A era da extração

A noção de “era da extração”, formulada por Tim Wu em The Age of Extraction, recém lançado pela Knopf Publishing Group, descreve um estágio do capitalismo em que plataformas digitais se tornam máquinas altamente eficientes de captura de valor, atenção e dados. Para Wu, não se trata apenas de monopólios tradicionais, mas de uma forma de poder que reorganiza mercados inteiros, impondo regras, tarifas e dependências que drenam riqueza de usuários, trabalhadores e empresas menores. A extração, nesse sentido, é um princípio estrutural: plataformas não apenas intermediam, mas moldam comportamentos e condições de troca para maximizar sua própria captura. Essa tese central coloca o digital como um novo regime econômico, no qual a assimetria informacional e a centralização algorítmica substituem a concorrência aberta.

Considere contribuir com esse projeto de divulgação científica. Faça um pix para contato@nossaciencia.com

Tim Wu é um jurista e acadêmico sino‑americano, professor de Direito na Columbia University e uma das vozes mais influentes nos debates sobre tecnologia, concorrência e regulação das plataformas digitais. Sua trajetória combina produção intelectual, atuação pública e intervenção política: foi conselheiro especial do governo dos Estados Unidos para políticas de tecnologia e antitruste (entre 2021 e 2023), além de autor de obras de grande impacto como The Master Switch e The Attention Merchants. Em 2003 provocou um grande debate nos Estados Unidos ao cunhar e defender o conceito de neutralidade da rede, como resposta ao risco de que operadoras de telecomunicações discriminassem tráfego na internet, favorecendo seus próprios serviços ou parceiros comerciais.

Matéria-prima para acumulação privada

O conceito defende que provedores devem tratar todo o tráfego de forma igual, sem bloqueio, priorização paga ou degradação de conteúdo. Essa formulação surge no contexto da expansão da banda larga e da tentativa de empresas de telecomunicações de controlar o fluxo de dados, ameaçando a abertura que caracterizou a internet desde sua origem. A neutralidade da rede tornou-se rapidamente um princípio regulatório central, influenciando legislações, decisões de agências reguladoras e ajudou a moldar políticas públicas, debates acadêmicos e movimentos sociais em defesa de uma internet aberta em vários.

O conceito de extração,  objeto desta resenha, embora inspirado em metáforas da mineração e do petróleo, ganha em Wu um sentido mais amplo: trata-se da capacidade de transformar cada interação — clique, deslocamento, compra, postagem — em matéria-prima para acumulação privada. Essa lógica se liga a fenômenos como vigilância comportamental, tarifação invisível, dependência infraestrutural e precarização do trabalho mediado por aplicativos. A extração não é apenas econômica, mas cognitiva e temporal: plataformas capturam atenção, modulam desejos e condicionam escolhas. Assim, a economia digital se torna um ecossistema em que todos participam, mas poucos realmente lucram.

Mais desigualdades

O novo livro de Wu se organiza em torno de três movimentos: a genealogia das plataformas, a anatomia dos mecanismos de extração e as consequências sociais e políticas desse modelo. Ele revisita casos históricos — AT&T, IBM, redes de telecomunicação — para mostrar que a lógica de controle de infraestrutura não é nova, mas se intensifica com o digital. Em seguida, disseca como plataformas contemporâneas configuram mercados: definem preços, controlam visibilidade, impõem taxas e criam dependências. Por fim, discute os impactos: desigualdade crescente, concentração de poder e erosão de autonomia individual e coletiva.

Entre a incerteza e a metamorfose: os riscos que moldam o nosso futuro

Esse livro dialoga diretamente com outras obras de Tim Wu, especialmente The Attention Merchants, em que ele analisa como empresas historicamente capturam e vendem atenção humana. Se naquele livro a atenção era o recurso central, em The Age of Extraction ela se torna apenas um dos elementos de um sistema mais abrangente de captura. A trajetória intelectual de Wu mostra uma continuidade: da crítica à publicidade invasiva, passando pela defesa da neutralidade da rede, até chegar à denúncia de um capitalismo de plataformas que opera como uma nova forma de feudalismo digital. Wu articula direito, economia e tecnologia para mostrar que a arquitetura das plataformas é inseparável de seus efeitos sociais.

