Ciência raiz X ciência rasa

A sobrecarga de conteúdos, explícita nas redes sociais, tem provocado uma revolução sem precedentes nas comunicações e no nosso cotidiano. Ouvir uma mensagem na velocidade de 2x parece natural nos dias de hoje, assim como correr os dedos nervosos rapidamente sobre a tela, inundada de conteúdos desprezíveis, na busca por algo útil. Não entraremos em detalhes sobre esse processo na saúde mental das pessoas, mas sim sobre as implicações para o modo de fazer ciência.

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O processo de investigação tem início com a leitura do estado da arte e a busca pelos conceitos embutidos nos artigos publicados na área. Quem tem mais de 40 anos vai lembrar que a leitura se dava com a impressão em papel, com o dicionário de inglês do lado e muitas horas de atenção… Hoje, nem tradução instantânea pela internet é feita. Uma IA resume o artigo em 3 ou 4 linhas, e o trabalho de dias passa a ocorrer em 5 segundos.

Isaac Newton e Albert Einstein foram eternizados não pela quantidade, mas sim pela qualidade do que fizeram. E construir coisas leva tempo… Quanto mais belas e complexas forem estas coisas, mais tempo será necessário para construí-las.

E, em um estalar de dedos, o procedimento experimental aparece na tela, tal qual uma receita de bolo. No entanto, é obrigação de todo estudante entender que muito do conteúdo é perdido nessa extração rápida, que nunca substituirá a leitura detalhada e crítica. Antes de modificar ligeiramente o procedimento experimental para publicar outro artigo, é fundamental entender quais os limites do problema e que abordagem se tem a dar para atingir um avanço incremental na área, o que é bem diferente de incluir modificações em procedimentos experimentais. E em um planeta em que grandes nações investem bilhões de dólares em pesquisa, chegar à frente é um desafio grande.

É importante ressaltar que quanto maior a contribuição (qualidade), maior o impacto, o que vai na contramão do produtivismo enlouquecedor (nos moldes das redes sociais). Penso em como seria se Isaac Newton e Albert Einstein vivessem os tempos atuais. Newton desenvolveu a mecânica clássica ao longo de mais de 20 anos de estudos, enquanto o hiato de 10 anos separou a relatividade especial (1905) da relatividade geral (1915) de Einstein.

Ambos foram eternizados não pela quantidade, mas sim pela qualidade do que fizeram. E construir coisas leva tempo… Quanto mais belas e complexas forem estas coisas, mais tempo será necessário para construí-las. Para além do conceito de Slow Science, há de se evitar a tendência da ciência rasa, fomentada pelo princípio do “publique ou pereça”. Como cientistas, precisamos estar preparados para consolidar nossa melhor contribuição para a ciência, em vez de simplesmente estarmos a escrever “mais um artigo”.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência