Entre a incerteza e a metamorfose: os riscos que moldam o nosso futuro

O presente texto nasce da provocação inicial feita a partir da leitura crítica do Global Risks Report 2026, recentemente publicado pelo Fórum Econômico Mundial, e da reflexão sobre como seus achados dialogam com a teoria da sociedade de risco de Ulrich Beck (1944 – 2015). Nosso objetivo é interpretar o relatório não apenas como um inventário técnico de ameaças, mas como um documento que revela a metamorfose da modernidade e suas implicações para países como o Brasil. A metodologia de leitura adotada combina a análise empírica dos dados apresentados — estatísticas, rankings e percepções nacionais — com uma interpretação sociológica crítica, que busca compreender os riscos como construções sociais e políticas, inseparáveis das relações de poder e das desigualdades globais.

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O Global Risks Report é produzido anualmente desde 2006 (esta é a sua 21ª edição), e conta com a colaboração de uma ampla rede de parceiros institucionais e especialistas, incluindo Marsh, Zurich Insurance Group e universidades de referência. O relatório se baseia em uma pesquisa de percepção que envolveu mais de 1.300 líderes e especialistas de diferentes setores e regiões do mundo, além de consultas nacionais que captam riscos específicos em cada país. Seu objetivo prático é oferecer subsídios para governos, empresas e sociedade civil na formulação de estratégias de mitigação e adaptação, enquanto simbolicamente reafirma o papel do Fórum Econômico Mundial como espaço de articulação global. Ao longo de duas décadas, o relatório tornou-se referência internacional, repercutindo em agendas políticas, econômicas e ambientais, e consolidando-se como um dos principais instrumentos de diagnóstico sobre os desafios que moldam o futuro da humanidade.

Futuro sombrio

O Relatório de Riscos Globais revela, inicialmente, que 50% dos entrevistados acreditam que o futuro próximo será turbulento ou tempestuoso, e esse número cresce para 57% quando projetado para dez anos. Apenas 1% dos respondentes vislumbra um cenário calmo. A competição geoeconômica foi identificada como o risco mais severo para 2026, com 18% dos respondentes apontando-a como potencial desencadeadora de uma crise global. Conflitos armados entre Estados aparecem em segundo lugar, com 14%. Essa hierarquia evidencia que os riscos não são apenas ambientais ou tecnológicos, mas profundamente políticos e econômicos,  como o sociólogo Urick Beck já alertava em sua obra: os riscos globais não respeitam fronteiras e a lógica da competição, ao invés de gerar prosperidade, intensifica vulnerabilidades e amplia a insegurança coletiva.

A ausência de sentido na vida é um risco fabricado pela modernidade reflexiva, e os dados mostram que a crise de identidade é tão grave quanto a crise econômica.

Os riscos econômicos ganharam destaque ao subir várias posições na classificação. O risco de recessão, por exemplo, avançou oito posições e ocupa agora o 11º lugar, enquanto a inflação subiu para o 21º. A dívida global alcançou US$ 251 trilhões em 2024, representando 235% do PIB mundial. Nos Estados Unidos, a dívida pública deve saltar de 100% do PIB em 2025 para 120% em 2035. No campo tecnológico, os dados são ainda mais reveladores. A desinformação ocupa o segundo lugar entre os riscos de curto prazo, enquanto a insegurança cibernética aparece em sexto. Os resultados adversos da inteligência artificial saltaram da 30ª posição para o 5º lugar nas preocupações de longo prazo. O mercado global de IA deve crescer de US$ 280 bilhões em 2024 para US$ 3,5 trilhões em 2033. Esses números mostram que a metamorfose do mundo, descrita por Beck, já está em curso: não se trata apenas de mudanças incrementais, mas de transformações radicais que alteram identidades, mercados de trabalho e formas de vida.

A polarização social e política aparece como risco persistente, com a desigualdade sendo identificada como o mais interconectado entre todos os riscos. A pesquisa mostra que a falta de oportunidades econômicas é o risco mais citado em 27 países, refletindo tensões que atravessam fronteiras. Aqui, trazemos Beck novamente com sua fala da “classe de risco”, composta por grupos que sofrem os efeitos colaterais da modernidade sem participar das decisões que os produzem. Os dados do relatório confirmam essa exclusão estrutural, onde os mais vulneráveis são atingidos de forma desproporcional.

