(Gláucio Brandão)
Na última terça, o Prof. João “Excel” Montenegro me enviou a reflexão Devemos temer a aversão à CLT?, da empreendedora Sofia Esteves. Claro que foi uma baita inspiração para a AC de hoje, já que falo disso há décadas. No texto, Sofia observa que “para muitos adolescentes, a CLT virou sinônimo de uma vida exaustiva, sem autonomia, com hierarquias rígidas e pouco bem-estar”. Em vez de julgar essa visão como ingênua, ela sugere que é mais produtivo entender os medos e desejos por trás dessa percepção. A sigla “CLT”, segundo ela, tornou-se um símbolo de um modelo de trabalho que muitos não querem repetir, especialmente ao verem o cansaço e a frustração de seus pais. Esse mote me cutucou com força, me obrigando a derramar ideias disruptivas sobre o assunto, já que a coluna tem esse objetivo. Vamos então!
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Fracassados!
Por muitas vezes, a sigla CLT ressoa como um xingamento entre as gerações mais jovens. Crítica que vai além de meras falhas argumentativas e revela uma profunda aversão a um conjunto de percepções sobre o mundo do trabalho, pois está cada vez mais associada a uma vida corrida e fracassada. Mas o que temos feito para que o trabalho, em qualquer formato, não seja mais associado a desenvolvimento, propósito e qualidade de vida? Essa é a pergunta central que nos convoca a uma reflexão urgente sobre a obsolescência dos modelos de trabalho tradicionais.
Emprego é diferente de trabalho
Em 2021 escrevi que o futuro já apontava para o “fim dos empregos formais” e o “começo dos trabalhos”. Naquela AC, já predizia que a IA não apenas transformaria, mas demandaria que as futuras gerações “criassem seus próprios empregos”. Esse tempo chegou!
Graças à IA, profissionais do século XXI já percebem sua eficiência reduzida a meros 2 ou 3 anos devido à vertiginosa velocidade da evolução tecnológica, exigindo um aprendizado contínuo e incessante. É necessário se educar para a utilidade, não exclusivamente para um emprego. O tempo dos ofícios está de volta.
O Remédio anti-CLT: uma transformação multifacetada
Essa nova realidade exige uma profunda transformação em três pilares fundamentais: o perfil dos indivíduos, a postura das universidades e as estratégias das empresas.
- O Novo Perfil Empreendedor do Indivíduo
A mudança de uma postura reativa para proativa é inegociável. Precisamos “criativar” as pessoas, em vez de apenas programá-las. A criatividade e a atitude são mais que habilidades: são a essência para resolver problemas sociais e aproximar-se do universo corporativo. As habilidades do futuro (hoje) residem em “saber fazer perguntas”, pois a IA, embora resolva, não sabe criar bons problemas. As novas gerações buscam propósito e qualidade de vida acima de tudo, entendendo que o objetivo da vida não é só a profissão, mas “o propósito e sentir-se útil”. Superar a inércia psicológica e adotar o intraempreendedorismo tornam-se atitudes não opcionais para a satisfação e qualidade no trabalho.
- A nova postura das universidades
As universidades brasileiras são criticadas por estarem “dessincronizadas” com a realidade do mercado, além de não compreenderem ainda do que se trata a inovação. A educação precisa ser motivada pela solução de problemas e pela criação de mercados. O Modelo da universidade de hoje deveria transitar mais para o de um laboratório gerador de startups, protegendo o conhecimento e adaptando os estudantes à velocidade do mercado. Para que isso seja possível, é urgente uma reforma dos currículos, incorporando disciplinas sobre empreendedorismo, inovação, startups, IA e validação de produtos. A ciência brasileira, atualmente de baixíssimo impacto social, precisa focar na sociedade, ativar patentes e começar a fazer negócios.
