(Foto: Brasilcoms)

A Matemática de Mossoró não é a matemática dos corruptos!

Mossoró tem história, inteligência coletiva e uma ética cotidiana construída por milhares de cidadãos que acordam cedo, pagam impostos, buscam educar seus filhos e sustentam a cidade com esforço honesto. Essa é a verdadeira matemática de Mossoró: a soma de vidas reais, de gente batalhadora e de expectativas legítimas de direitos que merecem ser respeitados. Não é, portanto, a matemática dos corruptos que define quem são seus cidadãos.

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Políticos e empresários corruptos enxovalham a dignidade da cidade e do RN, quando desviam recursos públicos para fins privados e chamam suas práticas de “a matemática de Mossoró”. Envergonham a população ao tratar o orçamento público como se fosse um caixa pessoal, destinado a alimentar privilégios mesquinhos e ambições pequenas.

Mas atos como os que estamos vendo ser noticiados nos últimos dias, ocorridos no RN, já não são uma novidade no nosso estado e no país. Tornaram-se banais: fraudar licitações, manipular contratos, superfaturar serviços, tudo para ficar com alguns poucos trocados que custam caro à coletividade, já não são surpreendentes; embora não deixem de causar indignação a quem não tolera corrupção e fraude no uso de recursos públicos.

Desprezo pela sociedade

Há algo de particularmente degradante nos comportamentos de empresários e políticos corruptos no nosso país (e fora dele, claro!). Não se trata apenas de crime, mas de desprezo moral pela sociedade, pelo país, por suas cidades e por sua gente. Quem se apropria da coisa pública de modo fraudulento age com menosprezo em relação ao bem comum. E quem não se ocupa em oferecer empreendimentos privados legítimos e de qualidade ou serviços públicos corretos não se importa com boas práticas e políticas que beneficiem a todos, não vê a sociedade e as cidades como espaços de cuidado, mas territórios de extração “fácil” de “dinheiro”.

No caso específico de políticos, o nosso país já está habituado a ver esses roteiros se repetirem. Homens e mulheres se candidatam a cargos públicos com discursos inflados de “compromisso social”, “moralidade” e “amor à população”, mas, na primeira oportunidade, comportam-se como ladrões dos recursos públicos. A retórica das campanhas dissolve-se rapidamente diante do apetite pela vantagem indevida.

Esses mesmos homens e mulheres demonstram desprezar algo fundamental: o cuidado dos outros e, pois, nele, o cuidado da sociedade, o cuidado da cidade, a sede da vida de todos. Tema central de alguns filósofos gregos antigos, o cuidado dos outros, o cuidado da pólis, requer, em primeiro lugar, o cuidado de si. Não como exercício narcisista, mas como uma exigência ética para quem pretende cuidar dos outros, da pólis, da cidade. Sócrates ensina isso ao extravagante Alcebíades, um filho da aristocracia ateniense, que o filósofo buscou guiar em direção à virtude, tendo se tornado político e general na Guerra do Peloponeso. A orientação filosófico-moral era: governar, dirigir, comandar pressupunham formar o caráter, disciplinar desejos, submeter interesses privados à razão e ao interesse público.

Muitos de nossos políticos atuais (e por toda parte), ao contrário, menosprezam essa orientação e princípio, revelando um vazio formativo que se traduz em práticas desonestas, grosseiras, enojantes. Talvez não podendo ser melhor representadas de outro modo que senão na ridícula imagem de uma caixa de isopor amarrotada, contendo cédulas de reais, amarradas por ligas, como os noticiários das TV e Internet mostravam para “ilustrar” reportagens sobre a inapropriada (mas sensacionalista e vil) manchete “a matemática de Mossoró”.

Capitalismo e corrupção

Alguns colegas marxistas dirão que a política como negócio é simplesmente o que ela pode ser no capitalismo. Há, nesse argumento, um assinalamento cabível, mas também um sestro intelectual a ser superado: reduzir toda a vida social a uma única “causa” e unicamente à “causa econômica”. É verdade que a cultura de valores da sociedade capitalista, em diferentes partes do mundo, estimula o individualismo patológico, a competição predatória e o modo de ser corrupto. Contudo, isso não significa que todos se tornem corruptos na sociedade. E que, no capitalismo, não há nada a fazer contra todas essas coisas. Há, sim, o que fazer! E esse “que fazer” se chama educação e formação moral!

Em Mossoró (e em todas as demais cidades) há muitas provas que, sob o céu da ideologia capitalista, não há apenas corruptos no mundo. A maioria da população não rouba, não frauda, não vive às custas do roubo dos recursos públicos. Vive dos salários de seu trabalho, respeita regras e sofre as consequências da corrupção de empresários e políticos sem escrúpulos. O problema, portanto, não é apenas sistêmico; é também moral. O que falta a essa gente que atua como “políticos” e a certos empresários é uma formação ética que lhes dotem de valores morais que interditem o apetite pelo roubo da coisa pública e interdite outras práticas lesivas ao bem público e ao bem viver de todos.

O Brasil, o RN e Mossoró não podem aceitar que suas imagens sejam sequestradas por uma minoria corrupta e predatória da res publica.

A matemática de Mossoró é outra: ela se faz de dignidade e luta pelo bem viver de todos. É verdade, pelo descaso de gestões políticas sucessivas com a cidade, Mossoró carece de infraestrutura básica em vários âmbitos e carece de melhores serviços públicos que atendam às necessidades e direitos da população.

Mas os corruptos passam; a cidade permanece. Cabe à sociedade e à cidade reafirmar, com clareza e firmeza, que Mossoró (como todo o RN) não é, e nem será, a soma das contas sujas de quem trai a confiança que se espera poder creditar a empresários e de quem trai o mandato público! Empresário e político que lesam cidadãos e fraudam a coisa pública não merecem a confiança do povo! Para o que não importa partido, corrente ou “cor” política!

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Alipio DeSousa Filho é professor do Instituto Humanitas UFRN