(Foto: divulgação)

Como bom recifense que sou, engenheiro eletricista pela UFPE e pai de Fernando não ousaria deixar de escrever sobre o Agente Secreto, um filme brasileiro, com sotaque de minha terra e cheiro do mangue das margens do Capibaribe, aquele mesmo rio que se junta ao Beberibe para criar o oceano Atlântico. A mania de grandeza do povo recifense vem de lutas do passado como a tentativa de independência do Brasil, que Pernambuco decretou por alguns dias (e que justifica a máxima “Pernambuco, meu país”). Mesmo assim, não  o fez imune aos golpes (e suas tentativas) que atacaram a cultura, ciência e a Universidade por todo o país.

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Depois dos dois prêmios do Globo de Ouro para filme em língua estrangeira e ator (Wagner Moura) surge a comprovação de que o mundo entendeu que para além do sotaque e das lendas urbanas (como a perna cabeluda) a peça cinematográfica não pertence apenas a uma cidade (apesar do doce pernambucanocentrismo que desloca o eixo das coisas sudestinas e norte americanas), mas sim a todo um povo que passa a compreender o potencial transformador da educação, cultura e arte. Não podemos deixar de citar o brilho de “Ainda Estou Aqui” no ano anterior e a correlação entre os temas, que buscam, de forma visceral, ressaltar o poder das memórias para um povo.

Bate e assopra

O Brasil tem vivido inúmeras sequências de golpes e anistias ao longo de sua história, e os filmes premiados vêm alertar que esta sequência de “bate e assopra” precisa ter um fim. Para cada anistiado havia um Fernando que sabia menos da vida do pai Marcelo do que uma estudante de história… Para cada anistiado, sempre houve mais de uma família em busca de notícias de um parente desaparecido, como tão bem caracterizado na vida de Eunice Paiva.

E, para ter noção da dimensão desse processo, basta trazer à memória a vala clandestina de Perus, em São Paulo. Estas foram vidas apagadas, sem direito a uma nota no canto do jornal, ou cantadas em tons de sensacionalismo que tocam nos programas de rádio de notícias policiais, esquecidas antes mesmo dos anúncios comerciais.

Já que o contexto é o de Recife, ainda hoje vejo pelas ruas pessoas almoçando ao som de notícias policiais em volume máximo, como se estivessem a cortar o chambaril do vizinho. E é com este sentimento estranho que saí da sala de projeção, com uma angústia reprimida por torcer por Marcelo até o fim e, junto com ele, ser vencido pelo sistema. E a ousadia do processo cinematográfico é mexer com sentimentos tão distantes, como o da alegria do carnaval pernambucano, e com as injustiças de cada dia, nos fazendo entender que pão e festa são também armas da política. Aliás, 2026 é ano de eleição, da Copa do Mundo e de feriados prolongados. Pão e festa. Com moderação e com muitas memórias.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência

P.S.: Sugestão da editora

Além do recifense Helinando Oliveira, a cearense Cellina Muniz também teve o filme O Agente Secreto como inspiração para um texto publicado aqui no portal Nossa Ciência. Vale a leitura: Nomes e mais nomes