- Um novo perfil de empresas
As empresas que prosperarão serão aquelas que se transformarem em organizações de aprendizado contínuo , com ciclos de inovação curtos e forte conexão com clientes e colaboradores. As relações de trabalho estão migrando de “patrão-empregado” (CPF) para “negociais” (empresa-startup, CNPJ), indicando o “fim dos empregos formais”, processo catalisado também pela pandemia. Grandes empresas já tornaram verdadeiros centros de formação interna, enxergando-se como seu primeiro cliente, e produzindo a “vacina para os problemas” internamente e de forma contínua. A adoção de modelos de spin-off e a abordagem Lean Ocean – investir ou adquirir startups, contratar especialistas e promover a Transformação Digital – são estratégias essenciais. A inovação deve ser impulsionada por métricas reais, não por sonhos, e comandada por um Desenvolvedor de Negócios (DevNeg), perito em cultura da experimentação, crucial para aprimorar a capacidade de inovar.
Uma nova saída, a fusão: a universidade-empresa (ou o contrário)
A resposta a esse cenário desmotivador, e com o objetivo fim “Sociedade”, poderia surgir da junção da ciência com o empreendedorismo, a integração do rigor científico com a agilidade e o propósito empreendedor.
- Mente problemática e proativa. Indivíduos e organizações devem ser “problemáticos” no sentido de identificar e gerar “bons problemas”, aqueles que merecem ser resolvidos. Isso permite antecipar, inovar sistematicamente e “gerar as próprias perguntas”, bem antes da concorrência.
- Educação contextualizada e contínua. Reformulada para ser contínua e contextualizada, com a TI atuando como um novo “Esperanto” aplicado a todas as áreas do conhecimento. As universidades devem se tornar laboratórios de criação de startups, aplicando a ciência para resolver problemas sociais.
- Experimentação e adaptação constante. As empresas devem priorizar a experimentação rápida e o aprendizado contínuo, aplicando o modelo “construir-medir-aprender”, do Lean Startup. A “reprototipagem” — a evolução de um produto “morto” de volta a protótipo para ser rearranjado — é um caminho para inovar com menor custo que deve ser tentado.
- Integração e sinergia. O sucesso reside na capacidade de unir “improváveis” em um mesmo pacote, reconhecendo que a inovação é “densidade (conexão), não volume”. A visão do “cliente universal” (Lembram do PATOV, sustentado pelo “bolso”), deve guiar a criação de propostas de valor sinestésicas e avassaladoras.
- Ciência com propósito. Direcionamento da pesquisa para problemas reais da sociedade, buscando validação no mercado, transformando ideias em soluções úteis e sustentáveis.
- Inversão do fluxo. Ao se inverter o fluxo C→T→I (Ciência, Tecnologia, Inovação), para o poderoso I→T→C (Inovação, Tecnologia, Ciência), priorizamos a inovação que nasce da carência e da necessidade, puxando a tecnologia e, quando essencial, a ciência fundamental. Dessa forma, garantimos que cada descoberta e cada esforço científico tenha um retorno mais rápido e um propósito mais amplo, validado pela “nota fiscal” do impacto real. Este é o caminho para construir uma sociedade mais resiliente e inovadora, onde o conhecimento não apenas avança, mas verdadeiramente serve ao bem-estar humano e à sustentabilidade futura, edificando um legado de utilidade e valor genuíno para as próximas gerações
Ignorando a CLT
A aversão à CLT e a busca por um propósito maior no trabalho não são meros caprichos geracionais; são o sintoma inegável de uma era em transformação. Chegou o tempo de transcender modelos obsoletos e abraçar uma nova realidade onde o emprego formal cede lugar ao “trabalho” autônomo, catalisado pela inteligência artificial e pela incessante demanda por aprendizado contínuo e utilidade.
Não se trata mais de temer a aversão à CLT ou de lamentar o fim de modelos fixos de emprego. A era que se descortina exige uma revolução profunda, onde o trabalho é reinventado como fonte de desenvolvimento, propósito e qualidade de vida. A resposta reside na fusão sinérgica entre o rigor científico e a agilidade empreendedora, consolidando o que eu chamo de uma verdadeira Ciência com Modelo de Negócio.
Para entender melhor
Devemos temer a aversão à CLT?
“Fim dos empregos formais” e o “começo dos trabalhos”
É necessário se educar para a utilidade
Laboratório gerador de startups
Organizações de aprendizado contínuo
Migrando de “patrão-empregado” (CPF) para “negociais” (empresa-startup, CNPJ)
PATOV, sustentado pelo “bolso”
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Gláucio Brandão é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e autor do livro Triztorming










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