(Alípio DeSousa Filho)
Nas nossas sociedades atuais, vivemos um estranho paradoxo: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão desamparados de relações e de pensamento próprio. A Internet, ao ocupar maciçamente o tempo e atenção das pessoas, impõe um regime de estímulo contínuo e dispersão que desestrutura silenciosamente cada um para atividades que requerem a subjetividade, isto é, o ser de cada pessoa nas relações com o outro, com a realidade, com a vida. O que está em questão não é apenas o uso de uma tecnologia, mas a captura do indivíduo por lógicas que o despotencializam a agir por si próprio.
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Perde-se, antes de tudo, a capacidade de pensar por conta própria. A avalanche de informações, algoritmicamente direcionadas, bloqueia a reflexão profunda. A mente se torna reativa, refém de estímulos e opiniões alheias, incapaz de pausa e elaboração. Pensar exige tempo vazio e silêncio interior — ambos incompatíveis com a lógica do “rolar” infinito das páginas de internet.
Pensar exige tempo vazio e silêncio interior — ambos incompatíveis com a lógica do “rolar” infinito das páginas de internet.
O cotidiano torna-se uma corrida ansiosa por atualizações, notificações e respostas. O bombardeio constante de dados e imagens estressa a mente. A atenção fragmentada e a exigência de presença constante nos dispositivos desgastam as faculdades cognitivas, fragilizando o discernimento e produzindo uma saturação psíquica que não se quer saber seus efeitos negativos.
O resultado é frequentemente a prostração e o adoecimento. Ansiedade, depressão, síndrome de burnout e isolamento social crescem concomitantemente à chamada imersão digital. Corpos imóveis, mentes sobrecarregadas, afetos entorpecidos: eis a paisagem social de seres humanos exaustos, mas sem que se mexam de cadeiras, afastem-se de telas. A exaustão é mental, emocional, psíquica.
Exaustão silenciosa, produzindo-se no correr do dia, nas noites e madrugadas nas quais a Internet funciona como um coliseu digital, onde, entre coisas sem a menor importância, pois o importante torna-se a pesquisa de muito poucos, o que “rola” mesmo é a exposição de “curiosidades” que não instruem, ou a promoção do escândalo com a vida do outro, vidas expostas, julgadas e descartadas em tempo real. A lógica do espetáculo, da polêmica e da exposição constante substitui a experiência comum por uma arena de combate simbólico e esvaziamento subjetivo. Assiste-se à degradação do outro como entretenimento. É o preferível na Internet, e centenas de “blogs” prestam esse serviço…
É tempo de resistir! Resgatar o silêncio, resgatar o ócio e isolamento criadores, e resgatar a presença no cotidiano, com nossos corpos reais. Pensar e viver autenticamente exigem estar com os outros, com seus corpos, seus olhares, seus toques, seus risos…
Tudo isso configura uma forma contemporânea de servidão voluntária. Entrega-se livremente a um sistema de algoritmos, clicando, postando, consumindo e reagindo, como se não houvesse alternativa. O domínio não é imposto pela força, mas pelo desejo de pertencimento e pela ilusão de liberdade. Como escreveu o jovem Étienne La Boétie, no século XVI, servimos porque queremos — e desaprendemos a querer de outro modo.
É tempo de resistir! Resgatar o silêncio, resgatar o ócio e isolamento criadores, e resgatar a presença no cotidiano, com nossos corpos reais. Pensar e viver autenticamente exigem estar com os outros, com seus corpos, seus olhares, seus toques, seus risos… E, com amigos, tal como idealizou o filósofo Michel Foucault, fazer da amizade um modo de vida, em recorrentes encontros, em pequenas “festas”, sem olhar para os celulares… Afinal, nada é tão urgente!
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Alipio DeSousa Filho é professor e diretor do Instituto Humanitas UFRN










O texto é um bálsamo para que repensemos também o acúmulo de mensagens enviadas por e-mails pelas escolas e universidades nos finais de semana, mensagens que poderiam ser disparadas na segunda-feira solapam nossas caixas de entrada com avisos de prazos de editais, finalização de relatórios etc! Se a internet é o problema, a pergunta é! E nós o que estamos fazendo com ela nas nossas escolas e instituições? Estamos indo de ou ao encontro das mazelas da internet, seja em nossas relações de trabalho nas instituições publics de ensino e outros locais! O texto é um bálsamo, e se destaca mais ainda no campo da constatação do problema, contudo creio que precisamos cada um de nós fazermos algo, para contribui com essa avalanche de dependência e subordinação à internet e as redes sociais. Acredito que no nosso trabalho,poodemo evitar criar grupos e mais grupos no WhatsApp para discutir questões de trabalho, pois o e-mail já cumpre o seu caráter e papel institucional, assim como reivindicar que os gestores tenham consciência que domingo é dia de descanso, do ócio, assim como os feriados também, portanto não deveríamos permitir que fossem disparados avisos e mensagem para nós professores, servidores técnicos e alunos nesses dias! Talvez assim, possamos fazer um pouco por nós mesmos frente “ao está tudo dominado pela internet!