do milho devido à quadra chuvosa em muitos pontos do Estado do Ceará”, explicou o analista da Ceasa.

Este ano, a quadra chuvosa no Ceará ficou em torno da média. Segundo a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) choveu 659 milímetros entre os meses de fevereiro e maio.

Confira a entrevista com Helaine Matos.

Helaine Matos

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