(Foto: Kennedy Barros / Confap)

Marcelo Botelho: A ciência e a tecnologia são a grande mola propulsora do desenvolvimento sustentado e da soberania do país

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) inicia um novo ciclo de gestão com a posse de Marcelo do Nascimento Botelho na presidência da entidade. O presidente concedeu entrevista exclusiva ao Portal Nossa Ciência.

O mandato teve início em 1º de janeiro de 2026 e segue até março de 2027, quando estão previstas novas eleições. Botelho assume o cargo após atuar como vice-presidente do Conselho, sucedendo o professor Márcio de Araújo Pereira. Criado em 28 de abril de 2006, o Confap congrega 27 Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs) e atua como parte ativa do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI).

Apoie você também este projeto de divulgação científica. Mande pix de qualquer valor para contato@nossaciencia.com

Atual diretor-presidente da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), no estado do Pará, Marcelo Botelho acumula ampla experiência na gestão acadêmica e científica. É professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), instituição na qual construiu uma carreira consolidada como gestor, tendo exercido, entre outras funções, o cargo de reitor no período de 2017 a 2021.

Na entrevista, o novo presidente do Confap detalhou os desafios estruturais do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação (SNCTI), comentou as assimetrias regionais no financiamento da pesquisa, apresentou as prioridades estratégicas de sua gestão e destacou a importância do investimento contínuo em CT&I como base para o desenvolvimento sustentável e a soberania do país.

Expectativas para o cenário eleitoral

Ao comentar as eleições presidenciais e estaduais previstas para este ano no Brasil, Botelho expressa a expectativa de um debate qualificado. “Eu espero que essas eleições sejam travadas no campo das ideias, muito mais do que no campo da ideologia ou das falsas notícias.”

Ele acredita que a valorização da ciência pela sociedade será determinante para o futuro do país. “Convencendo a sociedade de que ciência é importante, essa sociedade vai votar em candidatos que estejam comprometidos com ciência, tecnologia e inovação”, projeta.

Integração entre universidades, governo e empresas

A integração entre universidades, governos e empreendedores — frequentemente apontada como um desafio histórico das políticas de CT&I — também foi tema da conversa com o Nossa Ciência. Para Botelho, a ideia de que esses atores “falam línguas diferentes” precisa ser contextualizada. “Esse discurso se deve a realidades diferentes, realidades da infraestrutura, do poder econômico das diferentes regiões, dos diferentes estados dentro de uma mesma região”, avalia.

Ele destaca que o Confap tem atuado de forma consistente para superar essas barreiras por meio da formação de redes de pesquisa, consideradas mais eficientes para enfrentar desafios complexos. “A formação de redes de pesquisa é muito mais eficiente e o CONFAP tem feito dessa forma, desde as ações bilaterais entre as fundações de amparo até mesmo relações multilaterais, como é o caso do Amazônia Mais 10.”

Segundo o presidente, a construção dessas redes é um objetivo permanente do Conselho. “É propósito do Confap construir cada vez mais redes de pesquisa entre os diferentes estados, aproveitando as expertises e os pontos fortes de cada um desses estados, para que seja feito o robustecimento da infraestrutura e da capacidade de desenvolver pesquisas de alta qualidade nos temas que são relevantes para cada uma das regiões do país.”

As fundações de amparo têm autonomia e independência nas suas atuações. O Confap congrega todas essas instituições respeitando essa autonomia e essa independência, discutindo temas que sejam centrais e comuns a todas elas.

Desigualdades regionais

Ao ser questionado sobre a persistência da disparidade entre os orçamentos das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs), Botelho afirmou que essa desigualdade reflete, em grande medida, as diferenças econômicas entre os estados brasileiros. “A disparidade entre os orçamentos estaduais das FAPs está diretamente ligada à própria disparidade do PIB dos estados, uma vez que o recurso das FAPs vem da receita corrente líquida desses estados”, explica.

Segundo ele, o Confap não tem instrumentos para interferir diretamente nos orçamentos estaduais, mas atua de forma política e institucional para fortalecer o papel das FAPs junto aos governos locais.

“O que o Confap faz e pode fazer é mostrar a importância da FAP para o país e naquele estado em especial e, com isso, convencer o poder local da necessidade de colocar o máximo possível da receita corrente líquida para as ações de pesquisas através da FAP”, explica.

Esse trabalho, conforme Botelho, tem produzido resultados relevantes ao longo dos anos. Atualmente, a maioria das FAPs conta com orçamento garantido em lei, definido como um percentual da receita corrente líquida estadual, que varia de 0,3% até 1,5%.

Ainda assim, o presidente reconhece que essa estrutura impõe limites claros à atuação do Confap. “Essa é a limitação que o Confap tem para agir quanto ao orçamento das FAPs individualmente”, resume.

Inteligência artificial como eixo estruturante da nova gestão

Outro tema levantado pelo Nossa Ciência foi a forma como o Confap vem se organizando diante dos desafios e oportunidades trazidos pela inteligência artificial. Para Botelho, trata-se de um tema incontornável e estratégico para o futuro do país. “O tema de inteligência artificial certamente é o tema do momento”, afirma.

