O esforço invisível de um bebê para mamar pode ser medido em calor. Um novo estudo brasileiro, publicado na revista CoDAS, mostrou que recém-nascidos com língua presa gastam mais energia durante a amamentação — e que esse esforço diminui após a cirurgia de correção. A apuração é da Agência Bori.
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Usando câmeras de termografia infravermelha, técnica não invasiva que capta variações de temperatura da pele (já que músculos mais exigidos tendem a gerar mais calor), pesquisadores conseguiram visualizar mudanças na ativação muscular da face depois do procedimento, associadas a uma sucção mais eficiente.
Ativação da musculatura
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e parceiros, acompanhou 40 bebês diagnosticados com anquiloglossia, a chamada língua presa. O estudo analisou a ativação dos músculos envolvidos na sucção — temporal (na lateral da cabeça, na região das têmporas), masseter (na mandíbula, perto do ângulo do maxilar) e bucinador (na bochecha) — durante a amamentação, antes e após a frenotomia lingual.
A decisão de operar bebês com língua presa costuma gerar dúvidas e angústia nas famílias, especialmente quando as dificuldades na amamentação não são facilmente explicadas. Nem todos os casos exigem intervenção cirúrgica, mas a avaliação funcional da sucção pode ajudar pais e profissionais de saúde a ponderar riscos e benefícios de forma mais informada.
Segundo a fonoaudióloga Midiane Gomes da Silva, autora principal do estudo, a limitação anatômica causada pela anquiloglossia pode alterar a mecânica da sucção, exigindo adaptações no uso da musculatura facial.
“Estudos mostram que bebês com anquiloglossia frequentemente têm um padrão de sucção diferente e potencialmente menos eficiente do que bebês sem a condição, com sequências de sucção mais longas e interrupções frequentes, o que pode estar associado a maior esforço durante a amamentação. Revisões científicas também mostraram que anquiloglossia tende a dificultar a pega correta, a duração da mamada e a transferência eficiente do leite materno, além de estar relacionada a relatos de dor nos mamilos por parte das mães”, explica Silva.
Redução de dor na mãe
Depois da frenotomia, houve aumento de temperatura superficial nos músculos temporal e masseter, associados à sucção eficiente. Isso indica uma mudança no padrão de ativação muscular, com menor uso de músculos compensatórios.
Na prática, os dados sugerem que, antes da cirurgia, o bebê precisa recrutar mais musculatura e gastar mais energia para realizar uma função que deveria ser mais econômica — um quadro compatível com sobrecarga funcional durante a amamentação.
Além das mudanças observadas no padrão de ativação muscular do bebê, o estudo também identificou melhora nos aspectos da amamentação avaliados por protocolo clínico. A maioria das mães relatou percepção de sucção mais eficiente após o procedimento.
“A literatura científica mostra que a redução da dor durante a amamentação após a frenotomia costuma estar associada à melhora da pega e da dinâmica da sucção. Com maior mobilidade da língua, o bebê tende a mamar de forma mais funcional”, afirma a pesquisadora.
Para os autores, os dados visuais da termografia funcionam também como uma validação para as famílias, mostrando que o procedimento traz um benefício funcional mensurável.
“Quando os pais sabem que a dificuldade na amamentação pode estar relacionada à língua presa, eles conseguem tomar decisões mais conscientes”, conclui a autora. “A realização do teste não obriga os pais a optarem pela cirurgia, mas os deixa cientes e orientados.”
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