Os riscos ambientais, embora tenham caído na percepção de curto prazo, permanecem severos a longo prazo. Eventos climáticos extremos, que ocupavam a 2ª posição, caíram para a 4ª em 2026, mas voltam a ser o risco mais grave em 2036. A perda de biodiversidade e as mudanças críticas nos sistemas da Terra também aparecem entre os principais riscos de longo prazo. Essa oscilação confirma a invisibilidade estratégica dos riscos ambientais, denunciada por Beck, mas também mostra que, inevitavelmente, eles se tornam centrais na sociedade de risco mundial.

A emergência de uma nova ordem competitiva é outro achado relevante. Em dez anos, 68% dos entrevistados acreditam que o ambiente político global será multipolar ou fragmentado. Essa percepção confirma a crítica de Beck ao “nacionalismo metodológico” e sua defesa do “cosmopolitismo metodológico”. Sem cooperação internacional, a multipolaridade se transforma em fragmentação, incapaz de enfrentar riscos globais que exigem respostas coletivas. O relatório mostra que a fragmentação política aumenta a incerteza e reduz a capacidade de ação coordenada.

A infraestrutura crítica é apontada como vulnerável, pressionada por eventos climáticos extremos e pela falta de investimentos. Nos países da OCDE, a infraestrutura envelhecida requer manutenção urgente, enquanto 45% da dívida soberana vencerá entre 2025 e 2027, exigindo refinanciamento significativo. Essa interdependência entre setores de infraestrutura pode gerar falhas em cascata. As tecnologias quânticas são apresentadas como avanços com riscos significativos. Segundo o relatório, 53% dos especialistas acreditam que a computação quântica pode ameaçar a criptografia clássica em uma década. A corrida por liderança nesse campo pode exacerbar desigualdades digitais e tensões geopolíticas.

Crise de identidade

Os impactos da IA no mercado de trabalho são descritos no relatório como disruptivos. Estima-se que 170 milhões de novos empregos serão criados até 2030, mas 92 milhões serão eliminados, resultando em um saldo líquido de 78 milhões. No entanto, uma visão mais negativa sugere que até 50% dos empregos de nível inicial nos EUA podem ser eliminados em cinco anos, elevando o desemprego para 10-20%. A crise de identidade e propósito, mencionada no relatório, é consequência direta da automação. A desocupação prolongada pode levar a problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade. A renda básica universal é discutida como solução, mas Beck nos lembra que os riscos não são apenas materiais, mas também simbólicos. A ausência de sentido na vida é um risco fabricado pela modernidade reflexiva, e os dados mostram que a crise de identidade é tão grave quanto a crise econômica.

O uso militar da IA é outro risco crescente. O relatório mostra que a integração da IA em operações militares pode aumentar a possibilidade de erros e abusos, tornando o mundo mais perigoso. Beck fala da “irresponsabilidade organizada” que permite que tecnologias sejam adotadas sem plena avaliação de seus efeitos. A rápida adoção da IA militar confirma que a sociedade de risco mundial está cada vez mais exposta a ameaças fabricadas.

A questão central não é mais apenas produzir riqueza, mas lidar com os riscos que essa produção inevitavelmente gera, no capitalismo global.

A governança multilateral aparece como essencial para enfrentar riscos globais. O relatório mostra que coalizões de países dispostos podem avançar em áreas específicas de comércio e investimento, mas a transparência e a consulta pública são fundamentais. Beck insiste que apenas uma perspectiva cosmopolita pode dar conta dos males globais. A ausência de cooperação internacional, confirmada pelo relatório, intensifica a vulnerabilidade coletiva e compromete a capacidade de resposta, na compreensão dos líderes.

Os dados sobre dívida, inflação, desinformação e riscos ambientais mostram que a sociedade industrial, que antes se legitimava pela promessa de progresso, agora se vê confrontada com os males fabricados por seu próprio sucesso. Beck descreve essa transição como uma metamorfose: não apenas mudança, mas transformação radical. A questão central não é mais apenas produzir riqueza, mas lidar com os riscos que essa produção inevitavelmente gera, no capitalismo global.

Preocupações do Brasil e da América Latina

O Global Risks Report 2026 inclui evidências específicas sobre o Brasil e a América Latina, mas de forma indireta e agregada. A metodologia utilizada pelo Fórum Econômico Mundial combina a pesquisa global de percepção de riscos com a Executive Opinion Survey: National Risk Perceptions, que recolhe dados de líderes empresariais e especialistas em diferentes países. Essa seção, apresentada no Apêndice C, permite observar como os riscos globais se manifestam em contextos nacionais, revelando preocupações particulares que, embora alinhadas às tendências mundiais, possuem singularidades regionais. No caso brasileiro e latino-americano, os dados não aparecem isolados em capítulos próprios, mas integrados à análise comparativa das percepções nacionais.

