Pesquisadores da Paraíba buscam estratégias de preservação do semiárido Pesquisa

quinta-feira, 28 setembro 2017

Resultados de estudo publicado sobre a reação de sementes a diferentes temperaturas da água podem ajudar na conservação e recuperação de ecossistemas degradados

Como uma semente reage sob a influência de diferentes temperaturas da água? Foi para responder a essa e outras perguntas que pesquisadores da Paraíba realizaram um estudo que aborda questões que marcam populações vegetais de referência nos sistemas ecológicos do Semiárido brasileiro. Os resultados podem ajudar na conservação e recuperação de ecossistemas degradados nessa região.

De acordo com o estudo do elaborado pela equipe do Laboratório de Ecologia e Botânica (LAEB) do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido (CDSA) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e que foi publicado no periódico Brazilian Journal of Biological Sciences “A eficiência na produção de mudas é decisiva para o resultado final da sua aplicabilidade. Portanto, são necessárias estratégias para assegurar um surgimento rápido e uniforme, especialmente quando está associada a métodos sustentáveis”.

A pesquisadora Alecksandra Vieira de Lacerda, coordenadora do LAEB, explica que o estudo utilizou sementes de Mimosa ophthalmocentra Mart. Ex Benth. (conhecida como jurema de imbira). Segundo ela, durante a pesquisa foi possível observar que a jurema de imbira possui dormência tegumentar e a sua emergência foi influenciada pela temperatura da água. “A imersão das sementes em água a 75ºC durante 1 minuto proporciona o melhor resultado com 60% de emergência, índice de velocidade de emergência (IVE) de 2,68, e maiores comprimentos e massa seca das plântulas”, detalha.

Jurema de imbira

Preservação

As sementes de Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth foram coletadas em uma área experimental reservada para estudos de Ecologia e Dinâmica da Caatinga localizada no Cariri Ocidental Paraibano, especificamente no Município de Sumé (PB). Alecksandra Lacerda explica que sua equipe trabalha para evidenciar as potencialidades biológicas nos espaços do Semiárido brasileiro e neste aspecto a jurema de imbira tem papel destacado nas escalas ambiental, econômica e social. “Podemos também ressaltar seu potencial como medicinal, madeireiro e energético. Precisamos difundir os papéis desempenhados por essas espécies para que assim possamos aplicar estratégias de conservação do nosso patrimônio biológico”, acrescenta.

Para a pesquisadora, os resultados obtidos nesse estudo poderão ser utilizados para ajudar na recuperação e conservação de ambientes degradados na região semiárida do Brasil. “Atualmente, têm-se linhas de ação muito preocupadas em definir no Semiárido brasileiro as melhores estratégias para a conservação do nosso patrimônio biológico e ainda os procedimentos para aplicar a restauração sistêmica de ambientes degradados e neste sentido os resultados levantados podem subsidiar os trabalhos dentro da biologia da conservação e da recuperação dos ecossistemas degradados no Semiárido”, avalia.

A publicação do estudo por integrantes do LAEB é motivo de orgulho para a pesquisadora. Segundo Alecksandra, o Laboratório de Ecologia e Botânica da UFCG tem realizado importantes trabalhos e ainda vem buscando sempre envolver parcerias e estudantes de várias áreas do conhecimento. “Nos preocupamos com a formação de jovens talentos, os quais estão sendo lapidados para o exercício do desenvolvimento aplicado em bases sustentáveis. Como coordenadora do LAEB estou fortemente comprometida com a formação de pesquisadores e extensionistas para ampliar as ações voltadas para a conservação das nossas riquezas biológicas”, destaca.

O artigo Hydrothermal treatments for overcoming dormancy in seeds of Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. (Fabaceae: Mimosoideae) está disponível na edição número 7 de 2017 da referida publicação. Além de Alecksandra Vieira, a publicação foi assinada por Azenate Campos, Riselane Lucena, Edna Ursulino, Carina Seixas, Amelya Lopes, Adriano Lopes e Francisca Maria Barbosa. “É uma importante sinalização de que estamos trabalhando e difundindo o conhecimento gerado e isto é o que define a base de atuação de todos os que estão envolvidos no LAEB”, disse a coordenadora do LAEB.

Metodologia

A pesquisa buscou avaliar a influência de diferentes temperaturas da água para a superação de dormência de sementes de Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. “Neste sentido foi aplicado o delineamento experimental inteiramente casualizado, com quatro repetições, sendo cada uma composta por 50 sementes, as quais foram submetidas a seis tratamentos: Testemunha – sementes intactas (T1), imersão em água à temperatura de 55, 65, 75, 85 e 95°C (T2, T3, T4, T5 T6 respectivamente). A semeadura foi realizada sob condições ambientais em bandejas e as avaliações ocorreram diariamente durante 28 dias. As variáveis avaliadas foram percentual de emergência, índice de velocidade de emergência (IVE), comprimento e massa seca das plântulas. Os dados foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey (p˂0,05)”, afirma a pesquisadora.

O estudo conta com o suporte de alguns projetos aprovados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E os planos da coordenadora do LAEB incluem potencializar os trabalhos dentro da produção vegetal e assim atender as demandas para a restauração sistêmica de ambientes degradados. “Estamos também estudando os potenciais desta espécie na escala medicinal e desta forma ampliando as respostas em relação aos valores das populações vegetais do Semiárido”, ressalta Alecksandra Lacerda.

E apesar de não ter tido nenhuma etapa do estudo ameaçada por falta de recursos, a pesquisadora se mostra preocupada com as ações de contingenciamento que afetam a ciência e a tecnologia no Brasil. “A ciência brasileira de forma geral vem enfrentando várias dificuldades para a execução das suas metas e neste caso estamos com o nosso grupo trabalhando para fortalecer as linhas de atuação dentro da biologia da conservação e da restauração sistêmica de ambientes degradados nos espaços da região Semiárida brasileira e, portanto também sofrendo com a falta de recurso para o desenvolvimento do nosso trabalho. A pesquisa precisa ser vista como uma ação estratégica para o desenvolvimento regional e do nosso país. O despertar disto se faz urgente”, alerta.

Edna Ferreira

2 respostas para “Pesquisadores da Paraíba buscam estratégias de preservação do semiárido”

  1. Josenilton Benigno de Lima disse:

    Conheço de perto o trabalho da Dra. Alecksandra Vieira e sua equipe. Sou do “Semiárido” e fico admirado como nós destruimos, degradamos os nossos biomas porque somos imediatistas. O meio ambiente segue no seu ritmo e nós não atentamos pra isto. Minha admiração pelo trabalho da Dra. Alecksandra e sua equipe. Parabéns à todos.

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