(Richardson Naves Leão)
A cultura maker e “faça você mesmo” (DIY) é uma das principais forças por trás da inovação contemporânea, com impacto notável nas chamadas deeptechs. No entanto, um recente desenvolvimento legislativo no Brasil desestruturou esse ecossistema: a “taxa das blusinhas”. A imposição de uma alíquota de 20% sobre importações de até US$50 impactou de forma significativa o acesso, por parte dos makers, a suprimentos básicos, essenciais para a inovação em hardware. Além do efeito financeiro, a redução na entrada destes produtos comprometeu também a sustentabilidade econômica dos Correios, degradando os serviços de entrega.
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Legenda da foto principal: Exemplos de projetos de circuitos didáticos usados na graduação no Instituto do Cérebro/UFRN. Da esquerda para a direita, eletroencefalograma (EEG) de um canal usado na disciplina “Técnicas Experimentais em Neurociência”, SPIX: amplificador de biosinais usado há mais de uma década em diversos cursos e na divulgação científica (Profs. George Nascimento, Cláudio Queiroz e Bruno Lobão) e EEG usado na disciplina de “Neurociência para jogos digitais”
O varejo nacional é limitado na oferta de componentes eletrônicos modernos, o que acaba por restringir a prototipagem (vital no processo de inovação em microeletrônica, a qual é baseada na experimentação e no método de tentativa e erro). Lamentavelmente, desapareceram do mapa as tradicionais lojinhas de componentes que antes viabilizavam compras rápidas e testes de diferentes designs. As grandes redes varejistas que atuaram ativamente junto ao legislativo pelo avanço dessas taxações e que também importam produtos de baixo valor/complexidade com certeza não suprirão essa lacuna.
Um exemplo prático do efeito nocivo da infame taxa no desenvolvimento tecnológico advém das disciplinas que leciono que unem tecnologia e neurociência, que focam em projetos colaborativos entre os alunos como a criação de exoesqueletos impressos em 3D e interfaces cérebro-máquina. Desde a imposição da taxação, o alto custo e os atrasos na entrega de componentes vêm comprometendo a viabilidade e o engajamento estudantil na criação de dispositivos de hardware. (Richardson Leão)
Esse cenário é ainda mais preocupante diante da ascensão da Internet das Coisas (IoT) e dos wearables, tecnologias que estão redesenhando os contornos da sociedade contemporânea. Inovações nas áreas de saúde, automação residencial, mobilidade urbana e educação dependem de acesso rápido e acessível a sensores, microcontroladores e componentes específicos que ainda não são fabricados no Brasil (e sem ambiente favorável ao desenvolvimento e à experimentação provavelmente, nunca serão). Isso faz com que corramos o risco de ficar à margem das transformações tecnológicas que moldam o século XXI.
Um exemplo prático do efeito nocivo da infame taxa no desenvolvimento tecnológico advém das disciplinas que leciono que unem tecnologia e neurociência, que focam em projetos colaborativos entre os alunos como a criação de exoesqueletos impressos em 3D e interfaces cérebro-máquina. Desde a imposição da taxação, o alto custo e os atrasos na entrega de componentes vêm comprometendo a viabilidade e o engajamento estudantil na criação de dispositivos de hardware.

Legenda da imagem ao lado: Fotografia de uma seção da placa-mãe de um computador TK90x fabricado no Brasil pela Microdigital a partir de 1984 que usava vários chips de fabricação nacional. Note que, apesar de ser um clone do revolucionário modelo britânico ZX Spectrum da Sinclair, o TK90x inovou em vários aspectos. Em termos de jogos, por exemplo, contava com som superior e portas para controles (que não existiam no modelo inglês).
O movimento maker no Brasil não é um fenômeno moderno. Nas décadas de 1970 e 1980, viralizaram revistas como a Saber Eletrônica que popularizavam a eletrônica publicando projetos DIY que iam das luzes piscantes aos periféricos para computadores. Na era da reserva de mercado, havia, como hoje, forte taxação sobre componentes eletrônicos importados. Porém, diferentemente do cenário atual, essas taxas visavam fomentar políticas de industrialização, e não proteger o lucro de grandes varejistas. Além disso, havia um contrabando diversificado amplamente tolerado pelo Estado, proporcionando o acesso a insumos.
De certo modo, esses fatores viabilizaram o desenvolvimento de tecnologia própria, inclusive na informática e videogames. Vale notar que, naquela época, a microeletrônica era incipiente em todo mundo e o Brasil acompanhava, com certas dificuldades, o ritmo das inovações. Hoje, recuperar o atraso tecnológico acumulado ao longo de décadas de desindustrialização é uma tarefa hercúlea e, sem o fortalecimento da cultura maker e da experimentação tecnológica nas bases da educação e da sociedade, essa recuperação será impossível.
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Richardson Leão é professor associado do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte







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