O caderno de laboratório

Temos perdido o hábito de escrever, de usar papel e caneta… Porém, no chão de fábrica, que é a bancada de experimentos, não há nada que substitua o bom e velho caderno de laboratório. Em tempos de exposição extrema a conteúdos supérfluos nas redes sociais, é difícil imaginar que alguém guarde, por dois dias, todas as informações de um experimento.

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O que segue no artigo é o sumário do que deu certo. Porém, a probabilidade de, de primeira, repetir um experimento relatado por alguém é quase nula. Repetir o próprio experimento pode ser impossível se não controlarmos a metodologia. Vamos a um exemplo: para fazer o café com o mesmo sabor todos os dias temos de anotar e seguir a mesma metodologia – qual grão usar, tipo de torra, quantos minutos e qual a velocidade do moedor, anotar a massa do café moído, tipo de água usado e temperatura, tipo de filtro usado, quantidade de água, forma de dispersar a água no pó de café, xícara em que se bebe o café… Qualquer mudança em um dos fatores acima pode ser percebida por um apreciador do bom café.

Na cozinha, todavia, praticamos a alquimia de combinar temperos e sabores. E a liberdade de testar novidades alimenta a criatividade de quem cozinha. Um caderno de receitas tem muito menos detalhes do que de fato precisaríamos para reproduzir o doce de caju da vovó Nevinha. Nas mãos dela havia um segredo que foi embora para sempre. Na ciência, porém, segredos não podem ser perdidos. Se um estudante ousou, por exemplo, produzir uma nanopartícula excêntrica e de mil utilidades, ele será obrigado a reproduzi-la. Por isso, desde muito cedo, o estudante que deseje fazer ciência precisa ser metodológico. E saber passar tudo para o caderno, para não correr o risco de perder um detalhe no caminho que mude tudo.

A experiência surge do aprendizado com o erro. Persistir no erro não é aprender, é apenas errar de novo. Portanto, das 100 páginas do caderno de laboratório, 90 podem conter experimentos frustrados. Isso não significa que seu trabalho não sirva. Você descobriu 90 caminhos a não seguir. No melhor estilo de Thomas Edison, ao descobrir a forma comercial da lâmpada: “Eu não falhei. Apenas descobri 10 mil maneiras que não funcionam”.

Imagino a riqueza do caderno de Edison e a aprendizagem que as falhas trouxeram à sua vida. Os artigos contam o que deu certo em um contexto que, muitas vezes, foge à causalidade. Já o caderno de laboratório é um diário fiel, que segue a linha do tempo, reflete as decepções e os encantos das pequenas descobertas. É nele que a verdadeira experiência pulsa. Não permita que essa história se perca com o tempo. Faça uso diário do seu caderno de laboratório; por mais que uma frustração não seja atraente para ser relatada, o dar certo ou dar errado também é relativo. Nem sempre o que esperamos é certo e nem mesmo o que rejeitamos é o errado.  A natureza é o que é. Seja um observador.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência