Em um país de dimensões continentais e riquíssima diversidade biológica, um paradoxo desafia cientistas e ativistas da alimentação: por que o prato do brasileiro é tão homogêneo? Essa pergunta tem movido Michelle Cristine Medeiros Jacob, professora adjunta do Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da mesma instituição.
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Jacob coordena o LabNutrir — Laboratório de Biodiversidade e Nutrição — um espaço interdisciplinar onde ensino, extensão e pesquisa se articulam em torno de um objetivo urgente: transformar os sistemas alimentares atuais em modelos mais equitativos, saudáveis e sustentáveis. Ali, o foco está em alimentos biodiversos, muitas vezes negligenciados, como a taioba, o urucum, a trapoeraba e o mastruz — espécies que crescem próximas de nós, mas raramente chegam às gôndolas dos supermercados e às mesas das famílias brasileiras.
Em 2023, um artigo de sua autoria sobre o baixo consumo de biodiversidade no Brasil foi publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, e ganhou destaque. Agora, volta a repercutir com força devido a um novo desdobramento: o LabNutrir está conduzindo um projeto para investigar se a participação em hortas urbanas pode ampliar o consumo de alimentos biodiversos. “A hipótese é que esses ambientes, além de gerarem acesso físico a esses alimentos, funcionam como espaços de socialização e aprendizagem, o que favorece o consumo e resgata saberes alimentares esquecidos”, explica a pesquisadora.
Pancs e vulnerabilidade

A professora ressalta que os alimentos biodiversos, também conhecidos como Pancs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), são muitas vezes associados a populações em situação de vulnerabilidade. Estudos mostram que mulheres negras, moradoras de áreas rurais e com baixa renda, são o grupo que mais consome essas espécies no país. “Essas plantas funcionam como uma verdadeira rede de segurança alimentar para populações que enfrentam privações”, observa. No entanto, ela defende que esses alimentos não devem ser exclusivos de quem está em risco, sob pena de reforçarmos estigmas e desigualdades alimentares. “É fundamental que essas espécies estejam presentes no prato de todos.”
Contraditoriamente, o perfil de quem consome alimentos considerados “alternativos”, como cogumelos, é majoritariamente urbano, com alta escolaridade e alto poder aquisitivo. A pesquisadora vê aí um marcador de classe. “A renda média de quem consome cogumelo no Brasil é dez vezes maior do que a de quem consome pancs. Isso evidencia como certos alimentos carregam estigmas ou status, dependendo do público.”
A pesquisa atual do LabNutrir busca também compreender os processos de transmissão de conhecimento sobre esses alimentos. “Queremos saber quem ensina o quê. Os jovens urbanos aprendem mais com seus pais ou com a universidade? A forma de aprendizado varia conforme o alimento? Por exemplo, é mais provável que se aprenda sobre algas na universidade do que em casa”, analisa a docente.
Insegurança alimentar

Outro aspecto delicado abordado nos estudos diz respeito ao consumo de carnes de animais silvestres. Embora esse hábito exista em regiões vulneráveis do Norte e Nordeste, Jacob enfatiza que o grupo de pesquisa não o estimula. “Fizemos um diagnóstico, não uma recomendação. O consumo está associado à extrema insegurança alimentar. Em alguns casos, pode ser o último recurso disponível. Portanto, qualquer política de proibição precisa vir acompanhada de alternativas reais, sob o risco de aprofundar ciclos de pobreza e exclusão.”
Os dados utilizados pela equipe são de 2017 e 2018, os mais recentes disponíveis. Segundo a pesquisadora, há expectativa de novos números em breve, o que permitirá avaliar o impacto de políticas públicas, como o recente anúncio da saída do Brasil do Mapa da Fome. “Será interessante ver como o padrão alimentar mudou nesse intervalo, especialmente com as mudanças políticas e econômicas.”
Sem financiamento da Fapern
O trabalho do grupo liderado por Jacob conta com apoio de diversas instituições como Capes, CNPq e Fapesp, mas pouco ou nenhum apoio da fundação de amparo à pesquisa do seu próprio estado, a Fapern. Sobre o financiamento da pesquisa, a Jacob lamenta a fragilidade do apoio local. “Infelizmente, no Rio Grande do Norte, o suporte da Fapern é bastante limitado. Ficamos na lanterna entre as fundações de amparo à pesquisa. Mesmo com tantas limitações, reunir pesquisadores de várias universidades para realizar esse estudo e conseguimos somar forças com grupos de universidades como USP, Unicamp, UFMG e UFPA.”
Resiclima

O LabNutrir também integra a Resiclima, uma rede internacional de estudos sobre mudanças climáticas. O elo com essa rede está no entendimento de que os sistemas alimentares são parte central da crise ambiental e, ao mesmo tempo, um caminho para sua mitigação. “Dietas mais baseadas em biodiversidade local reduzem as emissões e tornam os territórios mais resilientes. As hortas urbanas, por exemplo, melhoram o microclima das cidades, resgatam saberes e promovem saúde.”
A pesquisadora e sua equipe acreditam que práticas como a implantação de hortas em bairros podem ter efeitos sinérgicos, ajudando a combater a insegurança alimentar, a preservar a biodiversidade e até a atrair polinizadores para ambientes urbanos. “O diagnóstico está feito. Agora queremos testar soluções. Só com mais evidências do que funciona é que poderemos influenciar políticas públicas de forma efetiva.”
Reconhecida nacional e internacionalmente, a atuação do LabNutrir já rendeu prêmios importantes, como o reconhecimento da FAO/ONU em 2018, a menção honrosa no Prêmio ODS Brasil em 2019, e a indicação ao Prêmio Jabuti em 2021 pelo livro Culinária Selvagem. A trajetória de Michelle Jacob é um exemplo de como ciência, cultura e engajamento social podem se encontrar na luta por um sistema alimentar mais justo, saudável e sustentável.
Responda ao questionário
Ao final da entrevista, a professora fez um apelo direto ao público leitor: o LabNutrir está conduzindo um novo levantamento nacional e precisa ampliar o alcance do questionário em circulação. “Estamos buscando pessoas que morem em áreas urbanas e que estejam cursando ou tenham concluído o ensino superior. Não é necessário ter experiência com hortas, mas, se tiver, melhor ainda. Precisamos de perfis variados para entender se o envolvimento com hortas urbanas altera a familiaridade com alimentos biodiversos”, destacou a docente. A coleta de dados é fundamental para aprofundar as análises da equipe e fortalecer as bases para políticas públicas em alimentação e biodiversidade.
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Entrevista publicada originalmente em agosto/2025









