(Ambulatório FACS UERN - Foto Assecom / UERN)

Faculdades públicas dominam Enamed; curso privado tem nota insatisfatória

Ao acessar o site da Faculdade de Enfermagem Nova Esperança de Mossoró (Facene), o leitor verá um banner que informa que o curso de Medicina tem nota máxima no MEC, com o algarismo 5 em destaque. No entanto, na avaliação feita pelo Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), os estudantes desse curso obtiveram nota 2. Trata-se da mesma faculdade em que, recentemente, um adolescente participou da festa de formatura dos futuros médicos usando um uniforme nazista.

No Rio Grande do Norte, seis faculdades de medicina foram avaliadas. Duas alcançaram a nota máxima e ambas são da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A nota 4, ficou para a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), ambas em Mossoró e a Universidade Potiguar (UNP), que é privada. O único curso considerado insatisfatório foi o da Facene.

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Nota máxima

O desempenho do curso da Escola Multicampi de Ciências Médicas (EMCM/UFRN), sediado em Caicó, está diretamente ligado à política de interiorização da formação médica implementada a partir de 2014, no contexto do Programa Mais Médicos. Segundo o diretor da unidade, George Azevedo Dantas, o projeto nasceu com o objetivo de reduzir desigualdades regionais históricas no acesso à formação médica. “Estamos falando de um movimento nacional que buscou ampliar vagas, fortalecer o SUS e levar a formação médica para o interior do país, com forte integração à rede de saúde local”, explica.

Alunos da UFRN em aula (Foto: Cícero Oliveira – Agecom / UFRN)

Ao longo de 11 anos, a EMCM se consolidou como um polo de formação em saúde no Seridó, ofertando não apenas a graduação em Medicina, mas também programas de Residência Médica em Clínica Médica, Cirurgia e Medicina de Família e Comunidade, além de residências multiprofissionais e um mestrado profissional. Para Dantas, a nota 5 no Enamed representa o reconhecimento de um projeto pedagógico inovador, construído coletivamente. “Esse resultado reflete o trabalho cotidiano de docentes, técnicos, estudantes, gestores da saúde e da própria comunidade, que abraçou a Escola e ajudou a construir essa experiência no interior do estado”, afirma.

O coordenador do curso de Medicina mais antigo do Estado, André Gustavo Pires de Sousa, também ressalta o caráter coletivo do resultado. A Faculdade de Medicina da UFRN foi criada há 70 anos, em 1955, em Natal. Ele lembra que menos de 50 dos mais de 350 cursos avaliados no país atingiram a nota máxima. “É um desempenho excepcional, que envolve desde a administração central da universidade até professores, técnicos, estudantes e trabalhadores terceirizados. Cada um teve papel fundamental para que esse resultado fosse alcançado”, avalia.

Sousa aponta que o conceito máximo atribuído pelo Enamed reafirma o papel estratégico da UFRN no desenvolvimento do Rio Grande do Norte. “A universidade devolve à sociedade médicos e médicas com formação sólida, preparados para os desafios do mercado de trabalho e, sobretudo, comprometidos com a saúde e o bem-estar da população”, destaca. Ele acrescenta que o reconhecimento fortalece a credibilidade institucional e garante aos estudantes um ambiente de ensino de alta qualidade.

Quase lá

Além da UFRN, a Ufersa também apresentou desempenho expressivo, alcançando nota 4 no exame. Criado em 2016, o curso integra o conjunto de escolas médicas implantadas a partir da expansão promovida pela Lei do Mais Médicos. De acordo com a diretora do curso, Andrea Taborda Ribas da Cunha, o resultado foi recebido com entusiasmo. “Tivemos 89,2% dos estudantes com proficiência, chegando muito perto da nota 5. Consideramos esse desempenho excelente e um forte indicativo da qualidade da formação oferecida”, afirma.

Andrea Cunha (Foto: Eduardo Mendonça – Assecom / Ufersa)

Cunha destaca que o curso adota metodologias ativas, com inserção dos estudantes na comunidade desde os primeiros períodos, o que contribui para um perfil profissional mais humanizado e alinhado às necessidades do SUS. “Nossos alunos vivenciam a rede de saúde desde cedo, compreendem melhor as demandas da população e desenvolvem maior proatividade na resolução de problemas”, explica. Segundo ela, o bom desempenho dos egressos em programas de residência médica em todo o país reforça a efetividade do modelo adotado.

Apesar dos avanços, a diretora aponta desafios permanentes, como a ampliação de campos de estágio, o fortalecimento das parcerias com a rede de saúde e a expansão da pós-graduação em residência médica. A Ufersa, inclusive, teve recentemente aprovado seu primeiro programa de residência médica, em Pediatria, com início previsto para 2027. “Manter a qualidade exige acompanhamento constante, investimentos e adaptação às novas diretrizes curriculares”, ressalta.

A UERN, cuja Faculdade de Ciências da Saúde foi criada em 2004 — a primeira escola médica de Mossoró —, também obteve nota 4 no Enamed. Para a diretora da unidade, Allyssandra Maria Lima Rodrigues, o resultado é motivo de comemoração e responsabilidade. “Temos mais de 625 médicos formados e, nesta avaliação, mais de 90% dos nossos estudantes atingiram proficiência. Isso mostra a seriedade do trabalho que vem sendo desenvolvido”, afirma.

Alyssandra Rodrigues (Foto: Assecom / UERN)

Ela ressalta o fortalecimento institucional da UERN, que atualmente conta com três programas de residência médica — em Ginecologia e Obstetrícia, Medicina de Família e Comunidade e, em breve, Clínica Médica — além de programas de mestrado e doutorado. Entre as dificuldades enfrentadas, ela aponta a disputa por campos de estágio, diante do crescimento do número de escolas médicas no país. “Apesar disso, conseguimos manter a qualidade por meio de parcerias com hospitais municipais, estaduais e federais”, observa.

Nordeste

Realizado pelo Ministério da Educação (MEC), o Enamed avaliou 351 cursos de Medicina em todo o país. Desse total, 86 escolas estão localizadas na Região Nordeste. A observação dos números aponta que 16% das instituições nordestinas obtiveram nota 5 (14 cursos); 36%, nota 4 (31 cursos); 17%, nota 3 (15 cursos); e 30%, nota 2 (29 cursos). Esse último percentual equivale a 7,12% do total nacional, índice inferior ao registrado na Região Sudeste, que apresentou 8,26% de cursos com nota 2.

Estudantes de Medicina da Ufersa (Foto: Eduardo Mendonça – Assecom / Ufersa)

Das 14 notas máximas (5) obtidas no NE, uma é privada (CE), 5 estaduais (BA, CE e PE) e 8 federais (BA, CE, PE, RN E SE). Nenhuma instituição sediada nos estados da PB, AL, MA e PI obtiveram nota 5.

Das 14 notas máximas (5) obtidas no Nordeste, oito a instituições federais (na Bahia, no Ceará, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte e em Sergipe), cinco a instituições estaduais (na Bahia, no Ceará e em Pernambuco) e uma corresponde a uma instituição privada (no Ceará). Percentualmente, esses números repetem-se no plano nacional.  Nenhuma instituição sediada nos estados da Paraíba, Alagoas, Maranhão e Piauí obteve nota 5.

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