O escritor Thomas Mann, no conto Tobias Mindernickel (presente na coletânea “Contos”, publicada pela Companhia das Letras e com tradução de Claudia Abeling e Herbert Caro), narra uma história que, como se pode ler textualmente, é infame: o protagonista, um homem misantropo, solitário e infeliz, decide adquirir um cão, a quem dá o nome de Esaú. A relação entre os dois parece ser um alegre encontro de almas até que, com os dias, o que há de “sombrio” no personagem Tobias vai aos poucos vindo à tona. Eis um doloroso trecho do conto de Mann:
O que aconteceu em seguida foi tão incompreensível e infame que me recuso a contar com detalhes. Tobias Mindernickel estava com os braços ao longo do corpo e um pouco curvado para a frente, os lábios bem fechados e os globos oculares tremiam assustadoramente em suas cavidades. E então, de repente, com um tipo de salto alucinado, pegou o animal, um objeto grande e reluzente brilhava em sua mão, e com um corte, que foi da escápula direita até bem abaixo do peito, o cachorro caiu no chão – sem emitir qualuqe som; apenas caiu de lado, sangrando e tremendo…
Quem dera tal cena ficasse restrita às páginas da ficção e da literatura. Mas a literatura diz o mundo e o mundo, como diz a história, pode ser um lugar bem cinza.
Maldade gratuita
Que o diga o cão Orelha, cuja vida tranquila de cão comunitário foi ceifada neste mês de janeiro por conta da violência infligida, pelo que parece, menos por psicopatia e mais por maldade gratuita mesmo.
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Infelizmente, a violência contra animais é tão antiga como o ser humano na Terra. A velha cantiga infantil, “atirei o pau no gato-tô, mas o gato-tô não morreu-reu-reu. Dona Chica-ca, admirou-se-se, do berrô, do berrô que o gato deu!” não nos deixa mentir que há bem pouco tempo, os outros animais eram vistos na sociedade humana como inferiores, utilitários, passíveis de dominação, poder e, sobretudo, de gozo. Expressão essa que não está aqui associada ao prazer sexual, mas guiando-se no que pensava o psiquiatra e psicanalista Jacques Lacan: o gozo ligado a uma satisfação no excesso, na violência e na perversidade que leva ao sofrimento alheio.
Perversão
No livro “A parte obscura de nós mesmos”, da teórica psicanalista e biógrafa de Freud, Elisabeth Roudinesco, que trata da história da perversão no mundo, ela expõe a afirmação freudiana de que a perversão “é natural ao homem”. Inclusive, é umas das três estruturas clínicas, ligadas às ordens inconscientes do desejo, juntamente com a neurose e a psicose; assim ela explica essa natureza em determinado trecho da obra: “ninguém nasce perverso, torna-se um ao herdar, de uma história singular e coletiva em que se misturam educação, identificações inconscientes, traumas diversos”. E esse conjunto de situações tanto pode levar os sujeitos à rebelião, à superação e à sublimação, quanto pior, ao crime e à autodestruição. Roudinesco é ainda mais clara, na nossa compreensão, quando diz: “A perversão, portanto, é um fenômeno sexual, político, social, psíquico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas”.
Também podemos pensar que a fase da adolescência está muito ligada à subversão. Nos colocamos de costas para a porta de casa, olhamos para a rua e buscamos nos identificar com o mundo lá fora. Questionamos, subvertemos e transgredimos as regras. Mas, se todo sujeito carrega em si algumas características perversas, onde moram os limites? Moram dentro de casa. Nos valores aprendidos e apreendidos pelas vias da educação, do amor e do processo civilizatório e suas leis.
A morte de Orelha, consequência da tortura a que ele foi submetido, nos mostra que falhamos enquanto humanidade. Mais uma vez nos deparamos com a nudez do rei e seu espetáculo de horrores. Porque não é que possamos impedir pensamentos e desejos destrutivos contra os outros e nós mesmos. Mas não podemos transformá-los em ato! Simples assim. É aí onde mora a interdição civilizatória, perpetuada pelo mito de Édipo que matou seu pai, desposou a própria mãe, teve filhos com ela na total inocência de sua condição. E, ao tornar-se consciente de seu delito, furou os próprios olhos e saiu a vagar pelo mundo, finalmente leve e livre de seu triste destino.
Insegurança, indignação e culpa
Uma outra nuance no caso do cão Orelha é pensar em vínculos. Vivendo há mais de uma década na praia do litoral catarinense, ele era um cão “comunitário”. Não era de ninguém e, ao mesmo tempo, era de todo mundo. Pois bem, quando casos desses ocorrem, a perda e a vergonha são compartilhadas. A praia perde seu suporte emocional coletivo, pairam no ar sensações de insegurança, indignação e, muito provavelmente de culpa. Se Orelha vivesse sob a tutela de um lar e uma família, provavelmente, haveria menos propensão de ele ter sido torturado da maneira como foi, já que na rua, sempre tinha a possibilidade de ser um “alvo fácil” para a maldade. Neste caso, a pior delas: a humana.
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Texto escrito em coautoria com Cellina Muniz, escritora e professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Sheyla de Azevedo é jornalista, psicanalista e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte










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