A organização eterna

(Gláucio Brandão)

Saudações, viventes. Se você ainda acha que a transformação digital é só uma “fase”, é melhor sentar antes de continuar. O que está acontecendo não é uma transição — é um colapso de paradigmas. E neste novo campo de batalha, a pergunta não é mais como crescer, e sim como não desaparecer. Em outras palavras, sobreviver não basta. É hora de pensar em como se tornar eterno.

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Não estou falando de organizações que duram décadas por teimosia ou monopólio. Estou falando de organizações mutantes, que reconfiguram seu próprio DNA conforme o ambiente exige. Empresas que entendem que o mundo não vai esperar ninguém — e que o futuro não será herdado pelos grandes, mas pelos adaptáveis.

A nova realidade: aprender ou morrer

A escola ficou para trás. O diploma virou souvenir. O conhecimento está nos fluxos do mercado, nas interações, nos erros rápidos e nos aprendizados brutais. As empresas que duram são aquelas que entendem que aprender não é um departamento — é uma postura. Mais do que isso: é a vacina contra a obsolescência. Organizações que sobrevivem cultivam uma cultura onde se aprende todos os dias, na qual testar é rotina. Errar rápido é preferível a planejar devagar, já que o conhecimento se reinventa na prática, não no PowerPoint. (Aliás, com o caminhão de IAs que temos disponíveis, deixei de apresentar PPT há muito tempo. Estou gerando aplicativos em tempo real. Massa, né não?).

Enquanto muita empresa finge que inova tirando selfie no coworking, eu resumi, em cinco aspectos, o que qualquer negócio que se diz moderno já deveria executar, sem chororô empreendedor.

Os cinco mandamentos para eternidade

  1. Olhe para fora — sem ilusões.

Quem ainda está preso ao que já sabe, já está morto. As empresas eternas observam o mercado como quem estuda uma criatura em mutação: captam sinais, detectam tendências, enxergam o que ninguém está olhando. Elas sabem que o futuro está nas bordas , não no centro. E que inovar é, acima de tudo, interpretar o que o mundo ainda não sabe que precisa.

  1. Olhe para dentro — sem anestesia.

Antes de buscar soluções mágicas, é preciso ter coragem de encarar o caos interno.
Os verdadeiros problemas não são os que aparecem na planilha, mas aqueles todos fingem não ver. Identificar contradições internas — nos processos, na cultura, nas decisões — é o primeiro passo para reconfigurar a máquina. Sem esse mergulho brutal no próprio labirinto, nenhuma mudança será legítima.

  1. Desenvolva método — ou seja engolido pelo improviso.

O improviso pode parecer charmoso em tempos de crise, mas no longo prazo, é suicídio.
Empresas eternas operam com ritmo, repetição e refinamento. Elas seguem ciclos claros de aprendizado e validação. Entendem que não se escala criatividade sem método.
Criar hipóteses, testar, medir, ajustar… esse é o novo normal.

  1. Entregue novidade — ou será substituído.

Quem não entrega novidade, entrega irrelevância. E a inovação aqui não é enfeite nem status: é estratégia de sobrevivência. Empresas eternas criam seus próprios mercados, reconfiguram ofertas, desafiam lógicas preestabelecidas. Não vivem de versões 2.0, mas de saltos. Quando necessário, abandonam o que funcionava ontem sem olhar para trás.

  1. Diminua o peso – terceirize o que o mercado faz melhor e mais barato

Um dos pilares centrais para a construção de uma organização ágil e perene, terceirizar estrategicamente, significa transferir atividades ou funções específicas para uma empresa externa que possua maior especialização. O objetivo é tornar a organização mais “leve”, permitindo que ela concentre sua energia e recursos naquilo que é sua essência: seu Core Business. No modelo de eternização, a terceirização é o que permite que a empresa descarte o que se tornou uma commodity para focar no ciclo de aprendizagem contínua. Ao delegar o que o mercado já faz bem, a organização se liberta para aprender, inovar e incorporar novos conhecimentos ao seu core business, mantendo-se dinâmica e relevante.

O DNA da eternidade: a organização do futuro

No site O Futuro das Coisas, o futurista Thomas Frey, do DaVinci Institute, afirma:

“Até 2030 as maiores empresas na Internet serão empresas educacionais, as quais ainda nem sequer ouvimos falar — com robôs de IA personalizando a educação em escala. (…) Alinhadas a expansão do formato digital e ao conceito de ‘learning by doing’, que é um dos pilares da Educação 4.0 e propõe que a pessoa que está se capacitando aprenda colocando a mão na massa, muitas empresas estão assumindo o papel de escola, investindo rotineiramente na capacitação de seus colaboradores e parceiros, incentivando que eles apliquem na prática o que aprenderam de maneira teórica nos treinamentos”.

A organização que viverá para sempre não é a maior, nem a mais capitalizada. É aquela que desenvolve plasticidade mental e brutalidade estratégica; que aprende mais rápido que os outros; que muda antes que precise. Ela transforma cada erro em protótipo e consegue reconfigurar seu modelo de negócio como quem muda de pele. Essa é a verdadeira eternidade corporativa, um estado em que a empresa não apenas resiste ao tempo, pois o domina. Cria futuro.

A questão

Eis a encruzilhada final, uma intimação que não faz distinção entre o público e o privado, entre gigantes e startups. A sua instituição está de fato aprendendo mais rápido do que a realidade se transforma? Existe a coragem para abandonar os troféus de ontem em troca da incerteza de futuros que ainda precisam ser construídos, ou a escolha é pelo conforto letárgico, como um marisco que aguarda a maré da irrelevância o carregar? A pergunta é implacável e se aplica a todos, inclusive — o que é a maior das ironias — às próprias casas do saber, as universidades.

De forma definitiva: a sua organização já se converteu em uma máquina de aprender? O silêncio diante desta questão é o som que antecede o esquecimento, ou a morte.

Sendo poeticamente trágico…

O fim para a sua organização não será uma explosão ruidosa. Não haverá um colapso dramático noticiado na Web. Será, antes, um suspiro silencioso e final numa sala de reuniões onde ninguém percebeu que a morte já tinha chegado; um vazio gelado que se instala quando o mercado, sem aviso, decide que já não precisa de si. Será a sua marca a transformar-se num eco, depois num sussurro e, por fim, em nada.

No cemitério das empresas que acreditaram ser imortais, apenas uma questão paira sobre as lápides: foste o arquiteto do teu amanhã, ou apenas mais um fóssil que a próxima geração irá escavar para estudar como não se deve fazer!

– The End –

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Gláucio Brandão é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e autor do livro Triztorming