A tese da extração também conversa com debates contemporâneos sobre o “capitalismo de vigilância”, formulado por Shoshana Zuboff. Enquanto Zuboff enfatiza a captura de dados e a modelagem comportamental, Wu amplia o foco para incluir mecanismos econômicos e infraestruturais de captura de renda. Ambos convergem na ideia de que o digital produz novas formas de poder privado, mas Wu enfatiza mais a dimensão de mercado e menos a psicopolítica. Já Nick Srnicek, em Platform Capitalism, descreve plataformas como intermediárias que se tornam indispensáveis; Wu aprofunda essa ideia ao mostrar como elas passam de intermediárias a governantes de mercados.

Outra aproximação importante é com Capitalismo Canibal, de Nancy Fraser e outros autores, que argumentam que o capitalismo contemporâneo devora suas próprias condições de existência — trabalho, natureza, democracia. A era da extração, nesse sentido, seria uma manifestação digital desse canibalismo: plataformas consomem atenção, tempo, renda e autonomia, corroendo a base social que sustenta a própria economia. Wu não usa essa linguagem, mas sua análise converge com a ideia de que o capitalismo atual opera por exaustão e não por equilíbrio. A extração digital é, portanto, parte de um processo mais amplo de esgotamento sistêmico.

O livro também se insere em uma tradição de obras que tentam nomear o estágio atual do capitalismo: “capitalismo de dados”, “capitalismo algorítmico”, “capitalismo de plataformas”, “capitalismo de vigilância”, “era da automação”, “era da atenção”. A contribuição de Wu é propor um termo que captura a lógica comum a todas essas formulações: a extração como princípio organizador. Em vez de focar apenas em dados, algoritmos ou vigilância, ele identifica um padrão transversal: a capacidade de plataformas de transformar relações sociais em fluxos contínuos de renda. A “era da extração” funciona, assim, como um guarda-chuva conceitual.

Plataformas controlam fluxos

As consequências desse modelo são profundas. Wu argumenta que a economia digital cria uma sociedade de duas camadas: de um lado, os proprietários das plataformas, que acumulam lucros extraordinários; de outro, trabalhadores e pequenos negócios que se tornam dependentes de sistemas que não controlam. A extração também afeta a democracia, pois plataformas controlam fluxos de informação e podem moldar debates públicos. Além disso, a concentração de poder econômico se traduz em poder político, dificultando regulações e perpetuando desigualdades. A promessa inicial da internet — descentralização, autonomia, diversidade — é substituída por um regime de controle privado.

Ciência brasileira: complexidade e assimetrias

A recepção crítica do livro tem destacado sua clareza e sua capacidade de sintetizar debates complexos em uma narrativa acessível. Muitos elogiam Wu por oferecer um diagnóstico contundente sem recorrer ao catastrofismo, e por propor caminhos regulatórios concretos, como limites à integração vertical, regras de conduta para plataformas dominantes e fortalecimento de direitos de usuários e trabalhadores. Críticos mais céticos argumentam que Wu ainda confia demais na capacidade do Estado de regular gigantes digitais e subestima a dimensão global do problema, especialmente em países com instituições frágeis. Ainda assim, o consenso é que o livro é, de fato, referência imediata no debate sobre regulação tecnológica.

Por fim, The Age of Extraction se destaca por articular economia política, direito e crítica cultural em um momento em que a sociedade tenta compreender o impacto das plataformas em todos os aspectos da vida. Ao nomear a “era da extração”, Wu oferece não apenas um diagnóstico, mas uma lente interpretativa para entender o presente. Seu argumento é que, se não forem contidas, as plataformas transformarão a economia em um sistema de pedágios privados, drenando prosperidade e autonomia. O livro, portanto, não é apenas uma análise, mas um chamado à ação: repensar o papel das plataformas e reconstruir mercados que funcionem para a maioria, não para poucos.

Uma doação de R$ 10,00 já faz uma grande diferença! Nossa chave Pix é contato@nossaciencia.com

Cidoval Morais de Sousa é professor e pesquisador do quadro permanente do PPGDR e PPGECEM da UEPB, colaborador do PPGCT (UFSCar) e pesquisador visitante do IE Unicamp. É Secretário Regional da SPBC (PB).