Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) reforçaram o protagonismo das instituições públicas de ensino superior do Rio Grande do Norte na formação médica. Das seis faculdades de Medicina avaliadas no estado, apenas universidades públicas alcançaram conceitos considerados satisfatórios ou de excelência, com destaque para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), única instituição potiguar a obter a nota máxima (5) no exame.
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Entre os cursos responsáveis por esse desempenho está o da Escola Multicampi de Ciências Médicas (EMCM/UFRN), sediada em Caicó. Implantado no contexto das políticas nacionais de expansão e interiorização do ensino médico, o curso está diretamente associado ao Programa Mais Médicos, lançado em 2014, e à estratégia da UFRN de levar formação de excelência para o interior do estado, com forte integração ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Quando universidade, sistema de saúde e território caminham juntos, os resultados aparecem — na formação e na vida real. (George Dantas)
A seguir, confira a entrevista concedida pelo diretor da EMCM/UFRN, George Azevedo Dantas, ao Portal Nossa Ciência, por mensagem de texto:
Nossa Ciência: O curso de Medicina da UFRN em Caicó foi criado em qual contexto político e institucional e como esse projeto evoluiu ao longo dos últimos anos?

George Dantas: O Curso de Medicina da UFRN na EMCM, sediado em Caicó, iniciou suas atividades em julho de 2014. É importante situar esse marco no contexto histórico e político de um movimento nacional de ampliação de vagas e de fortalecimento da formação médica voltada ao SUS, associado às políticas de interiorização da formação e do trabalho médico. Estamos falando do Programa Mais Médicos para o Brasil, implementado durante o governo da presidenta Dilma Rousseff. No caso da UFRN, essa iniciativa se alinhou diretamente ao plano de interiorização da universidade, levando a formação médica para o interior do estado, com forte integração à rede de saúde local e compromisso com a qualificação e a fixação de profissionais em regiões historicamente marcadas pela escassez de médicos. Ao longo dos últimos 11 anos, a EMCM cresceu significativamente e hoje oferta, além das 50 vagas anuais no curso de graduação em medicina, 3 programas de Residência Médica (Clínica Médica, Cirurgia e Medicina de Família e Comunidade), 2 programas de Residência Múltiprofissional (Atenção Básica e Saúde Materno-Infantil) e um programa de Mestrado profissional.
Quando o Estado decide investir em educação e reduzir desigualdades, o talento aparece — porque ele sempre esteve lá. (George Dantas)
NC: Que significado o senhor atribui à nota máxima obtida pelo curso no Enamed?
GD: A nota 5 é o conceito máximo que um curso de graduação pode alcançar e sinaliza que o curso está entre os de melhor desempenho nacional no indicador utilizado pelo MEC/Inep para avaliar a formação médica. No caso específico, os dois cursos de Medicina da UFRN — Natal e Caicó — obtiveram conceito Enade 5 com base no Enamed. Para nós, esse resultado tem dois sentidos complementares. Primeiro, é um indicador e um reconhecimento objetivo de que um projeto pedagógico arrojado e inovador, a integração com as comunidades e com os cenários do SUS, e a trajetória formativa do estudante estão produzindo uma formação sólida. Segundo — e talvez mais importante — é um resultado coletivo: reflete o trabalho cotidiano e comprometido de toda a comunidade acadêmica da UFRN — docentes, técnicos e estudantes — e também dos gestores e trabalhadores da saúde das instituições parceiras, que acolhem nossos estudantes e sustentam os cenários de prática. Inclui, ainda, a comunidade do Seridó, que abraçou a Escola, abriu suas portas e ajudou a construir esse projeto de formação médica no interior do estado.
NC: Considerando que apenas a UFRN alcançou a nota máxima no Rio Grande do Norte, que leitura esses dados permitem fazer sobre a formação médica no estado e o perfil dos futuros profissionais?
GD: Esses dados revelam mensagens muito importantes para a sociedade — e têm, sim, um conteúdo político no melhor sentido da palavra: o de escolhas públicas capazes de ampliar direitos, reduzir desigualdades e criar oportunidades.
Primeiro, eles mostram que é plenamente possível oferecer formação médica de excelência fora dos grandes centros urbanos, com qualidade equivalente à de cursos tradicionais e consolidados. Isso fica especialmente evidente quando observamos os cursos criados e interiorizados no contexto do Programa Mais Médicos: nesta primeira edição do Enamed, a grande maioria desses cursos alcançou conceitos 4 ou 5, reforçando que a qualidade pode — e deve — estar presente em todo o território quando há política pública, planejamento e compromisso institucional. Isso fortalece a ideia de interiorização com qualidade, reduzindo desigualdades regionais e ampliando o acesso a uma formação de alto nível.
Segundo, os resultados deixam claro que desempenho consistente em avaliações nacionais não acontece por acaso: depende de um projeto pedagógico coerente, de integração real com a rede do SUS e de parcerias sólidas com os serviços e com as comunidades. Quando universidade, sistema de saúde e território caminham juntos, os resultados aparecem — na formação e na vida real.
A nota 5 não é ponto de chegada: é um sinal forte de que estamos no caminho certo — e um compromisso de manter e ampliar essa qualidade. (George Dantas)
Por fim, esses dados apontam para uma agenda de futuro que o país precisa encarar com seriedade: potencial humano existe em todo lugar, inclusive no interior. O que muitas vezes falta são políticas públicas estáveis, investimento continuado e oportunidades concretas. Interiorizar com qualidade exige financiamento, infraestrutura, valorização de docentes e preceptores, fortalecimento da rede assistencial e condições para que jovens do interior ingressem, permaneçam e se formem com excelência. Em outras palavras: quando o Estado decide investir em educação e reduzir desigualdades, o talento aparece — porque ele sempre esteve lá.
Sobre o que esperar dos futuros médicos, a expectativa é de profissionais bem formados tecnicamente, com raciocínio crítico e capacidade de decisão clínica, mas também com responsabilidade social, preparados para trabalhar em equipe e com compreensão das necessidades do território e do SUS. A nota 5 não é ponto de chegada: é um sinal forte de que estamos no caminho certo — e um compromisso de manter e ampliar essa qualidade.
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