(Helinando Oliveira)
Vivemos um momento crítico de conflito em escala global com a mídia explorando ao extremo todos as imagens que puder. Um costume recente tem sido manter uma câmera apontada para os céus por 24 horas ao dia, em uma tentativa de registrar o voo de mísseis e a possível interceptação por defesas terrestres. No entanto, este tipo de conteúdo dura pouco tempo e logo a novidade deixa de ser tão nova assim e desaparece. E em breve a cobertura massiva do conflito Irã – Israel deixará a primeira página e passará a posições mais secundárias assim como já foi o conflito Rússia-Ucrânia. E isso não significa que pessoas não continuem a morrer e atrocidades continuem a acontecer.
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Ainda pior que isso são as barbaridades que acontecem na rotina de nossas cidades e que passam desapercebidas pela sociedade (ao invés de câmeras apontando para o céu nunca tivemos câmeras apontando 24 h por dia para as ruas do Brasil a monitorar a segurança de nosso povo ao vivo na internet). E o primeiro passo para o diagnóstico do problema são os dados de violência contra nossa população.
Especificamente sobre as pessoas trans, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA ) realiza um trabalho digno de nota ao monitorar a violência e reportá-la em dossiês desde 2017. Com uma metodologia detalhada sobre o levantamento de dados (pagina 54 de https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2025/01/dossie-antra-2025.pdf) e contando com o apoio da Transgender Europe (TGEU), estes dados colocaram o Brasil no mapa mundi da violência contra as pessoas trans em uma posição extremamente preocupante. A leitura do último dossiê (https://antrabrasil.org/assassinatos/) em muito se assemelha a um duro golpe no estômago em nossa sociedade, dados os detalhes de crueldade contra os nossos irmãos.
A violência não pode ser naturalizada em nenhum dos seus aspectos, seja ela contra os donos do poder ou contra as populações em condição de vulnerabilidade. E neste ponto, os dossiês da Antra fazem o papel louvável de denunciar e estabelecer propostas de políticas públicas contra este mal que aflige a sociedade brasileira e não pode ser silenciado.
Peço licença para finalizar esta matéria com a texto de abertura do último dossiê da Antra (autoria de Esteban Rodrigues) que resume todo o sentimento deste texto:
“Existe um genocídio de corpos trans
que pode ser visto a olho nu
e eu sei que você vê…”
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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência










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