Segundo ele, o Confap está elaborando uma proposta de ação integrada que deve ser apresentada nos próximos meses, envolvendo não apenas as FAPs, mas também instituições federais de fomento e outros atores do sistema nacional de CT&I. “Queremos trazer o governo federal através do MCTI, através do FNDCT, CNPq, CAPES e outros atores, como a RNP. Nós queremos trazer um grande plano de incentivo à pesquisa na área de IA”, esclarece.

Botelho observa que iniciativas nessa área já existem de forma isolada em alguns estados, mas defende a construção de um programa nacional articulado. Ele adianta, inclusive, que o programa pode seguir uma lógica semelhante ao que foi feito com o Amazônia Mais 10 em sua identidade. “Queremos ter aí um ‘Confap mais IA’, alguma coisa desse tipo”, diz.

Autonomia das FAPs e fortalecimento institucional

Questionado sobre a existência de FAPs que eventualmente se afastariam de sua função estratégica de fomento à CT&I, Botelho reforça o princípio da autonomia institucional. “As fundações de amparo têm autonomia e independência nas suas atuações. O Confap congrega todas essas instituições respeitando essa autonomia e essa independência, discutindo temas que sejam centrais e comuns a todas elas.”

Ele reconhece, no entanto, que existem dificuldades estruturais em algumas fundações e que essas diferenças são significativas entre os estados. “Nós temos diferenças muito grandes, desde a mais antiga das FAPs, que é a Fapesp, que tem uma infraestrutura fantástica e exemplo para o país, até FAPs mais novas, como a de Roraima, que foi criada há dois anos.”

Nesse contexto, Botelho informa que o Confap tem buscado alternativas para fortalecer institucionalmente as FAPs, inclusive com apoio federal. “Nós inclusive estamos pleiteando junto à Finep editais específicos para fortalecer a infraestrutura de atuação de cada uma das FAPs em seus estados.”

Ele reforça que, ao longo de seus 20 anos de existência, o Confap tem desempenhado papel central na consolidação do sistema estadual de fomento à pesquisa.

Retomada do financiamento da ciência no Brasil

Ao analisar a trajetória recente do financiamento da ciência no Brasil, Botelho ressalta que a disputa por recursos é inerente à atividade científica, mas observa no governo atual tem havido uma recuperação dos investimentos no setor. “A ciência não é uma atividade barata. Gerar conhecimento requer recursos e requer uma decisão estratégica”, reconhece.

Ele afirma que, embora a luta por mais orçamento seja histórica, o país vive atualmente um processo de recuperação após um período prolongado de retração. “Hoje, o Brasil está recuperando o investimento que já teve. Nós apenas recuperamos o que nós tínhamos no passado, porque tivemos um atraso muito grande no investimento no governo anterior.”

Nesse cenário, os estados passaram a desempenhar um papel ainda mais relevante. “Nos estados, nós tivemos um acréscimo significativo, fazendo com que a participação das FAPs aumentasse proporcionalmente.”

O Brasil é líder mundial no agronegócio e isso só foi possível mediante a um investimento robusto em ciência e tecnologia.

Apesar de reconhecer que o descontingenciamento dos recursos do FNDCT é um marco importante, o presidente garante que ainda é insuficiente para atender às demandas do sistema. “Precisamos evoluir ainda mais. Nós sempre estaremos brigando por mais recursos, porque acreditamos que a ciência e a tecnologia são a grande mola propulsora do desenvolvimento sustentado e da soberania do país.”

Lições da pandemia sobre a impacto da ciência

Ao tratar dos benefícios sociais do investimento contínuo em CT&I, Botelho recorre a exemplos concretos, como a pandemia de Covid-19. “O país esteve refém do envio de IFAs para que a gente produzisse as nossas próprias vacinas aqui em território brasileiro.”

Segundo ele, essa dependência externa evidenciou a importância de investimentos estruturantes em ciência e tecnologia ao longo do tempo. “Isso não ocorre com soluços, não ocorre com investimento neste momento e depois uma descontinuidade. É preciso ter investimento significativo e de maneira sustentável.”

Questionado sobre quais grandes problemas nacionais poderiam ser enfrentados com mais recursos para pesquisa, o presidente do Confap cita o agronegócio como exemplo emblemático de sucesso. “O Brasil é líder mundial no agronegócio e isso só foi possível mediante a um investimento robusto em ciência e tecnologia”, aponta.

Ele lembra que transformações profundas ocorreram nas últimas décadas graças à pesquisa científica. “Se você voltar 40 anos atrás, nós não tínhamos plantações no Cerrado, não tínhamos uma agricultura pujante na Amazônia, nem no Nordeste.”

Em contraste, ele aponta áreas em que o país poderia ter avançado mais. “Nós temos o problema da educação, da saúde, da indústria. O Brasil sofreu uma desindustrialização muito forte.” Botelho lembra que o país já esteve à frente de nações que hoje o superam em setores estratégicos. “Nós estávamos à frente da Índia, da China, da Coreia. Hoje estamos atrás de todos esses países. Por quê? Porque faltou investimento em ciência e tecnologia”, garante.

A sua doação faz uma grande diferença! Nossa chave Pix é contato@nossaciencia.com