A capacidade de um país — e de seus estados — de promover desenvolvimento sustentável, reduzir desigualdades e gerar oportunidades está diretamente associada ao investimento contínuo em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I). No Brasil, as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) ocupam uma posição estratégica nesse processo, pois conectam a produção científica às demandas regionais e transformam conhecimento em desenvolvimento local.
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Apesar dessa centralidade, a ciência ainda não ocupa, em muitos estados, o lugar que deveria nas prioridades governamentais. Orçamentos instáveis, descontinuidade de programas e fragilidade institucional comprometem o potencial transformador das FAPs e limitam o impacto da pesquisa científica na vida da população.
As Fundações de Amparo à Pesquisa são muito mais do que agências de fomento. Elas são instrumentos de política pública capazes de induzir agendas científicas alinhadas às vocações regionais, fortalecer universidades e institutos de ciência e tecnologia (ICTs), formar recursos humanos qualificados e estimular a inovação.
Estados que tratam a ciência como investimento estratégico — e não como gasto — colhem resultados concretos: maior capacidade de inovação, atração de talentos, dinamização do setor produtivo e geração de soluções para problemas locais nas áreas de saúde, educação, energia, meio ambiente e desenvolvimento social.
Ainda persiste a visão de que a ciência produz retornos apenas no longo prazo e, por isso, pode ser preterida em momentos de restrição fiscal. Essa lógica é equivocada. A experiência nacional e internacional mostra que a ausência de investimento em CT&I aprofunda dependências, limita a competitividade econômica e fragiliza a soberania científica e tecnológica.
Não há projeto consistente de futuro sem ciência forte e estruturada nos territórios.
Despertar para a importância da CT&I exige planejamento, estabilidade orçamentária, governança qualificada e integração entre políticas de ciência, educação e desenvolvimento econômico. Exige, sobretudo, compreender que não há projeto consistente de futuro sem ciência forte e estruturada nos territórios.
No Rio Grande do Norte, a trajetória da Fundação de Amparo e Promoção da Ciência, Tecnologia e Inovação (FAPERN) reflete tanto os avanços quanto os entraves enfrentados pela política estadual de CT&I. A partir da perda recente do seu primeiro Diretor Presidente, Prof. José Lacerda Alves Felipe, figura central na implantação desta agência de fomento no estado, me ocorre refletir como resgatar a FAPERN e projetá-la para um novo patamar de atuação que passa, necessariamente, pelo fortalecimento de sua base institucional e financeira. Em relação a esta última, tem ocorrido nos últimos anos um aporte um pouco maior de financiamento, mas que demanda um acompanhamento para que ocorra a sua expansão e continuidade. No que se refere a sua base institucional, esta questão vai mais além. Implica em ampliar a articulação com as universidades, institutos de pesquisa e demais ICTs do estado, estimular a inovação e a interação com o setor produtivo e valorizar a formação e a fixação de pesquisadores no território potiguar.
A ciência produzida no Rio Grande do Norte já demonstra qualidade e relevância. O desafio está em transformar esse potencial em políticas estruturantes, programas contínuos e impacto concreto para a sociedade.
As Fundações de Amparo à Pesquisa representam uma escolha política: investir em conhecimento, autonomia e desenvolvimento sustentável. Fortalecê-las é fortalecer o futuro dos estados brasileiros.
É preciso afirmar, de forma clara e crítica, que nenhuma fundação de amparo à pesquisa cumpre plenamente sua missão sem diálogo permanente, estruturado e transparente com a comunidade científica que lhe dá sentido. As fundações não podem ser apenas um órgão gestor de editais; deve ser um espaço vivo de escuta, construção coletiva e pactuação de prioridades com os pesquisadores e as pesquisadoras, no nosso caso, que atuam no Rio Grande do Norte.
É fundamental que a FAPERN fortaleça mecanismos formais de diálogo, como fóruns permanentes, consultas públicas, comitês científicos representativos e processos de avaliação participativos
Os desafios contemporâneos da ciência — da escassez de recursos à complexidade dos problemas sociais — exigem mais do que decisões administrativas isoladas. Exigem governança compartilhada, canais institucionais de participação e uma relação de confiança entre a fundação, as ICTs e os pesquisadores. Sem isso, corre-se o risco de desenhar políticas desconectadas da realidade dos laboratórios, dos grupos de pesquisa e das demandas regionais.
É fundamental que a FAPERN fortaleça mecanismos formais de diálogo, como fóruns permanentes, consultas públicas, comitês científicos representativos e processos de avaliação participativos. Do mesmo modo, cabe à comunidade científica assumir postura propositiva e corresponsável, contribuindo ativamente para a definição de agendas estratégicas e para a defesa pública da ciência no estado.
Reposicionar a FAPERN em um novo patamar não será resultado de um gesto isolado, mas de um processo contínuo de reconstrução institucional baseado em diálogo, transparência e compromisso com o interesse público. Somente assim será possível honrar o legado de seus fundadores, fortalecer a ciência potiguar e transformar conhecimento em desenvolvimento efetivo para o Rio Grande do Norte.
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Maria Bernardete Cordeiro de Sousa é Profa. Titular do Instituto do Cérebro da UFRN e foi Diretora Presidente da FAPERN de 02/2011 a 02/2013










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