A leitura dos achados sobre o Brasil e a América Latina exige atenção a essa dimensão metodológica, pois os riscos destacados refletem tanto a realidade local quanto a interconexão com dinâmicas globais. No Brasil, os executivos apontaram como principais ameaças a inflação, a falta de oportunidades econômicas e a desigualdade social, riscos que dialogam diretamente com a polarização política e a fragilidade institucional. Na América Latina, países como México, Argentina e Chile também destacaram a desigualdade e a recessão econômica, além de eventos climáticos extremos, mostrando que a região compartilha preocupações estruturais que se conectam com os grandes temas do relatório.

Não há futuro seguro sem políticas robustas de mitigação e adaptação climática.

O Apêndice C é fundamental para compreender essas especificidades, pois nele se observa como os riscos globais se traduzem em percepções nacionais. No Brasil, por exemplo, a inflação e a falta de oportunidades aparecem como riscos imediatos, enquanto na América Latina como um todo há maior ênfase em desigualdade e instabilidade política. Essa comparação regional evidencia que, embora os países compartilhem vulnerabilidades comuns, cada contexto nacional apresenta nuances próprias. A análise mostra que os riscos econômicos e sociais são mais agudos na região do que em outras partes do mundo, reforçando a ideia de Beck sobre a “classe de risco” global.

As evidências empíricas reforçam essa leitura: 27 países identificaram a falta de oportunidades econômicas como risco mais citado, e o Brasil está entre eles. Além disso, 58% dos respondentes globais apontaram preocupação com desinformação, percepção que na América Latina é ainda mais intensa devido à fragilidade das instituições democráticas. Os eventos climáticos extremos, embora tenham caído na classificação global, continuam sendo apontados como ameaças relevantes na região, especialmente em áreas vulneráveis a secas e enchentes. Esses dados mostram que Brasil e América Latina exemplificam de forma clara a sociedade de risco mundial descrita por Beck, onde os males fabricados pela modernidade se distribuem de forma desigual, mas inevitavelmente atingem todos.

Mitigação e adaptação climática

Como mostramos, o Global Risks Report 2026 sinaliza uma agenda marcada pela urgência em enfrentar riscos interconectados que vão além das fronteiras nacionais, com destaque para a crise climática. O relatório afirma explicitamente que eventos climáticos extremos permanecem como o risco mais grave em horizontes de dez anos, mesmo quando em curto prazo aparecem em posições secundárias. Essa evidência mostra que, embora a atenção imediata esteja voltada para conflitos geoeconômicos e tecnológicos, a agenda estrutural é ambiental. Para o Brasil, país que já enfrenta secas prolongadas na Amazônia e enchentes devastadoras no Sul, essa sinalização é clara: não há futuro seguro sem políticas robustas de mitigação e adaptação climática.

Ao mesmo tempo, o relatório sugere, ainda que de forma indireta, que a agenda precisa ser cosmopolita e multilateral. A fragmentação política e o declínio do multilateralismo são apontados como riscos que dificultam a ação coletiva. Para o Brasil e a América Latina, isso significa que não basta tratar a mudança climática como problema interno; é necessário construir coalizões regionais e globais capazes de enfrentar os impactos de forma coordenada. A agenda implícita é de governança compartilhada, onde o país deve assumir protagonismo na defesa de mecanismos multilaterais, ao mesmo tempo em que fortalece sua capacidade doméstica de resposta.

O relatório sugere que o novo projeto civilizatório deve integrar sustentabilidade, inclusão e governança democrática.

O relatório também sinaliza que o Brasil precisa alinhar sua agenda climática às dimensões sociais e econômicas. A desigualdade, como já destacado, aparece como o risco mais interconectado, e no caso brasileiro, ela se manifesta na vulnerabilidade das populações periféricas e tradicionais diante de desastres ambientais. A agenda, portanto, não é apenas de transição energética ou de redução de emissões, mas de justiça socioambiental. O relatório sugere que o novo projeto civilizatório deve integrar sustentabilidade, inclusão e governança democrática. Para o Brasil, isso significa transformar a crise climática em oportunidade de reindustrialização verde e fortalecimento da coesão social, rompendo com a lógica da irresponsabilidade organizada que Beck tão bem descreveu.

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Cidoval Morais de Sousa é professor e pesquisador do quadro permanente do PPGDR e PPGECEM da UEPB, colaborador do PPGCT (UFSCar) e pesquisador visitante do IE Unicamp. É Secretário Regional da SPBC (PB).

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